A Voragem do Capitalismo Selvagem e o Crepúsculo das Democracias

BOX DE FACTOS
- 1% da população mundial detém hoje mais riqueza do que 95% da humanidade.
- Mais de 60% da riqueza global é hoje financeira — não produtiva.
- As maiores empresas do mundo possuem valor superior ao PIB de dezenas de países.
- Os Estados perderam soberania fiscal perante o capital transnacional.
- A democracia representativa tornou-se estruturalmente dependente do dinheiro.
A Voragem do Capitalismo Selvagem
e o Crepúsculo das Democracias
Vivemos uma época estranha, quase paradoxal. Nunca houve tanta tecnologia, tanta capacidade produtiva, tanta inteligência acumulada — e nunca o ser humano comum se sentiu tão dispensável.
O que hoje se designa por capitalismo selvagem não é uma perversão acidental do sistema. É a sua forma madura, quando todas as travagens dis sistemas políticos e de justiça foram removidas.
As democracias liberais não o travaram. Pelo contrário: tornaram-se o seu veículo administrativo.
I — Quando o capital deixou de servir o homem
O capitalismo histórico nasceu com uma função concreta: organizar produção, investimento e risco. Durante décadas — com conflitos, crises e avanços — manteve um equilíbrio instável entre capital, trabalho e Estado.
Esse equilíbrio morreu.
Desde os anos 80, assistimos à mutação silenciosa do sistema:
- o capital produtivo foi substituído por capital financeiro;
- o empresário foi substituído pelo rentista;
- a fábrica foi substituída pelo algoritmo;
- o trabalho foi convertido em custo descartável.
Hoje, grande parte da riqueza mundial já não nasce da produção de bens ou serviços, mas da intermediação permanente: juros, rendas, dados, patentes, plataformas, especulação imobiliária e engenharia financeira.
Não se cria valor — extrai-se. Sao apenas sociedades extractivas selvagens.
II — A financeirização total do mundo
A economia real tornou-se serva da economia financeira.
Empresas deixam de investir porque é mais lucrativo recomprar acções. Fundos compram habitação não para arrendar, mas para inflacionar preços. Hospitais deixam de tratar doentes para cumprir métricas financeiras.
Tudo passa a obedecer ao mesmo deus abstracto: rentabilidade trimestral.
Quando o capital exige retorno infinito num planeta finito, o resultado só pode ser colapso.
III — A captura das democracias
As democracias não falharam por excesso de liberdade. Falharam por captura e corrupção generalizada.
O poder político passou a depender estruturalmente:
- do financiamento privado;
- dos mercados financeiros;
- das agências de rating;
- dos lóbis corporativos;
- da promessa de "confiança dos investidores".
Governar deixou de significar escolher caminhos. Passou a significar não desagradar ao capital móvel. Quem passou agovernar foi o caputalusmo selvagem, no qual os povos nao tem voto, e os políticos não passam de agentes manietados.
O voto existe — mas o orçamento obedece.
IV — Porque a desigualdade destrói a democracia
Não existe democracia sustentável com desigualdade extrema. Isto não é ideologia — é matemática social.
Quando a riqueza se concentra:
- o poder político segue-a;
- a comunicação social depende dela;
- a justiça torna-se lenta para uns e rápida para outros;
- a mobilidade social desaparece.
A democracia transforma-se então num teatro eleitoral: muitos votam, poucos decidem.
V — Existem alternativas reais?
Sim. Mas nenhuma é simples. Nenhuma é instantânea. E nenhuma agrada aos grandes detentores de renda, e de quem tem o capital do mundo nas mãos.
As alternativas não passam por abolir o mercado, mas por submeter o capital ao interesse colectivo.
Entre elas:
- democracia económica e cooperativa;
- sectores estratégicos sob controlo público;
- fiscalidade progressiva efectiva;
- combate real a monopólios;
- regulação financeira séria;
- habitação como direito e não como activo financeiro;
- economia produtiva ancorada em ciência e tecnologia.
VI — O verdadeiro inimigo: a renda sem risco
O problema não é o lucro. É o lucro sem risco. É o lucro a tido e qualquer custo. É o lucro obtido rapidamente e onde os fibs justificam os meios, por mais pérfidos que sejam.
É a renda garantida:
- dos monopólios;
- das plataformas digitais;
- da especulação imobiliária;
- da intermediação financeira opaca.
Quando o sistema premia quem extrai e penaliza quem produz, a decadência torna-se inevitável.
VII — Há capacidade política?
Há capacidade técnica. Há conhecimento. Há instrumentos legais.
O que falta é coragem.
Coragem para enfrentar:
- os grandes interesses instalados;
- a chantagem dos mercados;
- a ameaça da fuga de capitais;
- a pressão mediática.
As democracias podem sobreviver — mas apenas se aceitarem deixar de ser cómodas e se deixarem capturar.
VIII — O futuro: reforma ou ruptura
A história é clara: sistemas que recusam reformar-se acabam por ruir.
Quando a desigualdade se torna obscena, quando o trabalho deixa de garantir dignidade, quando o futuro desaparece do horizonte colectivo, a ruptura surge — pacífica ou violenta.
Não por ideologia. Apenas por sobrevivência.
Epílogo — Ainda há tempo
Não estamos condenados. Mas estamos atrasados.
A escolha é simples, ainda que difícil:
ou domesticamos o capital, ou o capital continuará a devorar as democracias. E assim, o crime económico organizado continuará também a crescer e a engolir governos e democracias.
Nenhum sistema económico vale a perda da dignidade humana. Nenhuma taxa de crescimento justifica uma sociedade sem futuro.
O século XXI decidirá se a humanidade governa o dinheiro — ou se continuará a servi-lo.
Fragmentos do Caos
Co-autoria reflexiva: Augustus Veritas