A Excelência e a Mediocridade: Um Estudo Filosófico Sobre a Propagação do Espírito

- Tese central: quem é bom numa área tende, em média, a ser bom em várias outras; o inverso também ocorre.
- Hipótese filosófica: não é "talento mágico", é um conjunto de hábitos mentais — rigor, atenção, coragem, método.
- O que se propaga não é a competência técnica, mas a estrutura interior do espírito que aprende.
- A mediocridade não é só falha: quando se organiza, torna-se sistema de autoprotecção.
- Consequência política: sociedades podem premiar hábitos de excelência… ou institucionalizar hábitos de mediocridade.
A Excelência e a Mediocridade: Um Estudo Filosófico Sobre a Propagação do Espírito
1. Preâmbulo: a mentira confortável da compensação
Existe uma crença popular que atravessa culturas como um bálsamo: a ideia de que o mundo compensa. Se alguém é bom numa coisa, então, "por justiça", terá de ser mau noutra. Esta crença é psicologicamente útil: protege a auto-estima colectiva. Se não fosse assim, teríamos de encarar o que é mais difícil: que a desigualdade pode residir não apenas em recursos, mas em estruturas de espírito.
O problema é que a vida não assina contratos de equidade. Ela tende, muitas vezes, a ser cumulativa. E o que se acumula não é apenas dinheiro. Acumulam-se hábitos, estilos de atenção, padrões de decisão, critérios de exigência. A excelência, tal como a mediocridade, comporta-se como um princípio contagioso.
2. A excelência como ética de relação com o real
Dizer que alguém "é bom" numa área pode significar duas coisas distintas. Pode significar que domina técnicas específicas. Ou pode significar algo mais fundo: que possui uma forma de estar perante o real.
A técnica é local. A atitude é transversal. Quem é excelente, muitas vezes, não o é por acumular dons inatos, mas por praticar uma espécie de ascese moderna: ver com clareza, escolher com rigor, corrigir sem auto-engano.
O que se transporta de domínio para domínio é, portanto, um núcleo invisível: a capacidade de aprender. E aprender não é adicionar informação — é transformar o próprio modo de pensar.
3. A arquitectura mental: atenção, método, coragem
A excelência tende a espalhar-se porque se apoia numa arquitectura mental relativamente estável:
- Atenção: ver o detalhe sem perder o todo; detectar ruído, procurar sinal.
- Método: estruturar problemas; decompor; testar; iterar; confirmar.
- Coragem: aceitar a dor do erro; expor-se; rever convicções; recomeçar.
- Disciplina: fazer o que importa quando ninguém está a olhar.
- Honestidade: não mentir a si próprio; não maquilhar resultados.
Estes pilares não pertencem a uma profissão. Pertencem a uma forma de ser. E é por isso que o músico pode ser bom programador, o programador bom escritor, o escritor bom estratega: não porque "têm tudo", mas porque têm eixo.
4. O inverso: a mediocridade como hábito, não como destino
Se a excelência se propaga, também a mediocridade o faz. E aqui convém uma distinção moral importante: mediocridade não é falta de génio; é, muitas vezes, falta de compromisso com o real.
A mediocridade não é necessariamente pouca inteligência. É, com frequência, um conjunto de atitudes: adiar, desculpar, simplificar o complexo, dramatizar o trivial, substituir evidência por narrativa, confundir opinião com compreensão.
A mediocridade atravessa áreas porque não é técnica deficiente — é relação deficiente com a verdade. E como essa relação se repete, ela infiltra-se em todas as decisões.
5. O ponto mais sombrio: quando a mediocridade se organiza
Um indivíduo medíocre pode sofrer em silêncio. Mas uma colectividade medíocre possui um instinto de sobrevivência que dá origem a sistemas. A mediocridade organizada não tolera critérios elevados, porque critérios elevados revelam o que ela tenta esconder: a sua fragilidade.
Assim surgem mecanismos de autoprotecção: regras que impedem avaliação, burocracias que substituem resultados, linguagens que obscurecem, comissões que diluem responsabilidade, e a célebre moral anestésica:"ninguém é perfeito".
