Contra a cruzada anti-IA: quem recusa o progresso fica para trás

- O que está em causa: reacções recorrentes contra o uso da IA, muitas vezes com linguagem alarmista.
- A ideia central: o progresso não pede licença — quem não o entende fica para trás.
- O ponto decisivo: a IA deve ser aplicada com critério por área, reforçando o melhor da humanidade.
- O risco real: usar IA como substituto de consciência, ética e responsabilidade.
- A proposta: colaboração homem-máquina para maximizar produtividade, dignidade e cuidado social.
Contra a cruzada anti-IA: quem recusa o progresso fica para trás
Há por aí, outra vez, os dias do costume: campanhas contra o uso da Inteligência Artificial, discursos apressados, indignações com cheiro a passado. É curioso como certas eras se defendem com slogans — mas o futuro, esse, não é um debate parlamentar. É um fenómeno físico: acontece.
A verdade é simples e implacável: quem não compreender o progresso vai ficar para trás. Não por castigo, não por maldade da tecnologia, mas pela mais antiga das forças humanas — a inércia e a resistência à mudança. Aquilo a que eu uso chamar de "código dos mortos".
A IA não é um inimigo: é um amplificador
A IA não é um monstro, nem um salvador. É, sobretudo, um espelho amplificador. Amplifica o génio e amplifica a mediocridade. Multiplica a clareza — e multiplica o ruído. A diferença não está no algoritmo: está no humano que o orienta.
O erro comum é querer usar a IA como substituto de consciência, quando ela só deve ser extensão da inteligência. A máquina pode sugerir, sumarizar, organizar, calcular, prever padrões. Mas não pode — nem deve — substituir o juízo moral, a responsabilidade e o dever de cuidado.
Cada área exige critério: onde a máquina reina, e onde o humano é insubstituível
Há tarefas onde a máquina é soberana: cálculo, repetição, triagem, análise massiva, detecção de padrões, automação administrativa. E há territórios onde continuará a reinar o humano: ética, empatia, sentido, criação, decisão moral, responsabilidade perante o outro.
Quando bem usada, a IA não rouba humanidade — liberta-a. Liberta o médico d burocracia do papel inútil. Liberta o professor da burocracia estéril. Liberta o programador do código mecânico para o devolver à arquitectura e à visão. E liberta o cidadão do tempo perdido para o devolver à vida.
Não é homem ou máquina: é homem com máquina
A escolha real não é "homem ou máquina". É homem com máquina. Uma colaboração lúcida, vigilante, ética — onde o humano define o rumo e a máquina carrega o peso.
Quem hoje luta contra a IA por medo lembra aqueles que combateram a electricidade, o comboio, a imprensa, o computador, a internet. Diziam sempre o mesmo: "vai destruir empregos", "vai desumanizar", "vai ser o fim". E, no entanto, aqui estamos — mais vivos quando escolhemos pensar.
O perigo não é a IA — é a estupidez natural não combatida
O verdadeiro perigo não é a inteligência artificial. É a estupidez natural quando deixa de ser combatida: a preguiça mental, a irresponsabilidade, a fuga à ética, a substituição do esforço por atalhos, o culto da aparência sem substância.
A sociedade de amanhã será inevitavelmente híbrida: biológica no sentir, digital no operar, humana no decidir. E só haverá progresso verdadeiro se a IA for usada para:
- aumentar a dignidade humana
- reduzir desigualdades
- libertar tempo para viver
- proteger os mais frágeis
- expandir conhecimento
- cuidar do planeta
- devolver sentido ao trabalho
Uma sociedade mais produtiva — e mais cuidadora
Não basta querer uma sociedade mais produtiva. Precisamos de uma sociedade mais cuidadora. A produtividade sem ética é apenas velocidade rumo ao abismo. A tecnologia sem consciência é só potência sem direcção.
O futuro não pede permissão. Mas pede sabedoria. E quem olha para a IA não com deslumbramento ingénuo, nem com medo tribal, mas com critério, responsabilidade e visão, já está — silenciosamente — alguns quilómetros à frente na linha do tempo.
No fim, a questão não é "usar IA" ou "não usar IA". A questão é: para que fins, com que regras, e com que consciência. Porque a máquina, por si, não é moral — mas nós somos responsáveis pelo mundo que construímos com ela.
Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team