Quando o Poder Imagina o Exílio: Estará o Regime dos Aiatolas por um Fio?

- O rumor: circula a alegação de um "Plano B" — fuga para Moscovo — se o regime perder controlo.
- O que se sabe: há protestos há mais de uma semana, com repressão dura e relatos de mortos e detenções.
- O que interessa politicamente: um regime não treme só com a rua; treme quando começa a tremer por dentro.
- Regra antiga: o poder raramente cai num dia; apodrece primeiro no silêncio das elites.
Quando o Poder Imagina o Exílio: Estará o Regime dos Aiatolas por um Fio?
A frase correu como pólvora: Ali Khamenei equacionará fugir para Moscovo caso os protestos se intensifiquem e as forças de repressão falhem. É o tipo de notícia que dá cliques, provoca gargalhadas nervosas, e serve bandejas de esperança a quem já está farto do medo. Mas convém ter sangue-frio: um rumor pode ser arma, pode ser dissuasão, pode ser guerra psicológica — e pode ser também, em raros momentos, o som discreto de um império a preparar a mala.
Não é a "fuga" que importa: é o facto de se falar dela
Um líder absoluto não tem de fugir enquanto manda. Só imagina rotas quando a palavra "controlo" começa a ganhar fissuras. E por isso a pergunta certa não é "Khamenei vai mesmo para Moscovo?" — a pergunta certa é: por que razão o mundo acredita que isso é plausível?
A plausibilidade é o primeiro golpe na aura. A aura é a primeira muralha de um regime. E quando essa muralha deixa de parecer indestrutível, os alicerces ouvem-se a ranger, mesmo sem câmaras.
O Irão não ferve apenas na rua: ferve na estrutura
Protestos podem ser reprimidos — e o regime iraniano tem experiência nisso, com um inventário antigo de violência e controlo. O problema é quando a rua não é apenas "rua". O problema é quando os protestos são o sintoma visível de três fracturas simultâneas:
1) Fractura social. Quando a indignação deixa de ter um rosto único e se espalha por cidades, classes, idades e profissões, o regime fica sem "um inimigo" para apontar. A multiplicação é o pesadelo do poder.
2) Fractura económica. A moeda que cai, o custo de vida que sufoca, a juventude sem horizonte: a economia é o lugar onde a propaganda perde por KO. Um cartaz pode mentir; o frigorífico não.
3) Fractura do próprio topo. A sucessão de Khamenei é um nó de ferro. Regimes personalistas têm um segredo: parecem eternos… até ao dia em que o corpo do líder se torna uma agenda política.
"Por um fio" — mas não um fio de algodão
Está o regime "por um fio"? Talvez. Mas não por um fio frágil, de teia leve: por um fio tenso, esticado ao limite, preso em ganchos de repressão. O regime ainda dispõe de aparelhos armados, redes de vigilância, e capacidade de esmagar. A questão é outra: quanto tempo consegue esmagar sem se esmagar a si próprio?
Porque a repressão contínua consome também os seus executores. E um regime começa a cair quando os seus pilares — burocratas, comandantes, financiadores, cúmplices — concluem que defender o sistema já não compensa o risco.
A regra de ouro: os regimes caem quando as elites deixam de acreditar
A rua pode gritar meses.A rua pode sangrar anos. O que faz ruir um regime é a mudança silenciosa de cálculo dentro da casa: quando os que sustentam o poder decidem que a sobrevivência pessoal vale mais do que a lealdade institucional. É nesse instante que a história acelera.
Epílogo: Moscovo como metáfora
Moscovo, aqui, é mais do que um destino. É uma metáfora do século XXI: o "porto de abrigo" dos regimes que se mantêm por força e se protegem por alianças de ferro, quando o povo já não aceita viver eternamente sob o mesmo tecto de medo.
Mesmo que Khamenei nunca fuja, a simples ideia de que poderia fugir é um presságio: a República Islâmica pode continuar de pé — mas já não caminha sobre rocha. Caminha sobre terreno que se move.
Co-autoria: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team