BOX DE FACTOS
  • Narrativa útil: "os pobres não querem trabalhar" funciona como absolvição das elites e condenação dos fracos.
  • Moral selectiva: exige-se heroísmo a quem parte do zero, mas oferece-se compreensão a quem falha a partir do topo.
  • Metáfora brutal: pedir ao pobre "o mesmo desempenho" é pôr uma tartaruga a correr 100 metros contra um coelho.
  • Estado repressivo: a "ordem" serve frequentemente como seguro patrimonial do privilégio.
  • Questão central: as leis são justas… ou apenas convenientes para quem manda?

A Caridadezinha dos Ricos e a Teoria Abjecta do «Vão Trabalhar»

Há frases que não são opinião: são chicote. "Vão trabalhar" é uma delas — sobretudo quando sai da boca de quem nunca correu descalço na estrada do mês.

I. A frase mais curta do privilégio

A teoria é simples, elegantíssima, e tem a vantagem de caber numa frase: "os pobres não querem trabalhar". É uma teoria tão cómoda que devia vir com manual de instruções e garantia vitalícia: basta repeti-la, e a desigualdade deixa de ser um problema estrutural para passar a ser um defeito moral dos outros.

O rico dorme melhor quando transforma o sofrimento alheio numa falha de carácter. É um truque antigo: se a pobreza é preguiça, então a riqueza é virtude. Se o pobre é "malandro", o privilegiado é "merecedor". E fica tudo arrumado como sala de estar antes da visita do padre.

O mais fascinante é a segurança com que esta frase é dita. Não é uma hipótese, não é um estudo, não é uma dúvida: é um decreto moral, proferido do alto de um estatuto que se auto-atribui como "normalidade". O pobre não é um cidadão em dificuldade; é um suspeito.

II. A corrida entre a tartaruga e o coelho

Exigir ao miserável o mesmo desempenho de quem nasceu com rede é como pôr uma tartaruga a correr 100 metros contra um coelho, e depois chamar "falta de esforço" ao inevitável. Mas a sociedade adora este tipo de competições: começam sempre com uns quilómetros de vantagem escondidos no berço.

Para alguns, o fracasso é "experiência". Para outros, é "culpa". Para uns, a queda é "recomeço". Para outros, é "prova de que nunca deviam ter saído do lugar". A moral dominante é uma balança viciada: pesa com chumbo nos bolsos do pobre e com algodão nos bolsos do rico.

E, no entanto, a realidade é teimosa: há quem trabalhe até estoirar e continue pobre. Há quem trabalhe com dois empregos e continue a escolher entre renda e comida. Há quem se mate a fazer turnos e continue a ser tratado como peça substituível. Mas isto dá trabalho a reconhecer — e o privilégio, como se sabe, tem alergia ao reconhecimento.

III. A caridadezinha como coleira dourada

Depois vem a outra parte do teatro: a caridadezinha.A caridadezinha não resolve, não liberta, não corrige o sistema — apenas mantém o pobre numa posição agradável ao olhar do benemérito: grato, humilde, silencioso. É uma coleira dourada: brilha, mas prende.

O mais perverso é quando a caridade substitui direitos. Quando a esmola tenta ocupar o lugar da justiça. Quando a compaixão episódica se apresenta como política pública. A caridade é um gesto; a justiça é um dever. E um país que troca dever por gesto acaba por transformar a dignidade num favor.

IV. A polícia como seguro patrimonial

E então chegamos à pergunta que faz estremecer os salões: e se os sistemas repressivos fossem pagos só por quem mais tem? Calma. Respire. Não é um apelo ao caos. É apenas um espelho.

Porque há uma verdade que se evita dizer em voz alta: uma parte significativa da "ordem" numa sociedade desigual funciona como seguro patrimonial. Quanto mais se concentra em cima, mais se policia em baixo. Quanto mais se aperta o povo, mais se reforça o cadeado. E depois chamam "segurança" ao que muitas vezes é apenas o guarda-costas do privilégio.

Claro que a segurança é um bem público. Mas a desigualdade converte-a em negócio moral: paga-se para manter a paz — e chama-se paz à ausência de revolta. É aqui que a ironia se torna amarga: quem mais exige "lei e ordem" é, tantas vezes, quem mais beneficia da desordem social que a desigualdade produz.

V. A lei da oferta e da procura (quando convém)

Fala-se muito de "lei da oferta e da procura" como se fosse mandamento sagrado. Mas há um detalhe curioso: só é sagrado quando serve a classe dominante. Quando a procura é por salários dignos, chamam-lhe "irrealismo". Quando a procura é por habitação acessível, chamam-lhe "mercado". Quando a procura é por justiça fiscal, chamam-lhe "inveja".

A economia, assim, vira catecismo: cita-se para calar. E o pobre volta a ser culpado, não por ser pobre, mas por ousar existir sem pedir desculpa. "Vão trabalhar", dizem. Como se a miséria fosse um passatempo. Como se a sobrevivência fosse uma preguiça. Como se a fome fosse falta de ambição.

VI. O que falta não é trabalho. É justiça.

O problema não é o povo não querer trabalhar. O problema é o povo trabalhar e não conseguir viver. O problema é o esforço não ter retorno. O problema é a escada social estar partida — e ainda assim pedirem ao pobre que "suba".

Uma sociedade que culpa os pobres para desculpar os ricos não é apenas injusta: é instável. E uma democracia que troca justiça por moralismo torna-se, lentamente, num espectáculo de sermões sem pão. A pobreza não é pecado. A indiferença, sim.

Epílogo: a pergunta que não querem ouvir

A teoria abjecta cai por terra com uma pergunta simples: se fosse o teu filho a partir do zero, dirias o mesmo? Se fosse a tua mãe a escolher entre medicamentos e renda, repetias a frase com o mesmo orgulho? Se fosses tu a correr descalço, chamavas "preguiça" ao cansaço?

A verdade é esta: "vão trabalhar" é uma frase de quem não quer ver. E não ver é o primeiro passo para deixar de ser humano. Um país que desaprende a ver, desaprende a ter futuro.

Francisco Gonçalves
Crónica para o Fragmentos do Caos — co-autoria editorial com Augustus Veritas.

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