A Educação em Portugal e o Pão da URSS — Planeamento Central, Resultados Pequenos

- Frase-âncora: "Temos na educação um sistema soviético de planeamento central..."
- Ponto de crítica: resultados percebidos como medíocres, custos elevados, resistência estrutural à mudança.
- Contraponto prático: modelos fora do "molde único", como programas complementares e personalizados.
- Caso em destaque: TUMO, com reconhecimento internacional recente, traz a conversa para o chão.
- Fonte bolacha: *Público* — entrevista e análise, 27 Dez 2025.
A Educação e o Pão da URSS — Quando o Planeamento Central Entra na Sala de Aula
1. O Ministério como Padaria
Pedro Santa Clara atira a metáfora com a crueldade simples das imagens boas: planeamento central, testado para produzir pão, que não funcionou. O subtexto é ainda mais incómodo: se falhou a produzir pão — coisa mensurável, física, com cheiro e peso — por que haveria de triunfar a produzir aprendizagem, que é subtil, humana, irregular e, por natureza, indisciplinada?
Em Portugal, a educação é muitas vezes tratada como uma fábrica com uma só linha de montagem: a mesma peça, a mesma medida, o mesmo tempo, o mesmo carimbo. E depois espantamo-nos: "Porque não sai excelência?" — como se a criatividade fosse um produto enlatado que se empilha em paletes.
2. A Verdade Nua: Mérito, Medo e Medíocre Consistência
Há uma tragédia silenciosa no coração do sistema: ele sabe que precisa de mudar — e teme mudar. Mudar implica comparar, medir, responsabilizar, premiar o que funciona e abandonar o que falha. Ora, num ecossistema acostumado a sobreviver por "norma", a palavra "resultado" soa a heresia.
3. A Sala de Aula Não é um Formulário
Um miúdo não é um "processo". Uma miúda não é um "dossier". Um professor não é uma extensão do regulamento. E, no entanto, a escola transforma pessoas em papel: grelhas, metas, relatórios, plataformas — o altar digital onde se sacrifica tempo real de aprendizagem para alimentar a fome estatística do sistema.
4. O Caso TUMO [1] : Quando se Deixa o Aluno Respirar
E aqui entra o detalhe que estraga a paz dos conformados: há modelos a funcionar fora do molde. O TUMO — falado recentemente por cá e reconhecido lá fora — aponta uma direcção desconfortável: personalização, projectos, autonomia, aprendizagem com intenção. Não é "milagre": é desenho. E o desenho começa por uma ideia simples — o aluno não é um recipiente.
5. O Que Mudava Amanhã (Sem Revoluções de PowerPoint)
A grande mentira do costume é esta: "a mudança é complexa". Complexo é manter um sistema caro, cansado, e ainda exigir-lhe genialidade. Mudar, na prática, começa por meia dúzia de decisões simples — e por uma coragem rara: deixar cair o peso morto.
5.1 Autonomia real (com responsabilidade real)
Sem autonomia, a escola é apenas um balcão do Estado. Cumpre circulares, não cumpre destinos. Autonomia real significa poder decidir organização do tempo, metodologias, projectos, prioridades locais. Mas há um preço justo: responsabilização transparente por resultados de aprendizagem, retenção, abandono, clima escolar e progresso.
- O que se fazia amanhã: pilotagem por agrupamento: 1 ano com autonomia reforçada, metas claras e auditoria leve.
- O que se cortava: relatórios redundantes e plataformas que existem só para "provar" que a escola trabalhou.
5.2 Um currículo mais leve — e mais profundo
O currículo actual é, muitas vezes, um catálogo: passa-se por tudo e fica-se com pouco. Um currículo moderno não é "mais matéria"; é melhor matéria, com tempo. Tempo para ler, para escrever, para errar, para refazer, para discutir, para construir.
- Princípio: reduzir conteúdos repetidos e acessórios; reforçar compreensão, escrita, lógica, matemática aplicada, literacia científica.
- Regra de ouro: menos páginas, mais perguntas. Menos "dar", mais "perceber".
- Resultado esperado: alunos que dominam fundamentos — não turistas de capítulos.
