Banif: Do Ouro Africano ao Estoiro Final — Roque, Berardo e a Factura para Portugal

- Horácio Roque parte adolescente para Angola; mais tarde fixa-se na África do Sul e torna-se parceiro de negócios de Joe Berardo.
- O Banif nasce a 15 de Janeiro de 1988, incorporando o activo e passivo da Caixa Económica do Funchal, então em dificuldades.
- O fim chega a 20 de Dezembro de 2015, com medida de resolução e venda ao Santander Totta.
- O apoio público e a factura foram estimados em valores na ordem dos 2,0–2,3 mil milhões € (com detalhe oficial de 2,255 mil milhões € numa comunicação governamental), variando conforme a forma de contabilização (Estado/Fundo de Resolução/outros efeitos).
- Este ensaio discute factos e mecanismos; evita acusações criminais sem sentença.
Banif: Do Ouro Africano ao Estoiro Final — Roque, Berardo e a Factura para Portugal
I — As origens: dois homens, duas biografias, um mesmo padrão
Horácio da Silva Roque nasce em Oleiros em 1944 e, segundo perfis biográficos, parte muito novo para Angola, onde faz negócios em múltiplas áreas — do comércio à educação privada — até à saída do território no contexto da descolonização. Depois, fixa-se na África do Sul, entre comunidades portuguesas, e entra num circuito de oportunidades onde a ambição e o risco eram quotidianos e a moral raramente vinha com recibo.
É nesse trajecto africano que surge a ligação decisiva: Roque conhece e aproxima-se de um madeirense emigrado, Joe Berardo (também nascido em 1944), cuja biografia pública o descreve como alguém que construiu fortuna ligada a actividades empresariais na África do Sul, incluindo o universo mineiro — um mundo onde se aprende cedo uma verdade simples: quem controla activos, controla tempo; e quem controla tempo, controla narrativas.
Este encontro não é um pormenor romântico: é um nó de rede. Portugal gosta de biografias "solitárias", do herói que vence "sozinho". Mas a riqueza quase nunca é solitária; é uma arquitectura de ligações, oportunidades e alavancas.
II — O regresso e a oportunidade: quando uma caixa falida dá à luz um banco
A fundação do Banif não acontece num vácuo: acontece sobre uma base concreta e problemática. Fontes jornalísticas e cronologias públicas descrevem que o Banif – Banco Internacional do Funchal nasce a 15 de Janeiro de 1988 a partir da incorporação do activo e passivo da Caixa Económica do Funchal, então em dificuldades. Em termos práticos: uma instituição regional problemática transforma-se numa instituição bancária com ambição nacional.
E aqui começa o filme português: um país que se modernizava, uma Madeira com peso político e financeiro, uma banca em expansão, e um Estado regulador que, em múltiplos momentos históricos, oscilou entre prudência tardia e "flexibilidade patriótica".
O Jornal de Negócios resume o gesto fundador com a clareza de quem já viu este guião: Roque e Berardo, enriquecidos em África, juntam investidores e propõem às autoridades a transformação da Caixa num banco; Roque aumenta participação e torna-se a cara e o dono. A partir daí, a marca cresce — e cresce também a convicção nacional de que crescer é o mesmo que ser sólido.
III — O lado "sórdido": quando a vida privada encontra o poder
Em Portugal, gosta-se de separar "homem" de "instituição", como se a banca fosse um motor sem condutor. Só que bancos são feitos de pessoas — e pessoas, quando têm poder, deixam rasto.
No caso de Horácio Roque, há registos públicos (incluindo perfis biográficos) sobre disputas familiares e patrimoniais após a sua morte envolvendo ex-cônjuge e família, com pretensões sobre herança. Isto, por si só, não prova nada sobre gestão bancária; mas revela um padrão: a grande fortuna raramente é pacífica. Há sempre alguém a reclamar um pedaço do bolo — e, por vezes, alguém a reclamar que o bolo foi feito na sombra.
Já no caso de Joe Berardo, as controvérsias públicas posteriores — noutros dossiês bancários — mostram a cultura de alavancagem e de crédito fácil a figuras "grandes demais" para serem tratadas como clientes normais. Não é necessário colar tudo ao Banif: basta perceber o ecossistema mental da época. Portugal criou, durante décadas, um tipo humano específico: o "comendador" que, de repente, passa a ser também "sistema".
IV — O declínio: quando um banco deixa de ser banco e passa a ser problema de Estado
O Banif atravessou anos de expansão e, como em muitos casos, a confiança foi servida como se fosse capital. Mas a banca não vive de confiança: vive de solvabilidade, governação prudente e supervisão efectiva. Quando um destes pilares falha, a factura não desaparece: muda apenas de morada — vai para o contribuinte.
O fim, apesar de múltiplos sinais ao longo de uma década, e que ninguém viu ou qus ver, como sempre, chega com brutalidade administrativa: a 20 de Dezembro de 2015, o Banco de Portugal aplica uma medida de resolução, formalizada em deliberação oficial, e decide a alienação de actividade e activos, com venda ao Santander Totta por 150 milhões €. O Governo e o BdP reconhecem custos elevados; a RTP noticiava então um apoio público na ordem dos dois mil milhões.
