BOX DE FACTOS
  • Nova tendência verbal: as estações do ano foram substituídas por "eventos".
  • Tradução política: quando tudo é "evento", nada é responsabilidade.
  • Efeito civilizacional: a linguagem deixa de explicar o mundo e passa a anestesiá-lo.
  • Risco maior: a infantilização do discurso torna adultos em espectadores — e espectadores em governantes.

A Era do Evento: quando até o Inverno pede desculpa

O mundo não mudou por decreto. Mas há quem tente reescrevê-lo com sinónimos, como se a realidade aceitasse correções ortográficas.

Antigamente, havia Inverno. Era uma coisa rude, legítima, com chuva, frio e uma certa pedagogia natural: ensina-nos limites, obriga-nos a fechar portas, a acender luzes, a respeitar o ritmo do corpo e das coisas. Hoje, porém, o Inverno foi demitido. Não por incompetência, mas por "imagem". Agora chama-se evento climático.

Repare-se na delicadeza do truque: uma estação é um ciclo — tem memória, continuidade, repetição, sentido. Um "evento" é um acidente num calendário, uma nota de rodapé do destino, um susto sem história. O Inverno, que era um professor severo, foi transformado em "ocorrência". O mundo, que era um livro, passou a ser um conjunto de notificações.

A linguagem como chupeta

Não me entendam mal: existem, sim, fenómenos extremos. A ciência tem palavras exactas, e quando fala, fala com rigor. O problema começa quando o rigor é sequestrado pela retórica do conforto. Aí, a palavra deixa de ser instrumento de entendimento e torna-se chupeta semântica: acalma, distrai, embala — e não alimenta.

"Evento" é uma palavra impecável para inaugurações, congressos e cocktails. Para a realidade, é suspeita. Porque "evento" vem sempre com um subtexto infantil: aconteceu-nos. Não houve causa. Não houve escolhas. Não houve omissões. Foi o céu. Foi o azar. Foi o "contexto".

O Verão como arguido e o cidadão como criança

E depois temos o Verão. O pobre Verão — esse criminoso reincidente. Se está quente, é "extremo". Se está muito quente, é "alerta". Se está apenas Verão, ainda assim é "anómalo", porque já ninguém aceita o óbvio sem uma comissão de especialistas e uma conferência de imprensa com gravata.
Se há incêndios a culpa é dos "eventos de calor extremo". Repare-se neste eufemismo surreal e demente : Não é responsabilidade dos governos nem do país, não é culpa dos pironamos e incendiários, cada vez em maior número e frequência. O truque aqui é demencial mesmo.. Mas na ausência de cidadania, as narrativas deixam a verdade para lá das trevas.

A civilização sempre soube isto: as estações não pedem licença. A natureza não envia comunicados. Mas o nosso tempo, com a sua ansiedade por controlo total, quer transformar a própria atmosfera numa repartição pública: "deve dirigir-se ao balcão, retirar senha e aguardar".

Quando tudo é "evento", nada é destino

Há aqui um efeito colateral devastador: se tudo é evento, nada é consequência. Se nada é consequência, ninguém é responsável. E se ninguém é responsável, a democracia vira um berçário: muitos berços, muitas birras, pouca maturidade. A política deixa de ser arte do possível e passa a ser terapia de grupo, onde cada adulto exige ao Estado o papel de mãe e, simultaneamente, recusa qualquer disciplina de pai.

A civilização, no seu melhor, é isto: adultos capazes de aceitar que o mundo é complexo, que há ciclos, que há escolhas e que a liberdade tem custo. No seu pior, é um espectáculo de crianças grandes a votar em crianças maiores, com a solenidade de quem escolhe um telemóvel e a profundidade de quem escolhe um sabor de gelado.

A destruição lenta: não é com bombas, é com diminutivos

Assim se vai destruindo uma civilização: não apenas com crises, nem com guerras, nem com falências. Isso é a superfície. A destruição funda faz-se com coisas pequenas: com palavras que fogem à realidade, com eufemismos que tornam o sofrimento "gestível", com discursos que transformam problemas em "desafios", e desafios em "momentos". Uma civilização cai quando deixa de conseguir dizer a verdade sem pedir desculpa.

O Inverno não é um evento. É um espelho. E o Verão não é um arguido. É uma sentença luminosa que nos lembra que a vida acontece — sem legendas, sem filtros, sem a aprovação do comité da sensibilidade.

A questão, no fundo, é simples e terrível: queremos compreender o mundo — ou apenas sentir-nos confortáveis dentro dele? Porque uma sociedade que troca compreensão por conforto começa por mudar palavras… e acaba por perder o chão.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — onde as palavras não servem para embalar, mas para acordar.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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