5.3 Projectos obrigatórios (sim, obrigatórios) — mas sem folclore
Projectos não são "cartolinas" nem feiras de vaidades. Projectos são problemas reais, com produto final, com trabalho em equipa, com apresentação pública, com avaliação por rubricas. E são a ponte entre escola e mundo.
- Um projecto por período (ou por semestre), em todas as escolas, com temas adaptados à idade.
- Saídas possíveis: protótipo, relatório, vídeo, exposição, app simples, investigação local, jornal escolar, laboratório de ciência.
- Regra: todos apresentam. Todos defendem. Todos aprendem a argumentar.
5.4 Avaliar menos o "erro" e mais a "evidência"
O sistema actual avalia muitas vezes o aluno como se fosse um exame ambulante. Mas a vida real não é escolha múltipla: é raciocínio, clareza, persistência, comunicação. A avaliação moderna centra-se em evidências de aprendizagem: portfólios, feedback, melhoria iterativa, auto-avaliação guiada.
- O que se fazia amanhã: cada aluno manter um portfólio (digital ou físico) com trabalhos e progressos por competência.
- O que se mudava: mais momentos de feedback e reescrita; menos "um teste decide tudo".
- Benefício: o aluno aprende a melhorar — que é a competência central do século XXI.
5.5 Desburocratizar a escola (para devolver tempo aos professores)
Aqui está o segredo que ninguém quer dizer em voz alta: a burocracia come a alma do professor. E sem professores vivos, não há escola viva. A burocracia não é "organização": é, muitas vezes, medo institucional disfarçado.
- Medida brutalmente simples: inventário nacional das tarefas administrativas docentes — e eliminação de 30% no primeiro ano.
- Outra medida: "uma plataforma, um registo": não repetir o mesmo dado em três sítios diferentes.
- Meta explícita: devolver pelo menos 2 horas por semana a cada professor, para planear, acompanhar, conversar, orientar.
5.6 Diferenciação sem estigma: percursos e ritmos
Um sistema que impõe um só ritmo produz dois efeitos: humilha quem vai mais devagar e entedia quem vai mais depressa. A diferenciação não é elitismo: é justiça pedagógica.
- Grupos flexíveis em certas áreas (matemática, línguas, ciências) por períodos, com mobilidade real.
- Apoio eficaz para dificuldades (tutoria e reforço) e desafios reais para talento (clubes, olimpíadas, laboratórios).
- Regra: ninguém fica para trás por vergonha — nem fica preso por falta de estímulo.
5.7 Tecnologia: ferramenta de criação, não de vigilância
A tecnologia na escola portuguesa é, demasiadas vezes, um carimbo digital: serve para reportar, não para criar. Amanhã, a tecnologia devia ser: laboratório. Código simples, multimédia, design, robótica, simulações, ciência de dados básica, pensamento computacional.
- Prática concreta: "tempo de estúdio" semanal: 60–90 minutos para criar (com orientação e objectivo).
- Competência-alvo: o aluno produzir algo que funcione, explique, comunique ou resolva um problema.
5.8 Ligações ao mundo real: abrir as portas, baixar os muros
A escola não deve ser uma ilha nem uma penitenciária pedagógica. Projectos com autarquias, associações, empresas locais, universidades, centros científicos, artes e ofícios. O aluno aprende quando sente que o que faz tem eco.
- Medida: pelo menos 2 projectos/ano com parceiro externo (mesmo que pequeno).
- Fecho: apresentação pública — para treinar confiança, clareza e responsabilidade.
- Dar autonomia à escola — e exigir resultados claros.
- Aliviar currículo para ganhar profundidade.
- Projectos reais com produto final e apresentação.
- Avaliar por evidências, não por sustos.
- Cortar burocracia para devolver tempo ao professor.
- Usar tecnologia para criar, não para carimbar.
É isto. Sem foguetões de marketing. Sem "reformas históricas" anunciadas em conferência de imprensa. Mudança é um verbo humilde: faz-se na sala de aula, todos os dias. E quando a escola volta a ser um lugar de pensamento — o país respira.
Epílogo: O Pão, o Futuro e a Humildade
A metáfora do pão dói porque é concreta: ninguém se alimenta de relatórios.
