Capitalismo Selvagem: a Lei da Selva, a Coopetição e o Regresso da Colaboração

BOX DE FACTOS
- Competição pode gerar inovação; competição desenfreada gera predação.
- Capitalismo selvagem é mercado sem ética, sem limites e com captura do poder.
- Coopetição é competir onde faz sentido e cooperar onde a sobrevivência do ecossistema exige.
- Colaboração não é romantismo: é engenharia social aplicada à prosperidade partilhada.
- Sociedades avançadas protegem bens comuns (educação, saúde, infra-estruturas, conhecimento).
Capitalismo Selvagem: a Lei da Selva, a Coopetição e o Regresso da Colaboração
Há uma frase que atravessa o nosso tempo como uma lâmina: a ideia de que competir é natural, inevitável, saudável — e que colaborar é coisa de ingénuos, de sonhadores, de gente que não entendeu "o mundo real".
O "mundo real", porém, é uma construção. E a forma como o construímos determina se a sociedade se parece mais com uma cidade… ou com uma arena.
A lei da selva não é economia — é regressão
A lei da selva é simples: vence quem morde mais forte, quem tem mais dentes, quem chega primeiro ao pescoço. É a lógica da predação: eu ganho porque tu perdes. Eu cresço porque te esmago. Eu subo porque te empurro.
Quando esta lógica entra no coração da economia, nasce o que muitos chamam — com espantosa normalidade — de capitalismo selvagem: mercado sem regras, concorrência sem limites, lucro como religião, e seres humanos reduzidos a custos, alvos ou estatísticas.
Isto não é "eficiência". É uma forma sofisticada de violência: não fere com punhos, fere com dívidas; não mata com balas, mata com abandono.
Competição: útil, perigosa, insuficiente
A competição tem virtudes. Pode estimular a criatividade, acelerar melhorias, obrigar a sair da complacência. Mas só funciona assim quando existe chão comum: regras claras, fiscalização, justiça, e um Estado que não esteja capturado por interesses privados.
Sem esse chão, a competição não premia o mérito: premia o acesso, a herança, a cunha, o monopólio, a manipulação. A "meritocracia" torna-se um cartaz luminoso a tapar a porta traseira.
E quando tudo se transforma em corrida — escola, trabalho, saúde, habitação — o resultado não é excelência. É exaustão.
Coopetição: o truque que separa selva de civilização
Aqui entra uma palavra que parece moderna, mas é antiga como as colmeias: coopetição. Não é "bondade". É estratégia.
Coopetição significa isto: competir no produto, no serviço, no detalhe — mas cooperar no que sustenta o ecossistema. Cooperar em normas, em investigação de base, em infra-estruturas, em ética, em segurança, em conhecimento partilhável.
É o reconhecimento de uma verdade simples: há batalhas que se vencem sozinho, mas há futuros que só se constroem em conjunto.
Colaboração: a economia do amanhã já existe
A colaboração não é poesia — embora seja bela. É tecnologia social. É o mecanismo pelo qual sociedades complexas evitam colapsos.
Repare-se: as maiores conquistas modernas assentam em colaboração maciça — ciência, medicina, padrões de comunicação, redes, internet, tecnologias de TI, open-source, investigação aberta, conhecimento acumulado. A narrativa do "herói solitário" é uma lenda útil para vender biografias; a realidade é uma teia de contributos.
Onde há colaboração séria, há bens comuns protegidos: educação pública de qualidade, saúde acessível, justiça funcional, infra-estruturas robustas, e um mínimo de dignidade garantida para que o cidadão possa respirar antes de competir.
O capitalismo selvagem prospera na ignorância
Há uma relação directa entre capitalismo selvagem e fragilidade cívica. Quanto menos literacia económica e política existe, mais fácil é vender dogmas como se fossem leis da física.
Diz-se: "o mercado resolve". Diz-se: "não há alternativa". Diz-se: "se não consegues, a culpa é tua". É "o mercado a regular", a "democracia a funcionar". E assim se transforma um sistema em moral — e uma injustiça em defeito pessoal.
A lei da selva tem sempre um slogan à porta. O problema é o que acontece lá dentro.
O futuro: competir com ética, cooperar com visão
A questão não é abolir a competição. A questão é domesticá-la. Colocá-la ao serviço da vida, das sociedades, e não acima delas.
Uma sociedade adulta faz isto: cria regras para impedir predadores, reforça bens comuns, incentiva inovação, promove coopetição onde o progresso exige massa crítica, e cultiva colaboração como fundamento da prosperidade sustentada.
Porque a civilização não é um troféu. É um acordo. Um pacto quotidiano: eu abdico de te destruir — para que possamos construir algo que nenhum de nós conseguiria sozinho.
Se a economia é a forma como distribuímos possibilidades, então a pergunta final é inevitável: queremos uma sociedade onde se vence… ou uma sociedade onde se vive, onde se progride e inova?
Crónica económica e moral — entre a selva e a cidade.
Co-autoria editorial : Augustus Veritas & Francisco Gonçalves