BOX DE FACTOS
  • Evento: 40 anos da adesão de Portugal à União Europeia.
  • Narrativa oficial: "Salto qualitativo substancial em todos os sectores".
  • Exemplos apresentados: roaming, carregador único, indemnizações aéreas.
  • Realidade social: salários baixos, serviços públicos degradados, produtividade estagnada.
  • Questão central: desenvolvimento real ou pedagogia auto-celebratória?

A Europa do Carregador Único e o País que Ficou Pelo Caminho

Quando a propaganda começa a confundir direitos básicos com progresso civilizacional, sabemos que a narrativa já não serve para adultos — serve para tranquilizar consciências.

Confesso: fiquei perplexo.

Ouvir, em 2026, que Portugal "deu um salto qualitativo substancial em todos os sectores" faz-me sentir como se estivesse a escutar uma história para crianças — dessas em que tudo acaba bem, mesmo quando a casa está a arder.

Não se trata de negar que houve mudanças desde 1986. Seria absurdo fazê-lo. É facto que o mundo mudou muito e Portugal teve que mudar também. Mudaram as cadeias de valor, as tecnologias deram um "hyper-salto", os meios de transporte também, e por aí fora. Todos sabemos que já não estamos em 1986! Não precisam explicar o facto.

Mas transformar normas administrativas europeias em prova de desenvolvimento nacional é um exercício perigoso de auto-engano colectivo.

O país do carregador único

O exemplo máximo apresentado é revelador:

"Hoje temos carregador único."

É verdade.

Mas permitam-me a brutalidade da pergunta:

é isto que define o progresso de uma nação?

Não falamos de salários europeus. Nem de serviços públicos eficientes. Nem de justiça célere. Nem de produtividade. Nem de inovação tecnológica própria.

Falamos de um cabo USB.

Enquanto isso, Portugal continua:

  • no fundo da tabela salarial da União Europeia;
  • com jovens altamente qualificados a emigrar em massa;
  • com professores, médicos e técnicos exaustos;
  • com um Estado lento, burocrático e desconfiado do mérito;
  • com uma economia dependente de fundos e não de criação de valor.

Mas temos carregador único.

Direitos não são desenvolvimento

A União Europeia trouxe direitos — é inegável.

Mas direitos não são sinónimo de desenvolvimento económico, nem substituem soberania produtiva.

Ter direito a indemnização por atraso de voo não compensa viver num país onde o salário não chega ao fim do mês. Sobretudo quando mais de 80% da população portuguesa nunca realizou sequer um único voo na vida. Invocar direitos de passageiros aéreos como prova de progresso social num país onde a maioria luta pela sobrevivência quotidiana é um exercício de abstração confortável — típico de quem confunde estatística europeia com realidade nacional.

O cidadão europeu português pode reclamar em Bruxelas, mas continua incapaz de comprar casa em Lisboa.

Pode viajar sem roaming, mas não consegue regressar porque o país não lhe paga dignamente.

Fundos não são estratégia

Durante quatro décadas, Portugal recebeu milhares de milhões de euros.

A pergunta honesta nunca é "quanto recebemos". É:

o que construímos que permaneça?

Não criámos um tecido industrial forte. Não criámos cadeias tecnológicas próprias. Não criámos autonomia energética. Não criámos um Estado eficiente.

Criámos rotundas, infra-estruturas subutilizadas, consultoria, e dependência estrutural.

Confundiu-se financiamento com visão. E quando os fundos diminuem, fica o vazio.

A pedagogia da ilusão

O mais inquietante não é a celebração.

É a insistência numa pedagogia da ilusão: explicar aos portugueses que vivem melhor, quando eles sabem que vivem pior.

Que têm mais oportunidades, quando os filhos partem.

Que o país evoluiu muito, quando os serviços colapsam e o futuro se adia.

Não é eurocepticismo dizer isto.

É patriotismo adulto.

Europa sim — ingenuidade não

A União Europeia não é o problema.

O problema é um país que, tendo recebido estabilidade, tempo e recursos, não os converteu em transformação estrutural.

Entrámos europeus. Mas ficámos (ainda) periféricos.

Recebemos direitos. Mas não construímos poder económico.

Ganhámos normas. Mas perdemos ambição.

Epílogo — quando a propaganda substitui o balanço

Celebrar quarenta anos devia ser um exercício de verdade.

Não de auto-elogio institucional.

Portugal mudou. Sim.

Mas não mudou o suficiente para justificar discursos triunfalistas.

Porque um país verdadeiramente desenvolvido não precisa de explicar às pessoas que vivem melhor — as pessoas sentem-no.

Quando é preciso convencer, algo falhou.

E talvez o maior fracasso destes 40 anos não seja económico, nem social, nem europeu.

É termos aprendido a celebrar pouco, como se fosse muito.

O país "deu um salto", dizem. Eu acredito. Saltou, sim — mas muitas vezes para o lado. Saltou para a propaganda, para o auto-elogio, para a pedagogia do contentamento.

A Europa deu-nos normas, direitos e um mercado. Mas Portugal não converteu isso em salários dignos, produtividade, justiça célere, Estado eficiente e futuro para os seus jovens.

E é aqui que a narrativa se torna obscena: transformar o carregador único e as indemnizações por atrasos de voo em medalhas de progresso num país onde, para demasiados, a "viagem" mais comum continua a ser da cozinha para a ansiedade.

Portugal não precisa que lhe expliquem que evoluiu. Precisa de o sentir. Porque quando é necessário convencer, é sinal de que a realidade não acompanha o discurso.

Se isto é um "salto qualitativo substancial", então a fasquia está enterrada. E o aplauso é apenas o som da mediocridade a celebrar-se a si própria.

FONTE (JORNALISMO)

RTP Notícias / Antena 1 — "40 anos da adesão. 'O nosso país deu um salto qualitativo substancial'" (Andrea Neves, enviada especial a Estrasburgo).

Ver artigo na RTP
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — Crónica de cidadania
Este é o retrato acabado do delírio auto-elogioso institucional. (Entre o carregador único e o futuro perdido, escolhemos discutir cabos.)
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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