A Medicina do Século XXI com Equipamentos do Século XX — e a Factura no Bolso do Doente

- O problema não é falta de tecnologia: há ecógrafos portáteis e análises rápidas (POCT) que já fazem parte da medicina moderna.
- O custo real é o "modelo": contratos, consumíveis, manutenção, software fechado e integração digital deficiente criam dependências e inflação permanente.
- O cidadão paga duas vezes: em impostos e em repetição de exames por falhas de acesso, interoperabilidade e percursos clínicos.
- A inovação sem reforma vira vitrina: compra-se "futuro", mantém-se "passado" nos processos.
- Há saída: transparência nas compras (custo total), integração de sistemas, auditoria clínica e tecnologia no sítio certo (triagem e cuidados primários).
A Medicina do Século XXI com Equipamentos do Século XX — e a Factura no Bolso do Doente
Em Portugal, a saúde transformou-se num teatro onde o cenário é moderno, mas a engrenagem é antiga. Fala-se em "excelência", acena-se com palavras limpas como "inovação" e "qualidade", mas o doente continua, muitas vezes, a sentir que entrou numa estação velha: bilhete na mão, corredor comprido, e a promessa de que o comboio "já vem".
A tecnologia existe. Não é mito. Não é magia. Há ecografia portátil que cabe numa mão, há dispositivos de análises rápidas, há automatismos que reduzem tempo, repetição e erro. O mundo não está à espera do nosso parecer para avançar. Avançou.
O engano: pensar que "comprar máquinas" é modernizar
O grande truque do nosso tempo é vender futuro em caixas e chamar-lhe reforma. Compra-se equipamento, tira-se fotografia, inaugura-se qualquer coisa, e depois… volta-se ao costume. Porque a obsolescência não está apenas no metal. Está no sistema: nos contratos, nos incentivos, nas dependências, na ausência de integração digital, no labirinto dos processos.
Um ecógrafo portátil pode ser excelente para triagem e decisão rápida — mas só funciona como revolução quando existe formação séria, protocolos claros, auditoria clínica e integração com o processo do doente. Sem isso, torna-se ruído. E ruído é aquilo que o sistema sabe fazer bem: barulho sem mudança.
O preço não está no aparelho. Está na coleira.
Há equipamentos que parecem "baratos" na compra e caríssimos no resto: consumíveis proprietários, manutenção dependente do fornecedor, licenças anuais, software fechado, incompatibilidades com sistemas de informação. E assim nasce a coleira dourada: brilha, mas prende.
Quando o percurso clínico é fragmentado, quando o relatório não aparece onde devia, quando as imagens não circulam, quando cada unidade vive na sua ilha, o país entra numa rotina de repetição. Repetem-se exames porque "não há acesso". Repetem-se análises porque "não chegou a tempo". Repetem-se pedidos porque "não se encontra". E cada repetição, claro, é um pequeno imposto informal sobre o corpo do cidadão.
O negócio perfeito: a lentidão como modelo de receitas
Os privados ganham milhões, sim — mas seria ingénuo reduzir tudo a maldade simples. O problema é mais sofisticado e, por isso, mais perigoso: o sistema recompensa volume, não valor. Quando se paga pelo acto e não pelo resultado, o acto multiplica-se. E quando o público demora, o privado prospera com a urgência do medo.
O doente não compra "exames". Compra paz. Compra tempo. Compra a esperança de que alguém finalmente o ouça. E, num país onde a espera se tornou hábito, a esperança transforma-se em mercado.
O que seria modernizar a sério
Modernizar não é "ter aparelhos". Modernizar é mudar o circuito da decisão. É colocar tecnologia no sítio certo e com o propósito certo: triagem rápida, cuidados primários mais resolutivos, integração digital real, auditoria contínua.
- Compras com transparência: custo total (equipamento + consumíveis + manutenção + integração).
- Interoperabilidade: resultados e imagens a circular sem fricção entre unidades e níveis de cuidados.
- POCUS e POCT com método: formação, protocolos, supervisão e avaliação de impacto.
- Auditar repetição: medir quantos exames se repetem e porquê — e publicar números.
- Incentivos alinhados: premiar redução de duplicações e melhoria de desfechos, não apenas volume.
O dedo na ferida: quem ganha com a demora?
A pergunta que incomoda raramente é feita em voz alta, porque estraga o verniz: quem ganha com a lentidão? Quem ganha com a repetição? Quem ganha com a fragmentação? Quem ganha com o cidadão a andar de porta em porta como quem carrega um corpo e um recibo?
E aqui, sim, entram governos, conselheiros, administradores e toda a fauna dos corredores: não pela caricatura do "vilão", mas pela realidade do poder. O poder escolhe prioridades. E quando a prioridade é manter o edifício de pé, o doente torna-se apenas o ruído inevitável no átrio.
Epílogo: o futuro não pede licença
Há um futuro inteiro à porta, com dispositivos mais inteligentes, mais rápidos, mais acessíveis. Mas o futuro não entra sozinho: precisa de portas abertas, regras claras e coragem para cortar dependências. Sem isso, continuaremos a viver numa medicina com a estética do amanhã e a alma do ontem.
E o pior não é pagar caro. O pior é pagar caro por nada mudar.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team
Referências e leitura útil
- OMS — Diagnostics (visão geral sobre diagnóstico e papel em sistemas de saúde)
- NICE (Reino Unido) — orientações e avaliação de tecnologia em saúde
- International Society for Imaging Informatics in Medicine (SIIM) — informática em imagiologia (RIS/PACS)
- HL7 FHIR — norma para interoperabilidade de dados clínicos
- POCT (Point-of-care testing) — conceito e enquadramento (visão geral)