Que país e que Europa temos, 40 anos depois da adesão?

- Tratado assinado: 12 de Junho de 1985 (Jerónimos). Adesão efectiva: 1 de Janeiro de 1986. (Portugal2030)
- Convergência (PPC): Portugal em 82% da média UE em 2024 (Eurostat via GEE). Em 2000 chegou a ~85% e depois perdeu fôlego. (GEE / Eurostat; Mais Liberdade)
- Fundos europeus: estimativas apontam para cerca de 167 mil milhões € em quatro décadas (Eco, especial 2025).
- Percepção pública: Comissão Europeia em Portugal refere 91% dos portugueses a concordarem que o país beneficiou da adesão. (Representação da CE)
- O dilema: infraestrutura e modernização avançaram; produtividade, salários e estrutura produtiva ficaram aquém.
Que País e Que Europa Temos, Quarenta Anos Depois da Adesão? Expectativas cumpridas… ou apenas adiantadas?
1) O que a adesão mudou (e mudou mesmo)
Há uma tentação portuguesa de cuspir no prato e dizer que "nada serviu". É falsa. A adesão à CEE/UE foi uma alavanca civilizacional: normalizou regras, abriu mercados, trouxe financiamento, acelerou infra-estruturas, e ajudou a consolidar o regime democrático e o Estado de direito.
Não é poesia — é balanço material: estradas, saneamento, redes, escolas, modernização administrativa, mobilidade. E também liberdade prática: estudar, trabalhar e circular numa escala continental. Mesmo quem critica a UE (às vezes com razão) vive, diariamente, dentro desta realidade.
2) O que não mudou: a economia que não aprendeu a crescer por dentro
Aqui começa a factura. Em paridade de poder de compra, Portugal continua abaixo da média: em 2024, o PIB per capita ficou em 82% da média UE. (Eurostat via GEE) Sim, estamos melhor do que em 1986 — mas a promessa implícita era outra: convergir, aproximar-nos do centro.
E há um dado que dói como pedra no sapato: Portugal terá tocado cerca de 85% da média UE por volta de 2000 e depois estagnou/recuperou pouco, ficando novamente em torno de 82%. (análises com base em Eurostat) Ou seja: houve década(s) em que a Europa avançou e nós ficámos a discutir o rodapé do PowerPoint.
3) Fundos europeus: instrumento — não destino
Os fundos foram reais e gigantescos. Um especial de imprensa económica estima cerca de 167 mil milhões € recebidos em quatro décadas. (Eco, 2025) Mas fundos são martelo: tanto servem para construir uma casa como para partir a mesa. O problema português não foi "ter fundos". Foi, demasiadas vezes, ter fundos sem estratégia.
Fizemos o mais fácil e visível: obra, betão, inauguração, fotografia. Fizemos menos do que paga juros no futuro: produtividade, ciência aplicada, tecnologia exportável, escala industrial, gestão profissional, competição real sem muletas estatais.
4) A Europa também mudou: do sonho de convergência ao tempo das crises
A Europa que nos recebeu era uma máquina de crescimento e confiança. A Europa que hoje habitamos é uma entidade em modo "sobrevivência inteligente": crise financeira, austeridade, pandemia, guerra, energia, reindustrialização, dependências estratégicas, e agora a corrida tecnológica global.
Mesmo assim, o europeísmo português resiste — até a austeridade da troika não o quebrou por completo, como notou um grande jornal europeu, apontando níveis altos de apoio popular à pertença. (El País) A questão é: apoio não é prosperidade. Apoiar a UE é racional; mas isso não substitui a obrigação de fazer do país um motor.
5) Então… as expectativas foram cumpridas?
Sim, se a expectativa era sair do atraso estrutural, estabilizar a democracia e modernizar condições de vida. A própria Representação da Comissão Europeia em Portugal cita 91% dos portugueses a reconhecerem benefícios. (Representação da CE)
Não, se a expectativa era convergir de forma sustentada e transformar o modelo produtivo. O número "82% da média UE" é um lembrete de que fomos excelentes a construir meios, mas medianos a construir fins.
6) O futuro: três bifurcações e uma escolha moral
Primeira bifurcação: Europa potência ou Europa museu. Se a UE acelerar integração, mercado único real e investimento estratégico, ganha escala e produtividade. Se hesitar, fica a ver o século passar — e a pagar a conta em dependência tecnológica. (debates citados por FMI na imprensa)
Segunda bifurcação: Portugal laboratório ou Portugal estância. Ou usamos a UE para construir capacidade produtiva (tecnologia, indústria, energia, ciência aplicada), ou ficamos no modelo "serviços + baixo valor + salários curtos + jovens fora".
Terceira bifurcação: Estado estratega ou Estado cliente. O Estado pode orientar, exigir resultados, medir impacto, premiar competência. Ou pode continuar a confundir política pública com distribuição de rendas.
E aqui está a escolha moral: uma Europa pode dar-nos estrada, mas não dá;vontade. A adesão trouxe possibilidades; a História cobra-nos, agora, carácter e projecto.
Referências (para factos e números)
- Representação da Comissão Europeia em Portugal — "Portugal celebra 40 anos na União Europeia" (inclui referência a 91%): https://portugal.representation.ec.europa.eu/news/portugal-celebra-40-anos-na-uniao-europeia-2026-01-01_pt
- GEE — "PIB per capita (Eurostat)" (Portugal 82% em 2024): https://www.gee.gov.pt/pt/indicadores-diarios/ultimos-indicadores/34283-pib-per-capita-eurostat-5
- Eurostat — tabela "GDP per capita in PPS (EU=100)": https://ec.europa.eu/eurostat/databrowser/view/tec00114/default/table?lang=en
- Eco — "Como os fundos europeus mudaram Portugal…" (estimativa 167 mil milhões €): https://eco.sapo.pt/especiais/como-os-fundos-europeus-mudaram-portugal-nos-ultimos-40-anos/
- Portugal 2030 — nota institucional sobre 40 anos da adesão: https://portugal2030.pt/2025/06/12/40-anos-da-adesao-de-portugal-a-ue/
- El País — análise sobre europeísmo português (contexto troika e apoio popular): https://elpais.com/internacional/2025-06-12/portugal-40-anos-de-europeismo-que-ni-siquiera-quebro-la-austeridad-de-la-troika.html