Carta Aberta à Classe Política Portuguesa — Reflexão Institucional e Histórica sobre o Dever de Escutar o País

- Tipo: Carta aberta (reflexão institucional e histórica).
- Destinatários: Classe política portuguesa e responsáveis pela governação da República.
- Tese central: A distância entre poder político e sociedade civil enfraquece a democracia e empobrece a inteligência do Estado.
- Ideia-chave: Escutar não é fraqueza — é maturidade democrática e condição de futuro.
- Intenção: Contributo sereno, exigente e republicano para debate público.
Carta à Classe Política Portuguesa
Reflexão Institucional e Histórica sobre o Dever de Escutar o País
Senhoras e Senhores responsáveis pela governação da República,
A História ensina-nos que nenhuma nação declina subitamente.
Os países não caem — desgastam-se.
Desgastam-se quando deixam de escutar.
Quando o poder se afasta da sociedade.
Quando a governação se fecha sobre si própria e confunde estabilidade com imobilismo.
Portugal atravessa hoje um desses momentos silenciosos em que o futuro não ruge — afasta-se.
Não por ausência de recursos humanos, nem por falta de inteligência colectiva, mas por uma fragilidade mais subtil e mais perigosa: a distância crescente entre a classe política e a sociedade civil.
Ao longo das últimas décadas consolidou-se um modelo de governação excessivamente centrado nos aparelhos partidários, nos ciclos eleitorais e nas lógicas internas do poder, reduzindo progressivamente os canais de escuta efectiva do país real.
Criou-se, assim, uma elite política competente na gestão do imediato, mas frequentemente incapaz de acolher contributos externos ao seu próprio perímetro.
Portugal possui universidades e centros de investigação reconhecidos, quadros técnicos altamente qualificados, profissionais experientes na indústria, na ciência, na tecnologia e na administração, e uma diáspora de enorme valor intelectual.
Contudo, esse património humano raramente participa na definição estratégica do país.
Não por falta de disponibilidade, mas por ausência de mecanismos reais de escuta e integração.
A governação democrática exige mais do que representação formal.
Exige diálogo estruturado, permanente e plural.
Quando as ideias são avaliadas pela sua origem política e não pelo seu mérito, a democracia empobrece.
Quando a sociedade civil é vista como ruído e não como contributo, o Estado perde inteligência.
Quando o poder deixa de ouvir, deixa também de aprender.
Este afastamento não resulta, na maioria dos casos, de má-fé individual.
Resulta antes de uma cultura política que, ao longo do tempo, se tornou autocentrada, defensiva e progressivamente impermeável à crítica construtiva.
A História europeia mostra-nos que momentos semelhantes precederam longos períodos de estagnação nacional.
Num mundo marcado por transformações tecnológicas profundas, por novas tensões geopolíticas e por uma competição económica sem precedentes, os Estados que prosperam são precisamente aqueles que valorizam o conhecimento independente, integram pensamento crítico nas decisões públicas e criam pontes entre política, ciência, economia e cidadania.
Portugal não pode continuar a governar-se com instrumentos mentais do passado, quando o presente exige visão estratégica e humildade institucional.
A recusa da mudança não preserva estabilidade — apenas adia a irrelevância.
O futuro do país não depende apenas de orçamentos, reformas ou ciclos eleitorais. Depende, sobretudo, da capacidade de quem governa reabrir os ouvidos da República.
Escutar não é sinal de fraqueza.
É sinal de maturidade democrática.
Ainda existe tempo para reconstruir pontes entre o poder político e a sociedade civil.
Mas o tempo histórico não é infinito.
A História não julga intenções — julga resultados.
Que este período não seja recordado como o tempo em que o país sabia o que precisava de mudar, mas escolheu não ouvir.
Com respeito institucional, espírito republicano e sentido histórico,
Francisco Gonçalves
Cidadão da República
(A democracia é escuta — ou é apenas cenário.)
Imagens - créditos para OpenAI (c)