Anatomia da Mediocridade Portuguesa

- A mediocridade não é ausência de talento — é repressão sistemática do talento.
- Em Portugal, o medo social é mais forte do que a ambição colectiva.
- O sistema recompensa adaptação, não excelência.
- A hierarquia emocional sobrepõe-se à competência técnica.
- O país sofre de nanismo cultural auto-induzido.
Anatomia da Mediocridade Portuguesa
Há doenças que se herdam. Outras que se apanham. E há aquelas que se cultivam.
A mediocridade portuguesa pertence a esta última categoria. Não é acidente. É sistema.
Não é falha ocasional. É estrutura.
Não é exceção. É regra.
I — O Cérebro: Medo de Brilhar
A primeira zona afectada é o cérebro social.
Em Portugal, o pensamento brilhante é visto como suspeito. A inteligência é tolerada… desde que se mantenha discreta. O talento é aceite… desde que não incomode.
A criança aprende cedo:
- não sejas diferente,
- não sejas ousado,
- não sejas demasiado.
O génio é encarado como exibicionismo. A ambição como arrogância. A excelência como afronta.
O cérebro colectivo português foi treinado para não sair da linha.
II — A Coluna: Hierarquia Emocional
A coluna vertebral do sistema é fraca. Não sustenta mérito. Sustenta posições.
Em Portugal, sobe-se:
- por proximidade,
- por afinidade,
- por lealdade pessoal.
Raramente por competência nua e dura.
A hierarquia não é funcional — é emocional.
Quem manda quer sentir-se seguro. E segurança, para o pequeno chefe, é rodear-se de pequenos.
O sistema curva-se para não quebrar egos.
III — O Coração: Compadrio
O coração do organismo está infectado por compadrio crónico.
Aqui não se pergunta:
— "É bom?" Pergunta-se: — "É nosso?"
O mérito é secundário. A pertença é tudo.
O compadrio não é desvio. É método.
É a circulação sanguínea do sistema.
IV — Os Pulmões: Falta de Oxigénio Cultural
Falta ar. Falta mundo. Falta comparação.
O país respira para dentro.
Olha-se. Admira-se. Reproduz-se.
Pouco se confronta com o exterior. Pouco se expõe ao melhor. Pouco se mede com os grandes.
Resultado: as ideias ficam anãs. Os projectos ficam tímidos. A ambição fica doméstica.
É uma cultura de aquário.
V — O Estômago: Subsídio e Dependência
O estômago do sistema habituou-se a comida mole.
Subsídio. Apoio. Ajuda. Protecção.
Pouco risco. Pouca ousadia. Pouca ruptura.
O país foi treinado para pedir, não para conquistar.
E quem vive de esmola… não cria impérios.
VI — O Sistema Imunitário: Ataque ao Diferente
Sempre que surge alguém fora do molde, o sistema reage.
Primeiro estranha. Depois ridiculariza. Depois isola. Depois tenta neutralizar.
O diferente é visto como vírus.
A originalidade é tratada como ameaça.
O sistema imunitário da mediocridade é agressivo.
Defende o status quo com fervor religioso.
VII — O Esqueleto: Instituições Pesadas, Ideias Leves
Temos estruturas pesadas. Regulamentos densos. Procedimentos infinitos.
Mas ideias leves. Visão curta. Estratégia pobre.
O país é uma ossatura sem músculo.
Aguenta-se de pé… mas não corre.
VIII — O Rosto: Aparência sem Profundidade
Adoramos pose. Adoramos título. Adoramos cerimónia.
Somos uma nação de cargos e uma escassez de obra.
O importante é parecer. Não é ser. Um vez conseguido "o parecer", a obra está feita tal como o sucesso instantâneo.
É o teatro da respeitabilidade.
Uma opereta institucional.
Diagnóstico Final
Portugal sofre de:
- nanismo cultural,
- medo estrutural,
- inveja social,
- e acomodação crónica.
Não é falta de talento. É asfixia do talento.
Não é ausência de capacidade. É repressão da capacidade.
Não é azar histórico. É escolha repetida.
Epílogo: O Tratamento
O tratamento existe. Mas é doloroso.
Chama-se:
- mérito,
- exigência,
- ruptura,
- coragem.
Implica despedir incompetentes. Promover incómodos. Valorizar os melhores. E aceitar ser ultrapassado.
E isso, em Portugal… é quase revolucionário.
Mas sem isso, continuaremos assim:
um país de gente brilhante… governado por gente pequena.
A anatomia está feita. O diagnóstico é claro. A cirurgia é opcional.
A decadência… não.
Fragmentos do Caos News Team
Ensaio em co-autoria simbólica com Augustus Veritas — porque a verdade também é uma forma de amor exigente.