A Floresta Que Cresce… e o País Que Arde — a estatística que Portugal adora

- Eurostat (2023): Portugal aparece com o maior "crescimento florestal" da UE: 11,1%, medido como incremento líquido do volume de madeira face ao stock inicial. 0
- Tradução do truque: a métrica fala sobretudo de madeira a aumentar; não é sinónimo de floresta mais saudável, diversa ou resistente ao fogo. 1
- Portugal continental (2024): registaram-se 6.255 incêndios rurais e 137.651 ha de área ardida (dados do Relatório do Estado do Ambiente/APA). 2
- Mensagem dos especialistas (na notícia): sem financiamento estável o "bom desempenho" pode não durar. 3
A Floresta Que Cresce… e o País Que Arde
A estatística que Portugal gosta: a que cabe num título
A notícia diz: Portugal "líder do crescimento florestal" na União Europeia. E, sim, o Eurostat coloca-nos no topo em 2023: 11,1%. 4 Só que o diabo — esse velho engenheiro — mora na definição: crescimento aqui é "incremento líquido do volume de madeira" face ao stock inicial. 5
Ou seja: mede-se sobretudo a contabilidade da madeira. Não se mede a mosaico de paisagem, a gestão do combustível, a diversidade de espécies, a saúde do solo, a capacidade de regeneração pós-fogo, nem a resiliência aos extremos climáticos. A métrica pode estar a sorrir… enquanto o território range os dentes.
Um país que "cresce" e queima: o paradoxo nacional
Repare-se na fotografia de fundo: mesmo com variações anuais, Portugal continua a viver com fogo como se fosse estação do ano. Em 2024, o Relatório do Estado do Ambiente aponta 137.651 hectares de área ardida e 6.255 incêndios rurais. 6 Isto não é ruído estatístico; é padrão civilizacional.
E aqui nasce a ironia: podemos ter um "crescimento" de volume de madeira num ano e, ainda assim, manter um sistema que permite que o país arda noutro. A árvore cresce… a política encolhe.
A vitória de PowerPoint: quando "mais madeira" vira "melhor floresta"
Portugal tem uma antiga vocação: confundir indicador com realidade. O Eurostat fala de incremento de madeira. 7 O debate público traduz: "a floresta está melhor". E a seguir, como manda a tradição, voltamos a discutir aviões, heli-pistas, sirenes, e a épica coreografia anual do "agora é que é".
Uma floresta resiliente não é um armazém de matéria-prima a acelerar. É um ecossistema com diversidade, continuidade de gestão, rendimentos compatíveis para quem cuida do território, e prevenção que exista antes do fumo. E é aqui que a própria notícia deixa o aviso: sem financiamento estável, o bom desempenho não é duradouro. 8
O que seria "combate sério" num país adulto
Combate sério não é só mais meios em Agosto. É um contrato nacional com o território: financiamento plurianual, gestão do combustível com escala, mosaicos de usos, fiscalização eficaz, penalização real do abandono, incentivos alinhados com prevenção, e uma cadeia de valor florestal que pague a quem mantém a paisagem limpa e diversa.
Caso contrário, continuaremos a ter isto: um país que, num relatório europeu, aparece como "campeão do crescimento"… e, no Verão seguinte, volta a ser finalista olímpico na modalidade "cinza no ar".
Epílogo: a floresta não precisa de aplausos — precisa de Estado
A notícia pode não ser piada. Mas a forma como a celebramos, sem ler o rodapé da métrica, é o nosso humor involuntário. Se o indicador mede madeira e nós ouvimos "floresta", então já não é desinformação: é um hábito nacional.
Uma floresta digna não se mede só em percentagens — mede-se em resiliência, em vida e em futuro. E futuro não se faz com títulos. Faz-se com continuidade.
Co-autoria assistida por AI - Augustus Veritas — para que a lucidez não arda antes do Verão.