Antes da Cloud: a Virtualização Bancária em Portugal (2003)

- Data: 2003
- Contexto: antes de "cloud" existir como conceito corrente
- Ambiente: banca (continuidade de negócio, auditoria, tolerância zero)
- Infra-estrutura: VMware sobre servidores IBM xSeries com redundância total
- Impacto: virtualização e consolidação de mais de 200 servidores físicos
Antes da Cloud: a Virtualização Bancária em Portugal (2003)
Em 2003, o conceito de cloud computing ainda não habitava o vocabulário empresarial. Não havia AWS, não havia Azure, não havia sequer uma linguagem consolidada para descrever infra-estruturas elásticas. Os datacenters eram territórios físicos: racks densos, cabos sem fim, calor, ruído e manutenção constante.
A regra dominante era quase dogma: um serviço, um servidor físico. O resultado era um paradoxo caro: máquinas robustas, dispendiosas e altamente redundantes a operar, muitas vezes, com utilizações médias inferiores a 10% — consumindo energia, espaço e tempo como se estivessem no limite.
Banca: produção real, risco real, responsabilidade real
Foi nesse contexto que, em Portugal, se concretizou uma decisão disruptiva em ambiente bancário: a implementação, no BANIF, de uma plataforma de virtualização VMware, suportada por servidores IBM xSeries, permitindo a consolidação e virtualização de mais de 200 servidores físicos.
Não se tratava de um laboratório, nem de uma prova de conceito. Tratava-se de um ecossistema crítico, sujeito a auditorias, continuidade de negócio e exigências de segurança — um território onde a indisponibilidade não é tolerada e onde o erro não é um inconveniente: é um risco sistémico.
O hardware: IBM xSeries e redundância total
A base tecnológica assentava em servidores IBM xSeries concebidos para não falhar:
- CPU e arquitectura SMP orientadas a elevada disponibilidade
- memória ECC registada com mecanismos de protecção e correcção
- discos hot-swap SCSI integrados em RAID por hardware
- fontes e ventilação redundantes, com tolerância a falhas
- interfaces de SAN storage e controladores robustos para operação contínua
Esse hardware era, por si, engenharia de alto nível — mas continuava preso ao paradigma clássico: a aplicação amarrada à máquina. A virtualização veio quebrar esse nó.
VMware ESX em 2003: maturidade embrionária, exigência máxima
Em 2003, a virtualização empresarial ainda estava a consolidar-se. O VMware ESX existia, mas não oferecia a automação e o conforto de anos posteriores. O que hoje parece trivial então exigia compreensão profunda: alocação de CPU, gestão de memória, impacto de I/O, latência de storage, políticas de isolamento e recuperação.
Virtualizar centenas de servidores nessas condições não era migração — era reengenharia integral do datacenter.
Impacto: eficiência, continuidade e um embrião de cloud
A consolidação gerou ganhos que, anos mais tarde, seriam rebatizados como "princípios de cloud":
- redução drástica de hardware físico e custos operacionais
- melhor aproveitamento de recursos computacionais
- maior flexibilidade na gestão de ambientes
- criação rápida de instâncias para testes e validação
- melhoria dos mecanismos de recuperação e continuidade
Sem grandes proclamações, provou-se um princípio que hoje define toda a computação moderna: o "servidor" deixou de ser a máquina e passou a ser uma instância lógica.
Conclusão: quando o futuro ainda não tinha nome
Muitos anos antes de o mercado compreender plenamente a virtualização — e antes de a cloud se tornar palavra comum — esta arquitectura já existia em produção bancária em Portugal, silenciosa, estável e funcional.
É um daqueles marcos discretos que raramente entram em manchetes, mas que mudam tudo: não porque foram anunciados, mas porque foram feitos.
Antes de a cloud existir como conceito, ela já estava lá — não como slogan, mas como engenharia. E isso é, talvez, a forma mais pura de transformação digital: a que se prova em funcionamento.
Por:Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team