A Burrice Nacional e a Protecção dos Burros — um património imaterial com escolta

- Estado da arte: a burrice deixou de ser falha humana — passou a ser perfil funcional.
- Ecossistema: o burro não sobe sozinho; sobe em bando, com madrinhas e padrinhos.
- Regra de ouro: quem pensa incomoda; quem não pensa tranquiliza.
- Protecção: a mediocridade tem guarda de honra, regulamento interno e linguagem inclusiva.
- Objectivo implícito: manter tudo igual, com muito "plano", muita "estratégia" e zero consequências.
A Burrice Nacional e a Protecção dos Burros
Dizia-se antigamente: "não há parvo que não tenha sorte". Hoje, modernizámos o provérbio: não há burro que não tenha protecção. A sorte deu lugar ao sistema. A sorte era caótica; o sistema é organizado, persistente e, sobretudo, muito bem reunido.
A burrice nacional não é um acaso meteorológico. É uma política de continuidade. Não cai do céu — vem em PDF, com capa institucional, logótipo, assinatura digital e um título em letra grande: "Plano Estratégico para a Transformação da Transformação".
1) A burrice como carreira e a inteligência como ameaça
Em Portugal, ser inteligente dá trabalho. Ser competente dá chatices. Ter espírito crítico dá inimigos. Já ser burro... é um descanso. E o descanso, como sabemos, é um dos grandes objectivos nacionais — logo a seguir ao subsídio e à fotografia.
A inteligência tem um defeito grave: faz perguntas, incomoda, concretiza objectivos. A burrice, pelo contrário, é pacificadora: aceita tudo, repete tudo, assina tudo. E quando alguém pergunta "porquê?", o burro institucional reage como um alarme de incêndio numa biblioteca: muito barulho, zero leitura.
2) O mecanismo de selecção: o concurso de "não-incomodar"
Existe uma regra silenciosa na ascensão aos cargos: não seres o tipo de pessoa que estraga a paz. A paz, aqui, é entendida como ausência de pensamento. Normalmente caracterizada também como a "paz dos cemitérios". Quem pensa cria fricção. Quem pensa vê falhas. Quem pensa faz contas. E contas, meu amigo, são a kryptonite de qualquer narrativa oficial.
Assim se escolhe o "líder ideal": não precisa de saber, basta parecer. Não precisa de resolver, basta anunciar. Não precisa de compreender, basta "alinhar" — palavra mágica que significa "concordar sem perceber".
3) A protecção dos burros: um sistema de segurança nacional
O burro em cargo não está sozinho. Ele vem com ecossistema: assessores, consultores, comissões, subcomissões e, claro, uma equipa de comunicação que traduz a realidade para "linguagem de projecto".
Se uma decisão falha, não falha: "foi um desafio". Se um plano naufraga, não naufraga: "foi uma aprendizagem". Se um serviço colapsa, não colapsa: "está em reestruturação". Se nada acontece, não é nada: "estamos a monitorizar".
A protecção suprema chama-se impunidade semântica: mudam-se as palavras para que a realidade pareça mal-educada por insistir em existir. A realidade torna-se "percepção". O erro vira "processo". A incompetência transforma-se em "complexidade".
4) O "burro útil": obediente, confortável, reciclável
Há um tipo de burro especialmente apreciado: o burro útil. Não cria ideias, mas cria reuniões. Não constrói soluções, mas constrói justificações. Não lê, mas cita "estudos" (sem os ter aberto). Não decide, mas "articula".
O burro útil é reciclável: pode passar da administração para a comissão, da comissão para o conselho, do conselho para a direcção, e da direcção para a "missão". É uma espécie de economia circular da mediocridade: nada se perde, tudo se empurra.
5) O drama secreto: os burros têm medo dos que pensam
O burro não odeia a inteligência por maldade. Odeia por sobrevivência. A inteligência é um espelho. E o burro institucional não suporta espelhos: prefere vidros foscos, relatórios longos e apresentações com setas.
Por isso, quando aparece alguém competente, acontece o ritual: primeiro ignoram; depois desacreditam; em seguida isolam; por fim, convidam para uma comissão (o equivalente administrativo de sedar a lucidez).
6) Manual rápido de protecção dos burros (com ironia, mas não muita)
- Promover os inofensivos: quem não questiona, não ameaça.
- Premiar a fala vazia: "visão", "resiliência", "sinergias" — quanto menos conteúdo, mais carreira.
- Castigar a clareza: quem explica simples demais é suspeito de ter entendido.
- Adiar sempre: o futuro resolve o que o presente exige coragem.
- Neutralizar os competentes: dar-lhes reuniões até perderem a vontade de existir.
Epílogo: a burrice é resistente, mas não é invencível
A burrice nacional parece indestrutível porque está bem instalada — como o bolor em casa húmida. O bolor não é sinal de força; é sinal de condições perfeitas para ele prosperar.
A cura não é gritar "há burros!" — isso toda a gente sabe. A cura é mudar o ambiente: responsabilizar, medir resultados, exigir transparência, premiar competência e, sobretudo, voltar a tratar a inteligência como virtude cívica e não como defeito de personalidade.
Quando isso acontecer — se acontecer — o burro protegido ficará finalmente exposto ao seu maior predador: a realidade. E a realidade, ao contrário dos relatórios, não aceita anexos nem "adiamentos".
crónica pessoal e sátira, mantendo responsabilidade humana pelo juízo e pela intenção.