A Rússia após quatro anos de guerra: a economia de guerra, o preço social e a ilusão de normalidade

- O "pico" de 2024 parece ter sido o último grande impulso: organismos internacionais apontam abrandamento forte em 2025 e crescimento baixo em 2026.
- FMI (Out. 2025): crescimento real da Rússia revisto para 0,6% em 2025 e cerca de 1,0% em 2026.
- Banco Mundial: projecção de 0,9% em 2025 e ~1% em 2026–2027 (ordem de grandeza).
- Despesa militar: estimativas para 2025 apontam para cerca de 15,5 biliões de rublos (SIPRI), equivalente a ~7,2% do PIB.
- Orçamento 2025: notícias com base em documentos orçamentais indicam que a defesa seria ~32% da despesa federal (Reuters, Set. 2024).
- Sinais sociais: reportagens indicam contenção de consumo nas festas de fim de ano, apesar de inflação a abrandar, com juros altos e receios de impostos.
A Rússia após quatro anos de guerra: o preço social da economia de guerra
1) A economia não colapsou — mas mudou de natureza
Há uma frase cómoda, repetida como mantra: "as sanções falharam". A realidade é menos cinematográfica e mais corrosiva. A Rússia conseguiu manter actividade, emprego e produção em sectores-chave — mas o motor foi, em grande medida, a reorientação para a guerra e a injecção fiscal associada. O problema é que os próprios números de referência internacionais sugerem que o fôlego está a arrefecer: o FMI reviu o crescimento para 0,6% em 2025 e cerca de 1,0% em 2026, depois de um 2024 muito mais forte. Em paralelo, o Banco Mundial aponta para trajectória semelhante: crescimento baixo em 2025 e 2026–2027.
2) "Guns vs butter": quando a defesa engole o resto
A guerra tem um custo que não se mede apenas em munições: mede-se no que fica por financiar. A estimativa do SIPRI para 2025 coloca a despesa militar total planeada em cerca de 15,5 biliões de rublos (com transparência reduzida), equivalente a aproximadamente 7,2% do PIB. E documentos orçamentais noticiados indicaram que a categoria "defesa" por si só representaria uma fatia gigantesca da despesa federal em 2025. Isto é o coração do dilema: o Estado prioriza a máquina e a sociedade paga com um futuro mais curto — menos investimento civil, menos conforto, menos margem.
3) Inflação, juros e o quotidiano: a guerra entra na cozinha
A macroeconomia pode esconder sofrimento durante algum tempo; o carrinho de compras não esconde nada. Reportagens recentes descrevem russos a reduzir gastos de Ano Novo, mesmo com a inflação a abrandar, citando juros altos, incerteza e expectativas de mais impostos. Quando a festa encolhe, não é apenas "prudência": é o sinal cultural de que a sociedade aprendeu a viver em estado de contenção. A guerra não é só o que acontece na frente; é o que acontece quando a família troca o "extra" por "sobrevivência elegante".
4) Infra-estrutura e empresas públicas: o esqueleto range
Uma economia pode aguentar pancadas — até ao dia em que o esqueleto começa a ranger: transportes, logística, manutenção, dívida. A própria Russian Railways (um gigante estatal e maior empregador comercial) anunciou planos de corte de investimento para 2026, em contexto de receitas sob pressão e dívida elevada, segundo a Reuters. É um detalhe que diz muito: quando até os ossos do Estado ajustam o cinto, percebe-se que a "resiliência" tem custo e prazo.
5) A sociedade em "modo de guerra": patriotismo, silêncio e fadiga
O retrato social é paradoxal: por um lado, propaganda e mobilização simbólica; por outro, uma fadiga lenta. A guerra prolongada tende a produzir uma psicologia colectiva de "normalização do anormal": aceitar o que antes seria inaceitável, evitar perguntas, reduzir ambições, trocar planos por rotinas. E quando o Estado desloca recursos para defesa e segurança, aquilo que fica para saúde, educação e regiões passa a ser negociado como se fosse luxo.
6) O que se pode dizer com honestidade, em 2026
Quatro anos depois, há três verdades difíceis — e precisamente por isso úteis:
- A Rússia não "caiu"; transformou-se numa economia e sociedade de guerra, com prioridades distorcidas.
- O crescimento está a abrandar, e as projecções internacionais apontam para ritmo baixo em 2025–2026.
- O custo social manifesta-se no quotidiano: consumo a encolher, pressão fiscal, juros altos, e infra-estruturas a ajustar investimento.
Referências (fontes)
- FMI — World Economic Outlook (Outubro 2025): projecções de crescimento e revisão para a Rússia (documento e data mapper).
- Banco Mundial — Página de país (Rússia) e projecções 2025–2027.
- SIPRI — Preparing for the fourth year of war: military spending in Russia's budget for 2025.
- Reuters — Orçamento e despesa de defesa 2025 (30 Set 2024); consumo de Ano Novo (30 Dez 2025); cortes de investimento da Russian Railways (29 Dez 2025).
- Atlantic Council — "The Russian economy in 2025: Between stagnation and militarization" (Dez 2025).
Epílogo: o futuro que se paga em silêncio
A guerra longa é uma fábrica de ilusões: dá ao poder o pretexto perfeito para tudo, e dá ao cidadão a rotina perfeita para desistir de perguntar. Mas há uma contabilidade que não se apaga com slogans: a do tempo perdido, a do talento que foge, a do investimento civil adiado, a da esperança transformada em "aguentar". A Rússia, em 2026, parece capaz de continuar — mas continuar não é o mesmo que avançar.