BOX DE FACTOS
  • Palco: Davos, Suíça — fórum económico global.
  • Tom: hostilidade, ameaça, chantagem tarifária e confronto diplomático.
  • Alvos recorrentes: União Europeia, aliados europeus e a arquitectura de alianças transatlânticas.
  • Risco central: imprevisibilidade estratégica e erosão de confiança institucional.
  • Questão: até quando o silêncio interno (Senado/partido/instituições) sustentará a deriva?

Davos e o Brado do Punho: o Bárbaro no Palco do Século XXI

Hoje, a palavra não foi ponte — foi martelo. E quando o martelo fala, a civilização aprende a ouvir o som das fissuras.

O que se ouviu em Davos não foi apenas um discurso: foi um abalo sísmico, desses que fazem tremer as placas tectónicas invisíveis do mundo. Não foi só retórica: foi um ensaio geral de ruptura dito ao microfone, em voz alta, com a arrogância de quem confunde palco com império.

Trump não fala como estadista. Fala como chefe tribal zangado, brandindo tarifas como clavas e a mentira como método. Repete falsidades até que o ruído substitua a razão — e confunde poder com intimidação, liderança com medo.

Gelo e Fogo: a Diferença Entre o Previsível e o Errático

Putin, outro autocrata, é previsível na sua brutalidade. É gelo. Sabemos onde corta. Trump é fogo instável. Não sabemos onde alastra amanhã. E isso é mais perigoso. Porque o gelo mata — mas o fogo pode incendiar a casa inteira, inclusive quem julgava estar seguro no quarto ao lado.

O mais assustador não é o homem — é o silêncio à volta dele. O Senado calado. O partido refém. As instituições a fingirem normalidade enquanto o edifício arde devagar. Há uma teatralidade trumpiliana nesta calma artificial: a orquestra toca, o salão sorri, e o navio inclina-se.

Tarifas como Clava: Economia Transformada em Castigo

As alianças que levaram 80 anos a construir são tratadas como contratos de casino. A NATO vira moeda de chantagem. A União Europeia é descrita como inimiga — não por fazer guerra, mas por existir e poder vur a brilhar.

E sim: há algo de profundamente abominável em ver um presidente americano — herdeiro do Plano Marshall, filho político da vitória contra o fascismo, guardião histórico do Atlântico democrático — estender a mão a autocratas e apontar o dedo às democracias. É uma inversão moral da História.

As "taxas e taxinhas" não são política económica — são castigo imperial. Não constroem indústria. Não protegem trabalhadores. Isolam, encarecem, empobrecem. A América fecha-se como um punho — e um punho fechado não constrói nada. Só parte.

O Mundo Já Não é Um Só Trono

Mas há uma verdade fria (e libertadora): o mundo já não é unipolar. Os EUA continuam poderosos, sim — mas já não mandam sozinhos. A União Europeia, lenta e burocrática, é verdade — mas é hoje um grande bloco económico e regulatório, um mercado civilizacional baseado em regras. Trump pode gritar. Pode ameaçar. Pode insultar. Mas não pode apagar isto.

A História ensina-nos algo curioso: os impérios não caem quando são atacados — caem quando deixam de compreender o mundo que ajudaram a criar. E Trump não compreende o século XXI.

Não compreende redes. Não compreende interdependência. Não compreende ciência, clima, tecnologia, IA, cadeias globais. Chamam-lhe "política transaccional" — expressão elegante para disfarçar o vazio. Mas que coisa é esta, afinal? Uma nação a negociar como quem regateia no mercado da fruta? Ou um império a comportar-se como vendedor de petróleo no mercado negro da História? O mundo da comunicação agarrou-se a este acrónimo como quem lança um colete salva-vidas sobre o absurdo, tentando explicar o inexplicável. E insistem — jornalistas, comentadores e propagandistas de serviço — em chamar a isto política. Geopolítica, até. Alguma nova ciência da banalidade, talvez. Mas é tempo de dar nome às coisas. Isto não é política. Não é doutrina. Não é estratégia. É um caos de decisões erráticas, improvisadas ao sabor do humor matinal, concentradas nas mãos de um presidente instável à frente da maior potência do planeta — os Estados Unidos da América. Não governa princípios. Não governa valores. Governa impulsos. E quando o destino do mundo depende do temperamento de um homem, a História deixa de ser escrita — passa a ser jogada aos dados.

Vê o planeta como um mapa de alfândegas. E enquanto ele mede o mundo a taxas, o futuro passa-lhe por cima — silencioso. Fala de tudo e a propósito de nada, mas não abrange sequer uma única buzzword.

A Europa Terá de Crescer

A Europa terá de crescer. Defender-se. Pensar por si. Talvez esta brutalidade seja o empurrão final para acordarmos. Às vezes, a História não avança com discursos — avança com choques. E sim, vivemos tempos perigosos. Mas também tempos de escolha.

Porque quando os bárbaros gritam à porta, as civilizações ou se rendem — ou finalmente se tornam adultas. E eu acredito — apesar de tudo — que a razão, lenta mas teimosa, acabará por vencer.

Epílogo: A Maré Não Discute com o Rochedo

Nem sempre vence depressa. Mas vence. Como a maré: não discute com o rochedo — contorna-o… e acaba por levá-lo consigo.

Vivemos em tempos estranhos. Mas enquanto houver pensamento livre, palavra escrita e memória histórica, o mundo ainda não está perdido.

Francisco Gonçalves  •  co-autoria editorial com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — onde a lucidez não pede licença.

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