A frase é verdadeira, mas usada como licença para não ser competente em nada. É a perfeição tornada caricatura para salvar a incompetência.
6. Antropologia do auto-engano: o conforto do "não dá"
Existe um mecanismo psicológico decisivo na mediocridade: a crença de que o impossível é natural. A frase "não dá" funciona como escudo metafísico. Não descreve uma limitação — descreve um alívio.
Porque tentar expõe. E expor-se é perigoso para quem vive de reputação e não de obra. O "não dá" protege a imagem; o "vou tentar" arrisca o fracasso.
A excelência nasce onde a pessoa prefere a verdade à auto-imagem. A mediocridade nasce onde a auto-imagem vence a verdade.
7. Política do espírito: sociedades que premiam hábitos mentais
Sociedades não escolhem apenas leis; escolhem hábitos mentais. Cada sistema educativo, cada cultura organizacional, cada forma de selecção de lideranças é uma pedagogia silenciosa: ensina o que compensa.
Se se premia o discurso em vez do resultado, cria-se retórica. Se se premia a lealdade em vez do mérito, cria-se clientela. Se se premia a aparência em vez da competência, cria-se teatro.
A grande questão filosófica é esta: queremos uma sociedade que forma pessoas capazes — ou uma sociedade que preserva lugares?
8. A ética da excelência: humildade e dureza
A excelência verdadeira não é arrogante. É humilde — porque sabe quanto ignora. Mas é também dura — porque não tolera mentira e é exigente. Dá trabalho, obriga a estudo, a investigação, a procurar a verdade. A excelência é, no fundo, uma forma de amor: amor pela realidade, pelo rigor, pelo que pode ser construído sem fraude.
A mediocridade, por contraste, é indulgente consigo mesma e agressiva com quem ameaça o seu conforto. E assim se explica um fenómeno social recorrente:sociedades estagnadas atacam quem ilumina. Não por maldade consciente, mas porque a luz é um julgamento involuntário. A verdade, nestes terrenos pantanosos, assusta. Os medíocres ficam sempre confortáveis com as narrativas que re-escrevem, da verdade e da realidade.
9. Conclusão: a propagação do espírito como destino aberto
A tese inicial pode agora ser refinada: quem é bom numa área tende a sê-lo em outras porque transporta consigo uma estrutura de espírito. E quem é fraco numa área tende a sê-lo em outras porque transporta também uma estrutura — não de incapacidade, mas de evasão.
Porém, nada disto é destino fixo. Há sempre um ponto de inflexão: o momento em que alguém escolhe deixar de se mentir. A excelência começa quando a pessoa troca a narrativa pelo real.
A pergunta final não é "quem tem talento?" — é: quem tem coragem para aprender?
Epílogo: uma pequena revolução interior
O mundo não muda apenas por decretos. Muda por padrões. Um padrão de rigor aqui, uma recusa de desculpas ali, uma coragem de dizer "não sei", uma insistência em testar, medir, melhorar.
A excelência é discreta, mas tem uma força política: ela prova que o "não dá" era mentira. E quando essa mentira cai, cai com ela metade do império da mediocridade.
Nota final do Autor :
A minha mãe Maria nunca estudou filosofia, nem escreveu tratados sobre ética ou comportamento humano. Mas tinha aquilo que o tempo só concede aos espíritos atentos: sabedoria vivida.
Quando me dizia, à sua maneira, "junta-te aos bons e serás melhor que eles; junta-te aos maus e serás pior que eles", não falava de moralismos nem de medo — falava de contágio humano.
Sabia que o carácter se constrói por proximidade, que as virtudes se aprendem pelo exemplo e que os desvios começam quase sempre por tolerância.
Esse conselho acompanhou-me pela vida fora como um farol discreto: não impôs caminhos, mas iluminou escolhas. Hoje, olhando o mundo e o país em que vivemos, percebo melhor a sua profundidade. Não escolhemos apenas companhias — escolhemos destinos. E talvez seja por isso que, mesmo em tempos sombrios, continuo a acreditar que estar entre os bons não nos torna perfeitos… mas impede-nos de nos perdermos.