➤ Texto base e debate citado:
Entrevista no PÚBLICO via partilha
➤ Fonte original jornalística:
PÚBLICO — 27 Dez 2025
➤ Projectos Internacionais de Referência em Educação:
- TUMO Center for Creative Technologies (Arménia, global) — modelo complementar de aprendizagem baseado em projectos, autonomia e tecnologia criativa. https://tumo.org
- High Tech High (EUA, Califórnia) — escolas públicas assentes em project-based learning, avaliação qualitativa e integração real entre disciplinas. https://www.hightechhigh.org
- Studio Schools (Reino Unido) — ensino secundário orientado a competências práticas, trabalho em equipa e ligação ao mundo real. https://www.studioschoolstrust.org
- Ørestad Gymnasium (Dinamarca) — escola pública sem salas tradicionais, focada em colaboração, autonomia e aprendizagem transversal. https://ogym.dk
- AltSchool (EUA) — experiências de personalização curricular com apoio tecnológico e avaliação contínua (caso de estudo relevante). https://altschool.com
- OECD – Innovative Learning Environments — estudos comparativos internacionais sobre modelos educativos flexíveis e eficazes. https://www.oecd.org/education/innovation-education/
Tabela Comparativa — Modelo Centralizado vs Modelos Inovadores
| Dimensão | Modelo Centralizado (tendência dominante) | Modelos Inovadores (ex.: TUMO, High Tech High, Ørestad, Studio Schools) | Impacto provável no aluno |
|---|---|---|---|
| Governança | Decisão de topo; escola executa "norma" e "meta". | Autonomia local com responsabilidade; adaptação ao contexto real. | Mais sentido de pertença, mais agilidade, menos cinismo. |
| Currículo | Conteúdos extensos; ritmo único; pouco espaço para exploração. | Currículo enxuto + projectos; trilhos flexíveis; profundidade em vez de "corrida". | Mais compreensão real, menos memorização descartável. |
| Metodologia | Aula expositiva; exercícios repetitivos; ensino por "capítulo". | Project-based learning; desafios; criação; colaboração; investigação guiada. | Motivação sobe, autonomia cresce, curiosidade deixa de ser castigada. |
| Avaliação | Testes padronizados; foco no "certo/errado" imediato. | Portfólios, rubricas, feedback contínuo; avaliação por evidência de trabalho. | Menos ansiedade cega; mais aprendizagem com retorno útil. |
| Papel do professor | Transmissor de programa; pressionado por calendário e burocracia. | Mentor e arquitecto de aprendizagem; tempo protegido para acompanhar trajectos. | Mais confiança, mais suporte, menos abandono silencioso. |
| Tecnologia | Plataformas para controlo/reporting; digitalização da burocracia. | Ferramenta de criação (media, código, design, ciência); tecnologia ao serviço do projecto. | Competências úteis; literacia digital real, não "cliques". |
| Relação com o mundo real | Fraca ligação; "a vida começa depois da escola". | Parcerias, desafios reais, apresentações públicas, cultura de protótipo. | Mais propósito; competências transferíveis; menor choque pós-escola. |
| Inclusão e ritmos | "Um tamanho serve todos"; diferenças viram "problema". | Percursos diferenciados; apoio activo; talento visto como diversidade. | Menos estigma; mais retenção; mais justiça pedagógica. |
| Custo/eficiência | Custo alto + retorno discutível; muito peso administrativo. | Investimento orientado ao impacto; foco em eficácia e resultados observáveis. | Mais valor por hora; menos tempo perdido em "rituais". |
[1] O que é o TUMO - é um modelo educativo internacional, criado na Arménia, focado na aprendizagem autónoma e orientada por projectos, sobretudo nas áreas da tecnologia, artes criativas e pensamento crítico. Não substitui a escola tradicional: complementa-a. Os alunos escolhem percursos, trabalham problemas reais, criam projectos concretos e aprendem ao seu próprio ritmo, com mentores em vez de professores expositivos. O princípio é simples e radical: o aluno não é um recipiente — é um autor.
Fragmentos do Caos — crónica e análise crítica
(Coautoria assistida por IA, quando útil — mas a indignação é 100% humana.)