BOX DE FACTOS
  • Alarme oficial na UE: a agência europeia da droga (EUDA) e o European Drug Report 2025 descrevem um mercado em mutação rápida, com impactos de saúde e segurança e crescente violência ligada à oferta. (EUDA; Relatório 2025)
  • Financial Times: a EUDA alertou que redes de tráfico se tornaram ameaça grave à segurança europeia, com corrupção, intimidação e violência a crescerem. (FT)
  • Portugal e PCC: notícias referem um relatório atribuído ao SIS apontando para cerca de 1.000 pessoas "ligadas" ao PCC em Portugal (alegação contestada e difícil de verificar publicamente em detalhe). (CNN Brasil)
  • Viragem nos EUA: ordem presidencial de 20 Jan 2025 para criar processo de designação de cartéis como FTO/SDGT e reforçar a abordagem securitária. (White House)
  • DOJ: memorando do Procurador-Geral (5 Fev 2025) com prioridade de "eliminação total" de cartéis e organizações criminosas transnacionais (TCOs). (DOJ (PDF))
  • Sanções e designações: em 9 Jun 2025, os EUA sancionaram "Los Chapitos" (facção do Cartel de Sinaloa), designando-os como entidade terrorista global (SDGT), no quadro do combate ao fentanyl e tráfico. (Reuters)
  • Venezuela (noticiário): a AP noticiou captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA no contexto de escalada militar na Venezuela (matéria com enorme impacto e controvérsia internacional). (AP)

A Europa dos Comunicados e a Guerra Real aos Cartéis

Há uma Europa que recita "direito internacional" como quem reza — e há um crime organizado que faz contas, compra portos, infiltra cadeias logísticas e recruta violência com a frieza de uma empresa. Quando alguém entra a martelo no tabuleiro, a Europa grita. Quando o tabuleiro é capturado, a Europa… redige.

1) O ponto cego europeu: tratar cartéis como "assunto policial"

O Financial Times pegou no aviso da EUDA e disse-o sem adornos: as redes de tráfico são hoje uma ameaça grave à segurança na Europa — não apenas "criminalidade". Falou-se de corrupção, intimidação, violência letal e pressão sobre portos e cadeias de abastecimento. (FT)

E a própria EUDA, no European Drug Report 2025, sublinhou que a volatilidade do mercado e a inovação dos traficantes criam novos riscos, exigindo prontidão e resposta coordenada. (EUDA; Relatório 2025)

2) Portugal como corredor: a geografia não vota, mas decide

Quando se diz que "Portugal já tem cá um comando", o que é verificável publicamente, com prudência, é isto: há referências mediáticas a um relatório atribuído ao SIS que aponta para cerca de 1.000 pessoas com ligações ao PCC em Portugal — um número que circulou e gerou debate, mas que não é facilmente escrutinável em detalhe por ser matéria sensível. (CNN Brasil)

O essencial, porém, não é o número exacto: é a lógica. Redes transnacionais procuram países com posição atlântica, infra-estrutura portuária, oportunidades de lavagem e um ecossistema onde a morosidade judicial e a burocracia criam "nevoeiro". Esse nevoeiro é o oxigénio do crime.

3) O outro ponto: Trump e a mudança de doutrina — "cartéis como inimigo estratégico"

Aqui entra o elo que tem gerado gritaria histérica, os slogans de "abaixo o imperialismo Americano", "violação do direito internacional". Aliás a "normal droga" corrosiva, das narrativas de ideologias e demagogias confortáveis e mimadas: Mas a abordagem norte-americana sob Trump, tal como documentada em actos formais, desloca o tema do "crime" para a esfera do terror e da segurança nacional. A ordem de 20 de Janeiro de 2025 estabelece um processo para designar cartéis e outras organizações como Foreign Terrorist Organizations (FTO) e/ou Specially Designated Global Terrorists (SDGT). (White House)

Depois, o Departamento de Justiça reforça a prioridade com o memorando "Total Elimination of Cartels and Transnational Criminal Organizations", explicitando uma política de perseguição agressiva a cartéis e TCOs. (DOJ (PDF))

E isto não fica em papel: em Junho de 2025, os EUA impuseram sanções a "Los Chapitos" (facção do Cartel de Sinaloa), designando-os como SDGT, numa linha de acção associada ao combate ao fentanyl e às redes de tráfico. (Reuters)

4) Venezuela e o choque moral europeu: quando a acção aparece, a retórica acorda

No caso venezuelano, o noticiário recente da Associated Press fala numa captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, no quadro de escalada militar e de uma postura externa marcadamente transaccional. (AP)

E aqui nasce o paradoxo que aqui denuncio : durante anos, a Europa foi mestra em declarações sobre democracia, direitos e legalidade — mas, quando o crime organizado e os narco-ecossistemas avançam em silêncio, a resposta tende a ser lenta, fragmentada, "processual" e sem nenhuma consequência ou acção concreta. Quando alguém faz uma jogada de força (com todos os problemas jurídicos que isso pode levantar), a Europa encontra subitamente uma voz de bronze — e um megafone.

5) O que está realmente em jogo: portos, corrupção e captura do Estado

O aviso da EUDA não é apenas sobre consumo: é sobre a capacidade das redes criminosas comprarem pontos críticos (logística, alfândega, cadeias de distribuição) e subirem a escada da corrupção. E quando o crime sobe, a política costuma descer — descer ao conforto do "vamos criar uma estratégia" enquanto o adversário já executou três. (FT; EUDA 2025)

Epílogo: a frase que ninguém quer ouvir

Trump (goste-se ou não) está a empurrar o combate às redes criminosas para o patamar de guerra estratégica — designações, sanções, perseguição, pressão financeira. A Europa continua demasiadas vezes a operar num registo de liturgia: a lei como incenso, a moral como discurso, a acção como rodapé.

E Portugal, com a sua geografia atlântica e a sua lentidão institucional, corre o risco de ser o sítio onde o crime não precisa de vencer eleições: basta-lhe comprar tempo.

Referências (para consulta directa)

Portugal e os gangs da droga Ajuste de contas do PCC na Margem Sul: dupla ataca de metralhadora e tenta matar à luz do dia.

Autor :Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial, pesquisa e investigação por Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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