BOX DE FACTOS
  • Tese central: a democracia não caiu; ficou para trás — e o atraso tornou-se vulnerabilidade.
  • Diagnóstico: regras do século XIX a governar um mundo algorítmico, instantâneo e global.
  • Sintoma: o cidadão vota, mas deixou de sentir consequência — nasce a inutilidade colectiva.
  • Risco: a "eficiência" autoritária torna-se tentação quando a democracia parece lenta e impotente.
  • Saída: reinventar a democracia como sistema vivo, contínuo, transparente e participativo.

A Democracia que Não Aprendeu a Envelhecer

Há sistemas que não morrem por colapso. Morrem por atraso. Continuam de pé enquanto o mundo corre. E, um dia, o farol ainda aceso já não alcança os navios.

A tragédia do nosso tempo não é o colapso da democracia. É algo mais subtil — e por isso mais perigoso: a democracia não caiu; ficou para trás. Continuou de pé enquanto o mundo se tornou mais rápido, mais complexo, mais desigual, mais nervoso. E nós, cidadãos, continuámos a pedir-lhe que respondesse com mecanismos de outra era, como quem exige a um relógio de corda que governe um reactor nuclear.

I — O anacronismo democrático

A democracia representativa foi desenhada para um mundo onde a informação demorava semanas a circular, o poder económico tinha fronteiras, e o cidadão acreditava conhecer, de algum modo, o seu representante. Hoje, o capital é transnacional, a propaganda é algorítmica e a mentira corre mais depressa do que a verdade. O poder tornou-se invisível — e a nossa arquitectura política insiste em permanecer visível, lenta, ritualizada, como se a realidade tivesse a delicadeza de esperar pela próxima legislatura.

Não é que a democracia tenha falhado por maldade. Falhou por desfasamento temporal. E esse desfasamento é um convite permanente a quem promete resolver "já", com "força", com "ordem".

II — Quando o povo deixa de sentir que governa

O sinal mais grave de decomposição democrática não é apenas a abstenção. É a sensação íntima de que a cidadania foi reduzida a uma assinatura no rodapé do próprio destino. O cidadão vota, mas nada muda; participa, mas não decide; escolhe, mas não governa. Entre o acto político e o efeito real abriu-se um abismo.

E nesse vazio nasce o ressentimento. Não por perversidade — mas por exaustão. O autoritarismo não se alimenta apenas de ódio. Alimenta-se de desespero. Quando a democracia parece incapaz de proteger, agir, responder, a tentação de um "homem forte" surge como anestesia para a angústia colectiva.

III — O regresso discreto das trevas

As trevas raramente regressam de botas e fardas. Regressam de fato e gravata. Regressam falando de eficiência, moral, segurança, identidade, grandeza perdida. Prometem simplificar o mundo — e os povos cansados aceitam, porque o caos assusta mais do que a submissão.

No século XXI, já não é preciso queimar livros em praça pública: basta enterrá-los nos algoritmos, afogá-los na abundância, torná-los irrelevantes. Não se censura apenas pela força — censura-se pela saturação. A verdade não é destruída: é substituída por versões infinitas, até que ninguém saiba por que razão haveria de lutar por uma.

IV — A culpa colectiva: a negligência

Há uma culpa que nos pertence, mesmo quando nos custa admiti-la: aceitámos democracias sem actualização, partidos fechados sobre si próprios, instituições opacas, e um poder económico que se sentou acima do poder popular como se fosse lei natural. Reduzimos a cidadania a um ritual ocasional — e a liberdade, quando não é exercida, atrofia.

A democracia não morreu — foi negligenciada. E nada é mais perigoso do que um sistema que se julga eterno: porque, ao sentir-se eterno, deixa de se defender.

V — Um ponto de bifurcação civilizacional

Estamos num limiar. De um lado, democracias lentas, fragmentadas, incapazes de responder à urgência social. Do outro, autoritarismos "eficientes", decisões rápidas, frases simples para problemas complexos. O perigo é evidente: quando a democracia não oferece futuro, o medo oferece disciplina.

E as trevas avançam não porque sejam invencíveis — mas porque a luz, distraída, deixou de reparar as suas próprias lâmpadas.

VI — Reinventar ou ser governados

O século XXI exige outra ideia de democracia: contínua, não episódica; participativa, não simbólica; transparente por defeito, não por escândalo; tecnológica, mas humanista; com limites claros ao poder económico; com educação crítica como pilar constitucional e não como adereço.

Não se trata de utopia. Trata-se de sobrevivência. A democracia precisa de deixar de ser apenas um método de escolha de governantes e voltar a ser um modo de vida colectivo.

Epílogo — A vela na noite

Sim, as trevas aproximam-se e adensam-se. Mas não são inevitáveis. A História nunca é destino — é disputa. Enquanto houver quem pense, quem escreva, quem questione, quem se recuse a aceitar a normalização do absurdo, a noite não vence.

A democracia só morre quando o pensamento abdica. E enquanto houver consciência, há resistência — mesmo que seja apenas uma vela acesa num quarto escuro. Às vezes, isso basta para lembrar ao mundo que ainda é possível amanhecer.

Crónica da Autoria de :
Francisco Gonçalves
Crónica filosófica para Fragmentos do Caos • Co-autoria editorial: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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