Abril ofereceu liberdades, mas esqueceu-se de criar cidadãos

BOX DE FACTOS
- O 25 de Abril abriu o espaço público: palavra, associação, voto, divergência.
- Liberdade não é automatismo: exige cultura cívica e literacia política.
- Quando a cidadania falha, crescem a indiferença, o ruído e o populismo.
- Cidadãos não nascem por decreto — formam-se por educação, exemplo e exigência.
Abril ofereceu liberdades, mas esqueceu-se de criar cidadãos
Há frases que dispensam assinatura. Pairam no ar como verdades antigas, incómodas e persistentes. "Abril ofereceu liberdades, mas esqueceu-se de criar cidadãos" é uma dessas sentenças: não porque seja perfeita, mas porque acerta num nervo exposto — o intervalo entre direitos conquistados e maturidade democrática.
A liberdade foi o grande milagre civil da nossa história recente. Abriu portas que antes eram paredes. Desmontou o medo, desatou a língua, devolveu o voto e a rua. Mas a liberdade, por si só, não ensina a usá-la. É um instrumento nas mãos — e há instrumentos que, sem aprendizagem, viram apenas barulho.
Liberdade é ponto de partida, não é destino
O equívoco foi confundir o fim da opressão com o início automático da cidadania. Como se bastasse abrir as janelas para que o ar puro educasse, sozinho, a casa inteira.
Ora, a democracia não é um estado natural. É um hábito. E hábitos precisam de treino, disciplina e cultura — como tocar piano, como escrever código, como aprender uma língua: exige método, prática e rigor.
Direitos sem deveres: a democracia manca
Ao longo de décadas, a conversa pública ficou viciada num eixo único: o dos direitos. Direitos são sagrados — mas não são o edifício inteiro. Falou-se pouco do outro pilar, o mais difícil e menos popular: o dever.
O dever de participar com consciência. O dever de compreender antes de gritar. O dever de fiscalizar o poder sem cair no circo. O dever de respeitar o bem comum. O dever de construir, não apenas exigir.
Quando esse equilíbrio falha, a democracia transforma-se num balcão permanente de reclamações: todos querem serviço, poucos querem manutenção. A liberdade sem responsabilidade é o caminho para morte lenta da democracia.
O cidadão não nasce — forma-se
Ser cidadão não é votar de quatro em quatro anos e chamar isso "participação". Ser cidadão é entender o que se vota, o que se delega, o que se fiscaliza. É distinguir propaganda de informação, opinião de conhecimento, indignação de solução.
E aqui está o ponto central: isto não foi ensinado com seriedade. A educação cívica ficou episódica, decorativa, uma nota de rodapé entre testes e rankings. A literacia política foi entregue ao acaso — e o acaso raramente produz lucidez.
A geração da liberdade sem memória
As gerações seguintes cresceram em liberdade, mas muitas vezes sem consciência do seu custo. Para alguns, Abril tornou-se folclore: um cravo, um feriado, um refrão. E quando a memória se evapora, a responsabilidade evapora com ela.
O resultado aparece em pequenas tragédias quotidianas: abstenção como hábito, indiferença como identidade, ruído como argumentação. E, no vácuo, surgem soluções fáceis para problemas complexos — o populismo é sempre o primeiro a chegar quando o pensamento demora.
Não falhou Abril — falhámos depois
Dizer que Abril "se esqueceu" é uma metáfora — porque Abril não tinha obrigação de completar o que só o tempo, a escola, a cultura e as instituições poderiam consolidar. Abril deu-nos a chave. Nós é que deixámos a porta sem dobradiças.
A cidadania era a obra do dia seguinte. E o dia seguinte foi sendo adiado, empurrado, substituído por urgências, por jogos de poder, por carreiras, por "gestões". Até que um país inteiro se habituou à ideia de que democracia é um serviço garantido, não uma prática diária.
Talvez ainda não seja tarde
A frase não é um epitáfio. É um aviso. E avisos, quando são ouvidos, podem salvar.
Criar cidadãos continua a ser possível: com educação cívica séria, pensamento crítico, cultura científica, ética pública, literacia mediática, e uma ideia simples mas revolucionária: a liberdade é uma responsabilidade partilhada.
Não se faz com slogans. Faz-se com exigência. Não se faz com likes. Faz-se com consciência. Não se faz em campanhas. Faz-se em gerações.
Talvez a frase esteja mal formulada — talvez Abril não se tenha "esquecido" de nada. Talvez a verdade seja mais dura: nós é que nos esquecemos — e agora pagamos juros cívicos, com atraso acumulado, sobre uma dívida de lucidez.
Crónica cívica — entre a memória e o futuro.