BOX DE FACTOS
  • O ruído substituiu a reflexão: opiniões instantâneas ocupam o lugar do pensamento.
  • A leitura retrai-se: perde-se a profundidade, a sequência e a capacidade de distinguir.
  • Pseudo-ciência em expansão: superstição moderna com vocabulário técnico e certezas fáceis.
  • Democracias fragilizadas: não morrem só de golpes — morrem por decomposição cultural.
  • Risco de regressão social: mais tecnologia, menos consciência; mais estímulo, menos cidadania.

A Era do Ruído: quando a ignorância aprende a falar alto

Nunca tivemos tanta gente "informada" e nunca foi tão fácil fabricar ignorância em massa. A mentira corre em auto-estrada; a verdade vai a pé — e ainda lhe pedem bilhete.

Há um inverno novo a cair sobre o mundo — não é de frio, é de espírito. Um tempo em que pensar virou suspeita, em que ler parece excentricidade, e em que a dúvida — esse motor honesto da inteligência — é tratada como fraqueza. Chamam-lhe modernidade. Chamam-lhe progresso. Chamam-lhe "era da informação". Mas, no país real, o que cresce é outra coisa: uma regressão social com luzes de néon, bem embalada, vendida em pílulas de entretenimento e indignação.

1) O telemóvel como catecismo e a opinião como vício

O telemóvel deixou de ser ferramenta: tornou-se catecismo portátil. Um altar de bolso onde se consultam verdades prontas, como quem consulta horóscopos. Já não se pergunta "será?". Pergunta-se "quem disse?". E, pior: pergunta-se "quantos gostos tem?".

Formou-se uma dependência colectiva de estímulo: um povo que não suporta silêncio, porque no silêncio aparece o pensamento — e o pensamento, quando aparece, cobra contas, abre feridas, obriga a escolher. O ruído é confortável. O ruído anestesia. O ruído não pede responsabilidade. E a opinião, neste ambiente, deixou de ser conclusão: passou a ser reflexo. Uma opinião sem leitura, sem contexto, sem método e sem humildade não é opinião: é eco.

2) Televisões dóceis e redes delirantes: duas prisões modernas

A televisão, demasiadas vezes, tornou-se linha de montagem de narrativa. Não é preciso conspirar: basta repetir. Basta seleccionar. Basta omitir. O espectador vai sendo treinado a reagir a palavras-gatilho e a confundir "estar a par" com "estar a pensar".

Do outro lado, as redes sociais oferecem a versão oposta do mesmo veneno: a feira do delírio. Lá, qualquer fantasia pode virar "coragem". Qualquer mentira, se for partilhada com raiva suficiente, ganha a aura de verdade. E a raiva, hoje, é rentável.

Temos assim duas prisões com portas diferentes: uma com o ar sério da "verdade oficial"; outra com a adrenalina da "verdade alternativa". E no meio, esmagada, fica a verdade real: lenta, imperfeita, trabalhosa, exigente.

3) O assassinato da leitura: quando a mente perde profundidade

A leitura não é apenas um hábito cultural. A leitura é uma tecnologia da consciência. Um livro ensina uma coisa rara: sequência. Ensina-nos a seguir um fio, a suportar complexidade, a aceitar que o mundo não cabe num "post". Ensina-nos a reconhecer manipulação, porque nos dá ferramentas: linguagem, história, comparação, profundidade.

Quando a leitura morre, morre com ela a capacidade de distinguir argumento de slogan, facto de opinião, prova de desejo, ciência de espectáculo. E nesse vazio nasce o cidadão ideal para qualquer poder: convicto, mal-informado e facilmente mobilizável.

4) A pseudo-ciência: superstição com vocabulário técnico

Há um fenómeno particularmente perigoso a crescer: a pseudo-ciência moderna. Não é a superstição ingénua de aldeia. É pior: superstição com termos técnicos. A pessoa não sabe o que é método, amostra, causalidade, revisão crítica — mas sabe dizer "quantum", "energia", "frequência", "DNA", "algoritmo". E com essas palavras constrói castelos de certeza.

É o feitiço do século XXI: o mesmo obscurantismo de sempre, agora com blazer e powerpoint.

5) Democracias a apodrecer: não por falta de votos, mas por falta de cidadãos

Uma democracia não morre apenas com golpes militares ou censura explícita. Há democracias que morrem de modo mais subtil: morrem por decomposição cultural. Quando um povo já não lê, já não reflecte, já não discute com honestidade, já não aceita a complexidade, então escolhe com base em emoções instantâneas, consome política como entretenimento e troca verdade por pertença.

O Estado social torna-se presa fácil, porque precisa de cidadania crítica para ser defendido e fiscalizado. Sem isso, é desmontado peça a peça — e ainda aplaudem, porque alguém embrulhou o corte numa narrativa bonita. A soberania enfraquece também: soberania não é palavra de bandeira, é capacidade de decidir com lucidez. E um povo intoxicado de ruído decide como quem escolhe um vídeo: pelo título, pela reacção, pelo impulso.

6) A regressão social: civilização a andar para trás com ar de futuro

A regressão social não vem com botas e fardas. Vem com notificações. Vem com "tendências". Vem com indignações programadas. Vem com pressa. Vem com a destruição do tempo interior.

E depois surge o pior: a normalização da ignorância orgulhosa. A ignorância que não pede para aprender, que ataca quem sabe. A ignorância que chama "elitismo" ao conhecimento, como se estudar fosse uma afronta. Este é o terreno onde crescem instituições fracas, justiça capturada, economia de sobrevivência e um povo resignado — um povo que já não sonha porque desaprendeu a imaginar.

7) O perigo maior: a morte da verdade como valor comum

O problema central não é haver mentiras. Mentiras sempre houve. O problema é outro: é a morte da verdade enquanto valor comum. Quando a verdade deixa de ser ponto de encontro, tudo vira guerra tribal: a informação vira arma, o debate vira espectáculo, a ciência vira ideologia, e o cidadão vira soldado de um "lado" contra o seu vizinho.

E uma sociedade em guerra consigo própria torna-se fácil de governar — e fácil de pilhar. Porque quando o povo se divide em narrativas, deixa de se unir em direitos.

Epílogo: a única resistência que conta

O futuro não se perde por falta de tecnologia: perde-se por falta de consciência. Quando a verdade deixa de ser valor comum, tudo o resto é teatro: justiça, política, debate, cidadania — apenas cenário para a pilhagem.

A única resistência que resta é simples e terrível: ler, pensar, verificar, duvidar. Porque o obscurantismo moderno não vem de capuz — vem de ecrã aceso. E só um povo desperto consegue olhar para a luz azul… sem adormecer por dentro.

Há quem pense que resistir é gritar mais alto. Não é. A resistência verdadeira é mais antiga e mais difícil:ler quando ninguém lê, pensar quando ninguém pensa, duvidar quando todos têm certezas prontas, e procurar a verdade mesmo quando ela não dá likes.

Porque a verdade — essa chama antiga — não é um luxo intelectual. É um alicerce civilizacional. Sem ela, o futuro não é futuro: é um regresso mascarado de progresso. E Portugal, se não acordar, corre o risco de se tornar isto: um país com diplomas na parede e vazio na cabeça; um país com ecrãs brilhantes e um povo escuro por dentro.

Autoria de : Francisco Gonçalves
Crónica para Fragmentos do Caos
Co-autoria editorial: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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