Em comunicações oficiais do Governo naqueles dias, surge o número que ficou como símbolo: 2,255 mil milhões € de ajuda do Estado. O Jornal de Negócios detalhava, na altura, mobilização com componentes do Estado e do Fundo de Resolução (com variações na forma de contabilizar) e falava em factura elevada. Noutras leituras e contabilizações (incluindo enquadramento europeu de auxílios estatais), aparece a ordem dos 2,25 mil milhões € como referência.
Traduzindo para português simples: o Banif acabou, mas a factura ficou. E quando a factura fica, raramente fica em quem decidiu — fica em quem paga impostos e não tem assessores.
V — A conta moral: contribuintes e investidores
Há duas dores distintas neste tipo de colapso:
1) O contribuinte.A resolução foi justificada como necessária para proteger depositantes e estabilidade. Só que o método português tem um vício: protege-se a estabilidade de curto prazo e condena-se o país ao cansaço de longo prazo. Dois mil e tal milhões aqui, mais um buraco ali, e o resultado é um país que trabalha para pagar o passado.
2) O investidor.Em resoluções, os accionistas tendem a ser os primeiros a perder — o que é, em teoria, a regra do capitalismo. Mas o nosso capitalismo é peculiar: quando corre bem, o lucro é privado; quando corre mal, a dor é social. E no meio ficam investidores, trabalhadores, fornecedores e a reputação do país — que se corrói a cada "era urgente".
Epílogo — A tragédia maior: um país treinado para aceitar
O Banif não é apenas um caso bancário. É um retrato nacional: a mistura de ambição com supervisão frágil, de condecorações com irresponsabilidade, de modernidade retórica com governança artesanal.
E talvez a parte mais "sórdida" de todas seja esta: Portugal habituou-se a aceitar que a banca é um risco público permanente — como se fosse um fenómeno natural, tipo chuva de Novembro. Não é. É uma escolha política e institucional. E enquanto o país não exigir consequências reais, continuará a viver sob a mesma lei invisível: o poder ganha tempo; o povo paga juros.
Fontes
- Horácio Roque — biografia e percurso (Angola, África do Sul, Banif): https://pt.wikipedia.org/wiki/Hor%C3%A1cio_da_Silva_Roque
- Obituário / nota biográfica (Açoriano Oriental, 2010): https://www.acorianooriental.pt/noticia/morreu-horacio-roque-fundador-do-banif-204063
- Perfil DN (arquivo) "Horácio Roque: sucesso africano" (2009): https://www.dn.pt/arquivo/diario-de-noticias/horacio-roque%3A-sucesso-africano.html
- Joe Berardo — biografia e controvérsias públicas: https://pt.wikipedia.org/wiki/Joe_Berardo
- Perfil/Investigação (Visão, 2019) "Os segredos de Joe": https://visao.pt/atualidade/politica/2019-05-20-os-segredos-de-joe/
- Banif: "O filme dos 28 anos de uma história que acabou mal" (Jornal de Negócios, 2016): https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/banca---financas/detalhe/banif_28_anos_de_uma_historia_que_acabou_mal
- Banif vendido ao Santander com medida de resolução (Jornal de Negócios, 20-12-2015): https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/banca---financas/detalhe/banif_vendido_ao_santander_com_medida_de_resolucao
- Deliberação do Banco de Portugal (medida de resolução) (PDF, 20-12-2015): https://www.bportugal.pt/sites/default/files/deliberacao_20151220_2330.pdf
- RTP (21-12-2015) venda ao Santander e referência a custos elevados/apoio público: https://www.rtp.pt/noticias/economia/banco-de-portugal-anuncia-venda-do-banif-ao-santander-totta-por-150-milhoes-de-euros_n882868
- Governo de Portugal (21-12-2015) "ajuda do Estado ao Banif de 2,255 mil milhões €": https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/noticia?i=20151221-mf-banif
- Jornal Económico (2022) "Banif: a ascensão e queda do banco madeirense": https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/banif-a-ascensao-e-queda-do-banco-madeirense/
- Enquadramento UE / auxílios estatais (referência a ~2,25 mil milhões €): https://www.esquerda.net/dossier/caso-banif-custa-mais-2200-milhoes-aos-contribuintes/40241
Co-autoria editorial, prsquisas e investigação : Augustus Veritas (Fragmentos do Caos News Team)
Porque os factos históricos contados com verdade, devem ser a fonte de inspiração de uma democracia madura, e não um ardil de narrativas da "Alice no país das maravilhas".
"Alice no país das maravilhas" é confortável: há heróis, finais felizes, medalhas e comendas a brilhar e ninguém pergunta como nem a que preço. Mas um país que vive de fábulas acaba sempre a pagar a conta em impostos, salários curtos e futuros adiados. Aqui fizemos o inverso: — fomos aos factos, — iluminámos as zonas cinzentas, — separámos mérito de mito, — e deixámos o leitor com perguntas, não com embalos.
Isso é cidadania.
Isso é resistência tranquila.
Isso é amor exigente por um país que podia ser muito mais do que é.
E nós, em Fragmentos do Caos publicaremos enquanto houver nevoeiro, e insistimos em acender a luz, e iluminar a cidadania.
- Francisco Gonçalves