BOX DE FACTOS
  • A verdade raramente é popular — e quase nunca é confortável.
  • As ideias incomodam mais do que as armas: atravessam séculos e minam poderes.
  • O mecanismo repete-se: quem acorda os outros paga, primeiro, com solidão e ataque.
  • A cruz moderna não é de madeira: é de ridículo, silêncio, caricatura e linchamento emocional.

A Verdade Não Foi Feita Para Agradar: A Cruz de Quem Pensa

Jesus, sendo um bom homem, não conseguiu agradar a todos — e foi vítima da ira, crucificado, não por maldade, mas por ideias. O mundo não perdoa facilmente quem lhe revela o espelho.

Há uma ilusão que seduz os ingénuos e adormece os prudentes: a ideia de que, se formos "bons", seremos aceites; se formos "correctos", seremos protegidos; se formos "moderados", seremos poupados. É uma fábula bonita, quase infantil, para embalar consciências. A realidade, porém, é outra: o mundo tolera muita coisa, excepto a verdade.

A verdade não foi feita para agradar. A verdade é uma pedra. Quem a pega nas mãos sente-lhe o peso. Quem a atira cria ondas. E as ondas não agradam a quem vive de águas paradas.

Não foi o homem — foram as ideias

Quando se diz que Jesus foi crucificado, tende-se a imaginar que foi por ser "demasiado bom" ou "demasiado santo". Mas a História é mais concreta e mais cruel: ele foi crucificado porque as suas ideias ameaçavam um equilíbrio de poder, um teatro social, uma ordem moral administrada. Não era apenas o homem a incomodar — era o exemplo, e sobretudo a mensagem: a dignidade não pertence aos fortes; pertence a todos. Isso, para qualquer sistema hierárquico, é dinamite.

E há um detalhe que atravessa os séculos como um fio negro: os poderes toleram vícios, toleram corrupção, toleram hipocrisia. O que raramente toleram é alguém que diga, com clareza: "Isto está errado. E não tem de ser assim."

A ira é antiga — só muda de roupa

A ira que condenou, perseguiu e crucificou não é um acidente histórico: é um mecanismo. A sociedade, quando se sente desmascarada, reage como um organismo ferido: ataca a fonte da dor, não a causa da doença. Por isso, em quase todas as épocas, quem pensa e fala com lucidez acaba por ser transformado em alvo: ridicularizado, silenciado, caricaturado, isolado.

A cruz, hoje, raramente tem pregos. Tem algoritmos. Tem linchamento moral. Tem rótulos fáceis. Tem sarcasmo vazio. Tem silêncio — essa forma refinada de assassinato social onde não se refuta o que dizes, apenas se finge que não existes.

A cruz moderna: o ridículo, a caricatura e o coro

Não é preciso crucificar alguém numa praça pública quando se consegue o mesmo efeito com um sorriso torto, um "lá vem ele", uma meia dúzia de frases venenosas, um coro de gente que não leu nada mas tem sempre uma opinião pronta. A sociedade contemporânea inventou um método eficaz: não discute ideias — distribui etiquetas.

E as etiquetas têm uma vantagem para quem as usa: dispensam o pensamento. É o conforto máximo. É a economia total da inteligência. Não é preciso argumentar; basta classificar. Não é preciso compreender; basta reagir. E assim se constrói o novo analfabetismo: o analfabetismo do espírito, altamente conectado e orgulhosamente seguro de si.

Quem tenta agradar a todos acaba irrelevante

Há uma diferença essencial entre bondade e submissão. A bondade não é a arte de agradar. A bondade, quando é verdadeira, é uma forma de coragem — porque não se rende ao aplauso, nem teme o insulto. Quem vive para agradar termina prisioneiro do humor alheio. E o humor alheio é volátil, injusto e frequentemente medíocre.

Um escritor que quer aplauso escreve para o presente. Um pensador que quer verdade escreve para o tempo. E o tempo é um juiz estranho: demora, mas raramente falha. Os carrascos passam; as ideias ficam.

Epílogo: a semente que o poder não consegue matar

No fim, é sempre a mesma ironia histórica: o poder tenta eliminar a mensagem eliminando o mensageiro. Mas ideias não são corpos. Não se enterram. Não se queimam. Não se prendem. Multiplicam-se. Passam de boca em boca, de página em página, de consciência em consciência — e, de repente, um dia, já não há como as conter.

Por isso, quando alguém diz: "Eu sei que não escrevo para agradar", está a dizer algo maior do que parece. Está a dizer: "Eu não aceito a chantagem do aplauso. Eu escolho a lucidez." E, num mundo que prefere dormir, a lucidez é sempre um acto de resistência.
E eu escrevo para acordar, não para agradar, porque a a minha lucidez incomoda; Pensar e perseguir a verdade é hoje o maior acto de rebeldia; e interpretado como um acto revolucionário.

Artigo de : Francisco Gonçalves
com co-autoria Editorial de Augustus Veritas — porque certas verdades não foram feitas para agradar, mas para acordar.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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