BOX DE FACTOS
  • Democracia-Estúdio: a política reduzida a painel, ruído e performance.
  • Reciclagem moral: o país habitua-se a que "tudo passa" e "nada pesa".
  • Isaltino Morais: figura associada a condenação judicial mediática e cumprimento de pena.
  • José Sócrates: processo mediático e judicial de grande dimensão, com julgamento e acusações, que o próprio contesta.
  • O problema central: normalizar o "escândalo como currículo" e tratar a vergonha como opinião.

A Democracia-Estúdio: quando o comentário vira lavagem e o país vira plateia

Uma democracia não morre apenas nos golpes. Morre também nos sofás: quando a indignidade é "convidada", a vergonha é "ponto de vista" e o passado é apagado por um genérico bem editado.

Há um momento em que a televisão deixa de ser espelho e passa a ser detergente. Não informa: lava. Não escrutina: perfuma. Não pergunta: embala. E, nesse momento, a democracia transforma-se numa coisa estranha — uma democracia-Estúdio, onde a verdade é cenário móvel e a ética um adereço opcional.

1) O cúmulo não é a opinião — é a normalização

Não se trata de discordar deste ou daquele comentador. Trata-se de outra coisa, mais funda: a normalização pública de figuras cuja trajectória política e judicial ficou marcada por escândalos, condenações, investigações, processos longos — e um rasto de descrença.

Para muitos portugueses, ver Isaltino Morais a orbitar o comentário político, em formato painel, não é "pluralismo": é um sinal de decadência do filtro moral do espaço público. O país aprende, sem que ninguém o diga, a lição mais tóxica: tudo é reciclável, até o que devia ficar como advertência.

2) O caso Sócrates: quando o tempo vira absolvição cultural

E depois há José Sócrates — não como discussão ideológica, mas como símbolo de um sistema onde o tempo se transforma em anestesia. O processo arrasta-se, as acusações circulam, a polémica cresce, o país divide-se — e, ao fim de anos, instala-se aquela frase terrível, dita em surdina: "já ninguém quer saber".

É exactamente aí que a democracia falha: quando o cansaço substitui o juízo. Não é preciso condenar em praça pública quem ainda está em julgamento; mas é legítimo dizer que a cultura que transforma processos graves em entretenimento é um cancro lento.

3) A indústria do comentário: fábrica de nevoeiro

O comentário político, quando perde vergonha, torna-se uma máquina de neblina: muito fumo, pouca luz. Os painéis passam a funcionar como "tribunais de opinião", onde a frase mais teatral vence a frase mais verdadeira.

E quando se convoca para esse teatro figuras associadas a histórias que feriram a confiança pública, o que se está a dizer ao país é brutalmente simples: a honra não é critério; é detalhe.

4) "Roubaram o país": a percepção que nasce do vazio

Eu percebo a frase dura — "roubaram excravelmente o país" — porque ela nasce de uma dor real: salários esmagados, impostos que sobem, serviços que falham, jovens que partem, gente a trabalhar a vida inteira para ficar a contar cêntimos.

Mesmo quando a justiça ainda discute, ou quando os processos têm as suas etapas, a percepção de roubo institucional instala-se sempre que a classe dirigente parece intocável e o cidadão parece descartável. E é essa percepção — esse veneno social — que os estúdios alimentam, quando fazem do escândalo um currículo.

Epílogo: uma democracia não se comenta — exige-se

Uma democracia digna não precisa de "figuras" para encher tempo de antena. Precisa de factos, de contraditório sério, de jornalistas com coragem e de cidadãos com memória. Precisa, sobretudo, de uma ideia simples e antiga: consequência.

Quando o país voltar a exigir consequência — na lei, na política e no espaço mediático — talvez deixe de ser plateia. Porque um povo que só assiste… acaba por ser governado como quem muda de canal.

REFERÊNCIAS / FONTES
Nota: ligações consultadas em 12/01/2026.
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos News Team — texto em coautoria com Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.