A Ideologia como Trela Moderna — Portugal e a Dominação do Povo

- Ideologia hoje funciona muitas vezes como rótulo emocional, não como mapa racional.
- O cidadão é empurrado para o papel de adepto: defende a tribo em vez de exigir resultados.
- O debate público desloca-se de problemas concretos (habitação, justiça, salários) para guerras simbólicas.
- A linguagem suaviza a miséria: muda-se o nome às coisas para reduzir o impacto moral.
- A lucidez torna-se acto subversivo: quando o povo pensa, o poder treme.
A Ideologia como Trela Moderna
Antigamente, uma ideologia era um mapa. Hoje é uma trela — curta, colorida e distribuída gratuitamente em época eleitoral.
À esquerda, à direita, ao centro ou na rotunda inteira, o método é idêntico: não se governa o povo — administra-se a sua percepção.
Enquanto o cidadão discute palavras, o poder trata de números. Enquanto o povo debate bandeiras, o sistema assina contratos. Enquanto a televisão grita "valores!", a realidade sussurra "lucros".
E o povo — esse velho figurante — continua a viver com salários do século XX, serviços do século XIX e promessas do século XXII.
A conversão do cidadão em adepto
A ideologia moderna não quer cidadãos informados. Quer crentes fiéis. Não pergunta "isto funciona?" Pergunta apenas: "é do nosso lado?"
Se falha, não importa. Se empobrece, relativiza-se. Se rouba, contextualiza-se. Se mente, chama-se "narrativa".
A palavra "responsabilidade" foi abolida por excesso de uso — e substituída por um novo conceito nacional: a culpa difusa, essa entidade mística que nunca tem morada certa.
A anestesia perfeita chama-se vocabulário
Tudo é ideológico hoje. A habitação não é um problema — é um "tema sensível". A pobreza não é miséria — é "desafio estrutural". A justiça lenta não é falência — é "complexidade processual".
O vocabulário tornou-se o maior instrumento de dominação. Quando se muda o nome às coisas, mata-se o seu impacto. A fome chamada "vulnerabilidade alimentar" dói menos nos relatórios.
E assim o país afunda-se com linguagem impecável e gráficos muito bem alinhados.
Divide-se o povo, salva-se o sistema
O povo divide-se por causas importadas, guerras alheias, slogans traduzidos à pressa. E, enquanto isso, ninguém pergunta:
- Porque é que um país pobre sustenta um Estado caro?
- Porque é que quem trabalha empobrece?
- Porque é que a mediocridade sobe e a competência emigra?
Essas perguntas são perigosas. Não cabem em ideologia nenhuma. Por isso não aparecem nos debates.
A ideologia é hoje o tranquilizante social perfeito: dá sensação de virtude sem exigir transformação. Permite sentir-se moralmente superior sem mudar absolutamente nada.
E assim seguimos — um país inteiro convencido de que discute política, quando na verdade apenas escolhe a cor do pano que tapa o mesmo mecanismo.
O acto subversivo chama-se lucidez
Talvez um dia percebamos que ideologia sem ética vira religião. E religião no poder nunca libertou povo algum.
Até lá, continuaremos a votar em narrativas, a aplaudir frases ocas e a chamar democracia a um sistema onde pensar livremente se tornou o verdadeiro acto subversivo.
Porque quando o povo pensa — a ideologia treme. E o poder… prefere sempre um povo bem-intencionado a um povo lúcido.
Epílogo
Não faltam "ismos". Falta-nos é o hábito de medir resultados, de exigir prazos, de pedir contas, de recusar o teatro. E, sobretudo, falta-nos a coragem de chamar as coisas pelo nome — mesmo quando o nome é feio e dói.
Co-autoria Editorial : Augustus Veritas — Fragmentos do Caos