BOX DE FACTOS
  • Em 2020, o DOJ (EUA) anunciou acusações criminais contra Nicolás Maduro e outros responsáveis, alegando narco-terrorismo, tráfico e corrupção.
  • Em 2025, o Tesouro (OFAC) sancionou o Cartel de los Soles como entidade criminosa sediada na Venezuela, descrevendo apoio material a redes violentas.
  • Em 2025, o Departamento de Estado anunciou a intenção de designar o Cartel de los Soles como FTO (organização terrorista estrangeira), com data de efectivação indicada.
  • A DEA intensificou acções de cerco em rede: operações coordenadas multi-jurisdição, com foco em finanças, logística, e desmantelamento (não apenas apreensões).
  • A Europa surge como mercado final e palco de degradação institucional: corrupção portuária, violência e infiltração do crime organizado.

A Teia de Maduro e o Cerco da DEA: quando o Estado vira cartel — e o cartel aprende a ser Estado

Não é preciso uma bandeira para haver um império. Às vezes basta um carimbo, um porto, um hangar, um general — e um silêncio bem pago.

1) A teia não é uma metáfora — é uma arquitectura

Há regimes que governam mal. E há regimes que operam. A diferença é simples e terrível: quando a engrenagem do Estado passa a servir a engrenagem do tráfico, já não estamos perante "corrupção" como doença; estamos perante "corrupção" como função.

Os documentos judiciais e comunicados oficiais norte-americanos descrevem, como alegação formal, uma estrutura em que o topo político teria protegido e promovido rotas, alianças e receitas do narcotráfico — com o acréscimo de um termo que, no dicionário diplomático, funciona como sirene: narco-terrorismo. Isto não é "opinião de internet e redes sociais ". É acusação escrita, com numeração, datas e linguagem forense.

2) O salto histórico: a DEA deixou de caçar "droga" e passou a caçar "sistema"

A velha fotografia do troféu — pacotes em cima de uma mesa e meia dúzia de caras algemadas — serve para o telejornal, mas não derruba um império criminal. O que derruba redes é outra coisa: finança, logística, lavagem, intermediárioscorruptores, documentos.

E é aqui que entra a mudança de método: o "cerco" moderno é feito como uma teia ao contrário. Não se corre apenas atrás do carregamento; corre-se atrás do mapa. O alvo já não é o quilograma. É o mecanismo.

3) A DEA como maestro da caça em rede: o anel fecha-se em vários continentes

Quando a DEA anuncia "surges" e operações coordenadas, a mensagem real é esta: "não estamos a bater à porta; estamos a fechar as saídas". A lógica é multi-camada:

  • Camada operacional: prisões e apreensões coordenadas em múltiplas divisões e regiões (incluindo presença internacional).
  • Camada financeira: moeda, activos, redes de lavagem, correios de dinheiro, empresas-fantasma, intermediários.
  • Camada logística: rotas, portos, contentores, documentos, "facilitadores" e protecções locais.
  • Camada política: quando a rota depende de Estado, entra a pressão por sanções, designações e isolamento.

A própria avaliação de ameaças da DEA (NDTA) descreve uma paisagem em que cartéis e redes não vivem só de cocaína: adaptam-se ao mercado, diversificam, mudam de corredor quando a pressão sobe, e transformam-se em empresas criminosas globais. A DEA, por sua vez, responde com o que assusta mais do que um helicóptero: papel, cooperação e contas congeladas.

4) "Cartel de los Soles": quando a gravata aprende a falar com a pistola

O Tesouro dos EUA (OFAC) descreveu o Cartel de los Soles como uma estrutura criminosa sediada na Venezuela, apontando para liderança e envolvimentos ao nível do regime. Em paralelo, o Departamento de Estado anunciou a intenção de o designar como FTO, com data efectiva indicada.

Traduzindo para português corrente: quando um Estado é acusado de funcionar como abrigo e alavanca de redes transnacionais, deixa de ser apenas "problema interno". Passa a ser dossier de segurança internacional.

