Europa Senil: a União Que Escreve Comunicados e Assina o Próprio Atestado

- Ucrânia (desde Fev. 2022): "Team Europe" (UE + Estados-membros) refere cerca de €177,5 mil milhões disponibilizados em apoio à Ucrânia (síntese EPRS/PE com base em números da Comissão).
- Ajuda militar via UE: o Conselho da UE indica €6,1 mil milhões mobilizados (2022–2024) através da European Peace Facility.
- O "travão" de 2025: o Kiel Institute alerta que, em 2025, a Europa alocou apenas cerca de €4,2 mil milhões em nova ajuda militar — insuficiente para compensar a quebra dos EUA.
- Gaza/Palestinianos: o Conselho da UE refere €1,6 mil milhões de apoio humanitário "Team Europe" ao Território Palestiniano Ocupado desde 7 de Outubro de 2023.
- Sanções: a UE criou um quadro específico de medidas restritivas contra quem apoie/viabilize violência por Hamas e Jihad Islâmica Palestina (Jan. 2024).
- Paradoxo europeu: Alemanha expande o contrato do sistema israelita Arrow-3 (acordo adicional anunciado em Dez. 2025).
Europa Senil: a União Que Escreve Comunicados e Assina o Próprio Atestado
Há um mal que não se cura com cimeiras, nem com hashtags, nem com o ritual do "profundamente preocupado": chama-se amnésia selectiva. E a Europa, hoje, parece uma casa antiga onde a mobília é cara, as paredes são nobres, mas o dono esqueceu onde guardou as chaves — e, pior, esqueceu que o ladrão anda no corredor.
1) A grande arte europeia: transformar a urgência em papel timbrado
A guerra na Ucrânia não é um acidente meteorológico; é um teste de civilização. E a UE respondeu com dois movimentos simultâneos: apoio real (dinheiro, instrumentos, alguma coordenação) e impotência crónica (ritmo, escala, produção, unidade). Sim, há números respeitáveis — mas há uma pergunta que os comunicados evitam: quanto desse apoio chega com a velocidade da necessidade?
Num conflito de desgaste, a moral sem logística é só poesia — e a logística sem indústria é só esperança. Quando o Kiel Institute nota que as novas alocações europeias de ajuda militar em 2025 caíram para níveis perigosamente baixos, não está a fazer literatura: está a ler a mecânica do tempo. E o tempo, ao contrário dos ministros, não "promete reforçar"; ou reforça, ou passa.
A Europa, neste ponto, comporta-se como um condomínio: todos concordam que o prédio está a arder, mas a assembleia discute primeiro a cor do extintor — e a acta da reunião sai impecável.
2) O "paizinho" e o vício confortável da tutela
Desde o pós-guerra, a paz europeia teve um cofre: o guarda-chuva americano. Não é insulto; é arquitectura histórica. O problema é que décadas de tutela criam um tipo de elite que confunde segurança com garantia automática. Depois chegam anos como estes e descobre-se que a realidade não respeita a nostalgia.
A Europa gosta de condenar Washington com uma indignação que parece sempre moral — mas muitas vezes é só desconforto por perceber que o "adulto da sala" pode, um dia, sair. E quando isso acontece, a UE não tem um "plano B"; tem um painel de especialistas.
3) Gaza, Israel, Hamas: a régua elástica da virtude
Aqui a amnésia selectiva vira espectáculo. A Europa proclama princípios — e depois tropeça na sua própria mecânica: 27 Estados, 27 agendas, unanimidades que produzem frases impecáveis e acções mínimas. Entre a urgência humanitária e a geometria política, a UE cai na sua tentação favorita: parecer.
Sim: há ajuda humanitária significativa; sim: há quadros de sanções e listas; sim: há linguagem dura sobre colonatos, violência e direito internacional. Mas a pergunta que fica, nua e sem maquilhagem, é esta: onde está o plano europeu para transformar "declarações" em "condições"?
Porque pedir uma "solução" em Gaza sem capacidade efectiva para reduzir o poder de estruturas armadas, sem arquitectura credível de governação pós-conflito, e sem músculo político para sustentar o que se exige, é como exigir silêncio a um incêndio: não é diplomacia; é superstição.
4) O paradoxo mais europeu: moral na tribuna, pragmatismo no contrato
Nada ilustra melhor a coreografia europeia do que isto: discursa-se sobre o "mau da fita", mas compra-se o colete salva-vidas ao "mau da fita". A Alemanha expande contratos do Arrow-3 — por medo real, por cálculo real, por geografia real. Mísseis não se afastam com editoriais.
Isto não prova hipocrisia automática — prova que a Europa sabe perfeitamente quando a realidade é concreta. O que se torna moralmente indigesto é a diferença de postura: quando é para comprar defesa, a decisão aparece; quando é para assumir estratégia coerente, surge a névoa. A virtude, em Bruxelas, é frequentemente um equipamento de palco.
5) A União senil: memória curta, indignação longa
A Europa tem hoje um discurso treinado para a indignação e mal treinado para a consequência. É uma União onde "solidariedade" aparece com brilho — mas "capacidade" aparece com medo. Confunde-se "boa consciência" com "boa governação". E, assim, a Europa vai ficando perita em condenar o mundo enquanto se absolve a si própria.
É aqui que a senilidade ganha forma política: a UE recorda sempre o que a faz sentir virtuosa; esquece sempre o que a obriga a ser adulta. O resultado é um continente que fala como império moral e age como federação de hesitações.
Epílogo: reinventar-se ou transformar-se num museu com wi-fi
O mundo virou a página. A Europa discute a lombada. Pode continuar a viver no conforto moral de cartazes antigos — e acordar, um dia, sem voz, sem indústria, sem energia política e sem aliados. Ou pode aceitar que a paz não é uma recordação: é uma construção diária, cara, imperfeita, e absolutamente realista.
- Parlamento Europeu (EPRS): State of play: EU support to Ukraine
- Conselho da UE (EPF): European Peace Facility
- Kiel Institute (UST): Europe fails to offset US aid drop
- Conselho da UE (ajuda humanitária): EU humanitarian support for Palestinians
- Conselho da UE (sanções Hamas/PIJ): Sanctions framework (Jan. 2024)
- Arrow-3 (contrato Alemanha–Israel): Reuters (18 Dez. 2025)
- Conselho Europeu (posições sobre Médio Oriente): Conclusões (18 Dez. 2025)