A Paz sem a Europa — geometria de poder, não diplomacia

BOX DE FACTOS
- "Conselhos de paz" fora de fóruns multilaterais tendem a ser mecanismos de influência e não instrumentos neutros.
- Excluir a Europa de uma mesa central significa reduzir o continente a "mercado" e não a actor estratégico.
- Negociação rápida em guerra prolongada costuma implicar trocas assimétricas: território, sanções, energia, segurança.
- Esferas de influência regressam quando a dissuasão enfraquece e a coerência política fragmenta.
- O risco maior não é "ditadores em bloco", mas a desunião e a fadiga democrática no Ocidente.
A Paz sem a Europa
Um "conselho de paz" onde a Europa não tem assento não é um erro de protocolo.
É uma arquitectura de poder: quem decide, quem executa, e quem paga.
1) Não é paz: é desenho de ordem
Em geopolítica, a palavra "paz" é frequentemente um rótulo para algo mais prosaico: uma estabilização de interesses. Quando se propõe uma mesa restrita — sobretudo fora de quadros multilaterais — o objectivo raramente é "justiça" ou "equilíbrio". É controle. Uma mesa reduzida define três coisas: (i) quem tem legitimidade para falar, (ii) quais os termos aceitáveis, e (iii) quais os actores que ficam condenados a aceitar o resultado como "inevitável".2) A exclusão da Europa é o sinal, não o detalhe
Se a Europa fica de fora, a mensagem é directa: o continente é visto como espaço de regulação e consumo, não como potência estratégica. Isto reduz a UE a duas funções: pagar reconstruções e absorver impactos (energia, inflação, migração), enquanto outros desenham o quadro de segurança. Historicamente, quando a Europa não está na mesa, acaba no menu: não necessariamente como território a conquistar, mas como alvo de coerção através de energia, comércio, desinformação, ciberataques e divisão política interna.3) Esferas de influência: a política que regressa quando a dissuasão falha
O conceito antigo — e perigoso — de "esferas de influência" regressa sempre que há dois factores em simultâneo: ambição revisionista num lado e fadiga estratégica no outro. Um "conselho" dominado por grandes actores pode funcionar como mecanismo para formalizar limites: "aqui mando eu, ali mandas tu". O problema é que estas linhas raramente são estáveis; são convites a novas pressões quando o custo da agressão parece baixo.4) O que cada parte procura, numa leitura fria
EUA (numa lógica transaccional): reduzir custos, encerrar dossiês, reorientar foco para outras frentes, obter "vitória narrativa" doméstica. Rússia (numa lógica de regime): consolidar ganhos, quebrar sanções, reabilitar estatuto internacional, impor precedentes que validem coerção militar. Outros actores "tresloucados" (quando entram): procuram legitimidade, moeda de troca, protecção, ou acesso a rotas/energia/armamento. Numa mesa curta, cada cadeira é uma licença de poder.5) O risco real: não é só "ditadores" — é a fragmentação ocidental
A ideia de "mundo condenado" é emocionalmente compreensível, mas analiticamente incompleta. A história mostra que regimes autoritários prosperam menos pela sua força intrínseca do que pela fraqueza e desunião dos seus adversários. Se a Europa quiser evitar a irrelevância estratégica, precisa de três coisas, sem romantismo:- Autonomia energética real (diversificação, redes, armazenamento, resiliência).
- Capacidade de defesa credível (industrial, logística, munições, ciber, comando).
- Coerência política (menos "declarações", mais instrumentos: sanções eficazes, controlo de capitais ilícitos, combate à captura por lóbis e regimes externos).
Epílogo
Um "conselho de paz" que escolhe participantes a dedo não é, por definição, um mecanismo de paz. É um mecanismo de ordem. E a ordem que nasce de exclusão e coerção é estável apenas até ao próximo teste. O futuro não está escrito por ditadores. Está escrito por correlações de forças — e por sociedades que decidem se querem ser actores… ou apenas cenário.Referências e Fontes
Documentos oficiais e relatórios internacionais úteis para enquadramento geopolítico (segurança europeia, autonomia estratégica, alianças e lógica de esferas de influência).
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UE — A Strategic Compass for Security and Defence (documento oficial, PDF, 2022)
European External Action Service (EEAS)
https://www.eeas.europa.eu/sites/default/files/documents/strategic_compass_en3_web.pdf -
UE — Council Conclusions on EU Security and Defence (PDF, 27 May 2024)
Council of the European Union
https://data.consilium.europa.eu/doc/document/ST-9225-2024-INIT/en/pdf -
UE — European Council Conclusions (22 March 2024, PDF)
European Council / Council of the EU
https://www.consilium.europa.eu/media/70880/euco-conclusions-2122032024.pdf -
NATO — Strategic Concept (Madrid Summit, 2022, PDF)
NATO (texto estratégico oficial)
https://www.act.nato.int/wp-content/uploads/2023/05/290622-strategic-concept.pdf -
Munich Security Conference — Munich Security Report 2024 "Lose-Lose?" (PDF)
Relatório anual de referência sobre risco, competição estratégica e dinâmica global
https://securityconference.org/assets/user_upload/MunichSecurityReport2024_Lose-lose.pdf -
Munich Security Conference — Munich Security Report 2025 "Multipolarization" (PDF)
Edição focada na multipolarização e na erosão de regras/ordem internacional
https://securityconference.org/assets/02_Dokumente/01_Publikationen/2025/MSR_2025/Multipolarization_%E2%80%93_Munich_Security_Report_2025.pdf -
CEPS — Análise à bússola estratégica da UE (Policy Insight, 2022, PDF)
Centre for European Policy Studies (think tank europeu)
https://cdn.ceps.eu/wp-content/uploads/2022/03/CEPS-PI2022-14_EU-Strategic-Compass.pdf -
Reuters — Europa e autonomia/defesa (notícia, 2025)
Cobertura de referência sobre o debate europeu: defesa, autonomia e dissuasão
https://www.reuters.com/world/europe/eu-must-acquire-all-means-defend-itself-against-military-aggression-eus-costa-2025-03-25/ -
Le Monde (EN) — Europa a "tomar a segurança nas suas mãos" (2025)
Leitura jornalística sobre a viragem europeia em defesa/segurança
https://www.lemonde.fr/en/international/article/2025/03/07/europe-decides-to-take-its-security-into-its-own-hands-without-breaking-with-us_6738910_4.html
Nota: as fontes acima são deliberadamente institucionais e/ou de elevada credibilidade, úteis para sustentar o enquadramento deste artigo (sem depender de opiniões).
Francisco Gonçalves
Co-autoria: Augustus (Assistente de ) — Fragmentos do Caos