5) A América do Sul como tabuleiro — e a Europa como caixa registadora

A parte mais cínica desta história é a geografia moral. A Europa repete "isso é longe" com a serenidade de quem compra fruta sem querer saber quem apanha. Só que a Europa é mercado. E quando o mercado cresce, cresce tudo o resto: corrupção, violência, infiltração institucional, assassinatos por encomenda, "recados" em plena rua.

O alerta europeu é cada vez menos tímido: redes de tráfico já não são "crime" no sentido clássico, são ameaça à própria democracia e à integridade das instituições. E o conselho é sempre o mesmo: seguir o dinheiro. Porque a droga passa; o dinheiro fica — e compra o que for preciso para continuar.

6) A manobra favorita do narco-poder: chamar "geopolítica" ao que é gangrena

Quando o cerco aperta, aparece o coro previsível: "imperialismo", "perseguição", "conspiração". Pode haver disputa política — há sempre. Mas há uma diferença entre debate e dossier: sanções, designações, acusação formal, relatórios, e uma máquina de investigação que não trabalha com poemas.

A grande tragédia é que a propaganda não precisa de convencer toda a gente. Basta cansar a maioria. E o cansaço é o fertilizante preferido das redes criminosas.

Epílogo: o cerco fecha-se onde dói — no oxigénio

A DEA não "cerca" cartéis com discursos. Cerca com oxigénio: corta rotas, corta lavagens, corta intermediários, corta cúmplices. E quando o topo é acusado de ser parte da máquina, o cerco sobe de escalão: entra o Tesouro, entra o Departamento de Estado, entram alianças internacionais.

O resto é simples — e assustador: um narco-regime não cai porque é imoral. Cai quando deixa de ser viável. E a viabilidade de uma teia depende de duas coisas: dinheiro e impunidade. O cerco moderno existe para matar ambas.

REFERÊNCIAS (documentos e fontes)
  • DOJ (EUA) — Indictment / acusação formal (PDF): https://www.justice.gov/opa/media/1422326/dl
  • US Treasury / OFAC — "Treasury Sanctions Venezuelan Cartel Headed by Maduro" (25 Jul 2025): https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0207
  • US State Dept — "Terrorist Designations of Cartel de los Soles" (16 Nov 2025): https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2025/11/terrorist-designations-of-cartel-de-los-soles
  • DEA — National Drug Threat Assessment 2024 (PDF): https://www.dea.gov/sites/default/files/2025-02/508_5.23.2024%20NDTA-updated.pdf
  • DEA — "DEA Surge Targets Sinaloa Cartel Networks Worldwide" (9 Sept 2025): https://www.dea.gov/press-releases/2025/09/09/dea-surge-targets-sinaloa-cartel-networks-worldwide
  • US State Dept — Sanções a rede de tráfico de cocaína para EUA/Europa/Caribe (5 Jun 2025): https://www.state.gov/releases/2025/06/targeting-network-trafficking-cocaine-to-the-united-states-europe-and-the-caribbean
  • Conselho da UE (PDF) — "Organised Crime: A growing threat to democracy" (Jul 2025): https://www.consilium.europa.eu/media/3cpejugj/2025_683_art_organisedcrime_web_july-2025.pdf
  • CRS (Congress) — "Venezuela: Overview of U.S. Sanctions Policy" (5 Dez 2025) (PDF): https://crsreports.congress.gov/product/pdf/IF/IF10715
Francisco Gonçalves ( com Augustus Veritas )
Fragmentos do Caos — Contra o Teatro da Mediocridade -

Uma operação gigante da DEA dos EUA, que está muito para lá da simples captura de Nicolas Maduro.

A Europa destino maior de todos estes cartéis de droga, como sempre, grita "violação do direito internacional", como se o crime organizado não fosse um dos grandes perigos que as actuais democracias, já de si fracas, enfrentam.

Para além disso existem evidências e factos que omprovam ligações a estados párias, como a Rússia, Irão e outras ditaduras sanguinarias, e de serem parceiros de negócios destes criminosos cartéis internacionais de droga. - Francisco Gonçalves

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