A Causa que Devorou o Povo — quando o martírio vira estratégia

- Recusar desarmar, quando se diz representar um povo, pode significar escolher a continuação do sofrimento.
- Esconder-se entre civis transforma a população em escudo e em palco: é crueldade calculada.
- Nenhuma causa ganha dignidade ao somar cadáveres do próprio povo.
- Quem normaliza a barbárie com slogans troca ética por propaganda — e chama-lhe "consciência".
A Causa que Devorou o Povo
Há dias em que a História parece escrita por um comediante cruel: o palco arde, os actores gritam, e o público aplaude como se a própria desgraça fosse um espectáculo de domingo. Mas não é. Quando um movimento armado recusa desarmar em nome do "seu povo", não está a proteger ninguém. Está a escolher, com frieza, que o sofrimento continue — porque o sofrimento rende. Rende manchetes. Rende fotografias. Rende recrutas. Rende chantagem moral.
E aqui começa o ponto insuportável: a recusa do desarmamento, quando acompanhada do esconderijo entre civis, não é "resistência". É um método. É transformar crianças, hospitais, ruas e casas em adereços de guerra. É fazer do povo a barricada e do cadáver a prova. Não se trata de coragem: trata-se de logística da crueldade.
O escudo humano como ideologia
Há quem diga: "Mas eles não têm alternativa." A frase soa bem. É curta. Cabe num cartaz. E é precisamente por isso que é perigosa. Porque a alternativa existe sempre: poupar os civis. Recusar usar o povo como trincheira. E, sobretudo, reconhecer que os fins não justificam os meios — ainda menos quando os meios são a contabilidade de sangue do próprio povo.
A verdade é mais amarga: quando a guerra precisa que os civis morram para a causa "viver", então a causa já morreu por dentro. E a partir daí, o discurso vira necrologia com música de fundo.
O altar da narrativa e os sacerdotes do cómodo
Depois aparecem os comentadores — e não falo de pessoas, falo de um tipo humano: o devoto da simplificação. Gente que nunca pisou o pó das ruínas, mas pisa com entusiasmo a tecla das certezas. Constroem narrativas onde a moral é um poster e a realidade é um incómodo a evitar. O horror torna-se "contexto", e o uso de civis como escudo vira "complexidade". Tudo cabe numa frase, excepto a responsabilidade.
É aqui que a ironia se transforma em faca: há discursos que, sem disparar uma arma, ajudam a mantê-la carregada. Não por conspiração, mas por preguiça moral. Por vaidade. Por esse luxo moderno de falar em nome dos oprimidos sem pagar o preço do que se defende. Aplaudem-se "causas" como quem colecciona símbolos — e depois admiram-se que o sangue não pare de correr.
A crueldade maior: prometer salvação e entregar ruína
O cúmulo da perversidade é este: dizer que se luta "pelo povo" enquanto se prolonga a guerra que o destrói. É martirizar um povo duas vezes — no terreno e no significado. E quando a morte do civil se torna instrumento de legitimidade, já não estamos perante política: estamos perante uma máquina de sacrifício.
Se há uma exigência mínima para qualquer voz pública — seja de que quadrante for — é esta: condenar, sem hesitações, o uso de civis como escudo, a celebração da morte como propaganda, e a recusa do desarmamento quando ele é condição para quebrar o ciclo. Não é "tomar partido": é tomar o partido da humanidade, esse velho hábito em vias de extinção.
Epílogo: quando o povo vira moeda
Há movimentos que não querem a liberdade do povo; querem o povo como moeda. E há discursos que não querem a verdade; querem o aplauso. Entre uns e outros, sobra sempre o mesmo: ruínas, luto, e uma geração inteira a aprender que a vida vale menos do que um slogan.
O mundo pode continuar a fingir que isto é apenas "geopolítica". Mas para quem está debaixo dos escombros, é apenas uma pergunta simples: quem é que lucra quando a paz não chega?
Co-autoria editorial: Augustus Veritas