Estado Social não é Socialismo: é apenas civilização

- Confusão recorrente: na Europa, Estado social é frequentemente rotulado como "socialismo".
- Realidade: todos os países capitalistas avançados possuem Estado social.
- Diferença essencial: Estado social é mecanismo de protecção; socialismo é modelo económico-político.
- Consequência: o debate público degrada-se em slogans e perde-se a substância civilizacional.
Estado Social não é Socialismo: é apenas civilização
A Europa entrou num estranho delírio semântico: sempre que alguém pronuncia as palavras saúde pública, educação ou protecção social, alguém grita do fundo da sala — "isso é socialismo!"
Não é. Nunca foi. Nem sequer se aproxima.
O Estado social não nasceu da ideologia — nasceu do escombro. Veio depois de guerras, fome, crianças sem escola, idosos a morrer nas ruas e trabalhadores tratados como peças descartáveis. Não foi Marx que o inventou. Foi a realidade quando deixou de poder ser ignorada.
Estado social é extintor, não projecto de incêndio
O socialismo — nas suas múltiplas versões — é um desenho completo de sociedade: quem produz, quem decide, quem detém os meios, quem planeia.
O Estado social é outra coisa bem mais modesta: é o extintor na parede.
Não serve para governar o edifício. Serve para impedir que arda.
Nenhum país desenvolvido vive sem ele. Nem a Alemanha liberal. Nem a Holanda mercantil. Nem a Suécia capitalista. Nem o Japão empresarial.
Todos são economias de mercado. Todos têm Estado social. Nenhum é socialista.
O mito útil
A confusão não é inocente. É útil.
Chamar "socialismo" ao Estado social permite três truques políticos:
- transformar direitos básicos em privilégios suspeitos;
- reduzir pessoas a custos contabilísticos;
- substituir debate por medo.
Quando se diz "isto é socialismo", já não é preciso explicar nada. Corta-se. Privatiza-se. Empurra-se para o indivíduo aquilo que deveria ser colectivo.
Depois admiram-se da fragmentação social, da violência económica e do ressentimento democrático.
O paradoxo europeu
A Europa construiu o maior espaço de prosperidade do mundo exactamente porque combinou mercado com protecção social.
Agora tenta sobreviver destruindo a mesma arquitectura que a fez avançar.
É como alguém que decide remover os travões do carro porque ouviu dizer que travões são coisa de comunistas.
O verdadeiro inimigo
O inimigo não é o Estado social.
O inimigo é:
- a incompetência;
- a burocracia parasitária;
- a captura política;
- a ausência de métricas;
- a mediocridade institucional.
Mas combater isso exige trabalho. Enquanto gritar "socialismo" dá menos chatices.
Civilização não é ideologia
Um país onde um doente não escolhe entre tratar-se ou comer não é socialista. É civilizado.
Um país onde uma criança aprende independentemente do rendimento dos pais não é comunista. É inteligente.
Um país onde envelhecer não significa miséria não é ideológico. É humano.
O Estado social não existe para substituir o mercado. Existe para que o mercado não destrua a sociedade que o sustenta.
Quando tudo passa a ser chamado de socialismo, o problema já não é ideológico. É cognitivo. E sociedades que deixam de saber distinguir conceitos acabam, inevitavelmente, por deixar de saber distinguir o certo do conveniente.
Crónica para Fragmentos do Caos — co-autoria editorial com Augustus Veritas.