BOX DE FACTOS
  • O escândalo é o produto; a consequência é o detalhe.
  • O poder local decide licenças, obras, ajustes e favores — e atrai redes.
  • O cidadão paga duas vezes: em impostos e no custo invisível da resignação.
  • Redes não têm cor: atravessam partidos, interesses e décadas.
  • Transparência não é moralismo — é engenharia cívica.

Isto é Portugal: O Escândalo em Manchete, a Consequência em Rodapé

Há países onde a lei é um chão. E há países onde a lei é uma carpete: levanta-se a ponta, varre-se para baixo, endireita-se a franja… e segue-se.

Vemos a capa, vemos as letras enormes, vemos o "EXCLUSIVO" como selo de urgência moral — e quase ouvimos o país a suspirar: "lá vem mais uma". Portugal habituou-se ao escândalo como quem se habitua ao bolor: primeiro incomoda, depois normaliza, por fim decora.

O drama não é apenas o que possa estar por trás de cada caso. O drama é o padrão. É a repetição do guião, a liturgia do costume, a coreografia do "indícios", do "suspeitas", do "investigado". Uma novela sem último episódio — porque o último episódio, aqui, chama-se quase sempre nada.

O poder local como condomínio

A câmara e a junta não são só "instituições". São torneiras. E onde há torneiras, há quem venda baldes, quem alugue mangueiras, quem prometa água a troco de silêncio. Urbanismo, licenças, obras, ajustes, projectos, pareceres: o quotidiano administrativo é terreno fértil para redes, porque o cidadão comum vive à espera do carimbo como quem vive à espera de chuva.

E quando a chuva cai, não cai para todos. Cai para quem tem guarda-chuva por dentro. O problema não é apenas roubar — é capturar. Capturar decisões, capturar tempo, capturar prioridade, capturar a noção de que "isto só anda com alguém lá dentro".

O cidadão paga duas vezes

Paga impostos, e depois paga o imposto invisível: o atraso, a fila, a papelada, a obra mal feita, o serviço degradado, o favor que não se diz, mas se pressente, a sensação de que a honestidade é uma deficiência no currículo.

E assim se cria a perversidade máxima: as pessoas deixam de exigir justiça — passam a exigir apenas que não lhes façam perder tempo. Troca-se cidadania por sobrevivência. Troca-se futuro por "desenrascanço".

A rede adora tribalismo

Quando um caso é engolido pela guerra de camisolas — "os meus" contra "os teus" — a rede sorri. Porque a rede não vive de ideologia: vive de acesso. Hoje veste uma cor, amanhã outra, depois diz que sempre foi "técnica", "consultora", "independente". O partido é apenas a porta; a rede é o corredor.

Transparência não é moralismo — é engenharia

O que corta as redes não é indignação em estado puro. É método. É contratos publicados como deve ser, critérios claros, actas completas, auditorias que não sejam teatro, incompatibilidades a sério, rastreabilidade de decisões, e um Estado digital que não seja apenas um balcão electrónico para a mesma velha opacidade.

E sobretudo: consequências. Porque sem consequência, a lei vira decoração. E o país vira um palco onde a ética é figurante.

Epílogo: quando o escândalo deixa de chocar

O escândalo, em Portugal, tornou-se manchete. A consequência, rodapé. E quando o rodapé desaparece, o país começa a andar de cabeça baixa — não por humildade, mas por cansaço.

Ainda assim, há uma esperança teimosa: a esperança dos que não aceitam o "é assim". Porque um país não se salva com heróis ocasionais — salva-se com cidadãos persistentes. E a persistência é a forma mais elegante de revolução.

Francisco Gonçalves
Co-autoria: Augustus Veritas (IA) — Fragmentos do Caos News Team
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