BOX DE FACTOS
  • Ideologia deixou de ser mapa de ideias e passou a ser crachá de pertença.
  • Esquerda e direita funcionam cada vez mais como tribos, não como projectos.
  • A nova política privilegia liturgia (gestos, palavras, sinais) e castiga o pensamento livre.
  • O debate foi substituído por excomunhão: quem diverge é tratado como impuro.
  • O objectivo já não é governar melhor — é dominar narrativas e conduzir rebanhos.

A Nova Catequese Tribal

Já não se pede ao cidadão que pense. Pede-se que pertença. Já não se pede argumento. Pede-se sinal. E, no altar do nosso tempo, a heresia maior é a dúvida.

1. Quando a ideologia deixou de ser ideia

Antigamente, mesmo quando errava, a ideologia ainda tinha uma pretensão nobre: explicar o mundo, propor um caminho, organizar o caos em hipótese. Hoje, muitas ideologias já não tentam explicar nada. São filtros — não do real, mas das pessoas. Servem para distinguir, em segundos, quem é "dos nossos" e quem é "dos outros".

É um progresso técnico e uma falência civilizacional: o cérebro poupa energia, a alma perde liberdade. A política transformou-se numa máquina de simplificação emocional: reduz complexidade a palavras-chave, e o povo agradece — porque a complexidade cansa.

2. Esquerda e direita: duas tribos em guerra de símbolos

Esquerda e direita eram, com todas as limitações, coordenadas úteis. Hoje, em grande parte do debate público, são apenas vieses de tribo. A pergunta já não é "o que funciona?", nem "o que é justo?", nem "qual é o custo humano?". A pergunta, a única pergunta, é: "a minha tribo aplaude isto?"

Assim, a política deixa de ser arte de governar e passa a ser arte de ser aplaudido. O aplauso é o novo orçamento de Estado: é onde se investe tudo.

3. A catequese do século XXI: a liturgia woke e outras liturgias

A ideologia woke, enquanto fenómeno cultural e político, é exemplar por uma razão simples: funciona como catecismo. Não exige pensamento; exige alinhamento. Não pede debate; pede confissão. Não procura nuances; procura culpas.

E, como toda a catequese, tem os seus rituais: palavras permitidas, palavras proibidas, fórmulas correctas, gestos obrigatórios, penitências públicas e, sobretudo, a forma mais moderna de punição: o linchamento moral.

Importa dizer: não é uma questão de "ser de esquerda" ou "ser de direita". É uma questão de substituir a ética — que é difícil e obriga a discernimento — por uma moral de manual que dá para tudo, desde a indignação instantânea até ao cancelamento com certificado de virtude.

4. O novo sacerdócio: os senhores da narrativa

Toda a catequese precisa de sacerdotes. Hoje, são os curadores de narrativa: comentadores, activistas profissionais, gabinetes de comunicação, redes sociais em modo manada, e um certo jornalismo de preguiça que confunde "tendência" com "verdade".

Eles não argumentam — classificam. Não respondem — rotulam. Não procuram o melhor caminho — procuram o pior inimigo. A política, assim, deixa de ser construção e passa a ser caça.

5. A heresia suprema: a dúvida

Numa democracia saudável, a dúvida é motor. Numa tribo, a dúvida é traição. É aqui que a nova catequese revela a sua verdadeira natureza: a tentativa de expulsar do espaço público a coisa mais preciosa de um cidadão — a capacidade de dizer: "não sei", "não concordo", "talvez esteja errado", "vamos pensar".

O cidadão que pensa é imprevisível. O fiel que repete é útil. A nova política prefere a utilidade à liberdade. E chama-lhe "consciência".

6. O futuro: ou renascemos como cidadãos, ou regressamos à aldeia

Há um regresso ao tribal. Não com lanças, mas com timelines. Não com tambores, mas com notificações. O futuro, se não houver resistência moral e intelectual, pode ser uma vasta aldeia digital onde cada um vive cercado pelo seu clã, alimentado por uma ração diária de certezas rápidas.

A alternativa é simples e terrível: voltar a ser cidadão. E ser cidadão é cansativo: obriga a ler, a escutar, a tolerar ambiguidades, a sofrer dúvidas, a aceitar que o mundo é grande demais para um slogan.

Epílogo: um pequeno acto de rebeldia

A nova catequese quer um mundo de fiéis. A liberdade quer um mundo de consciências. A tribo quer uma identidade pronta. A dignidade quer um pensamento vivo.

Por isso, o gesto mais subversivo hoje não é gritar. É perguntar. Não é cancelar. É compreender. Não é repetir. É pensar.

Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial com Augustus Veritas — porque a lucidez também precisa de lâmina e de luz.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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