BOX DE FACTOS

  • A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, apresentada pelo governo Trump, descreve a Europa como um continente em "apagamento civilizacional" e propõe apoiar "partidos patrióticos europeus" — código transparente para forças nacionalistas e de extrema-direita. 0
  • Trump tem atacado publicamente os líderes europeus como "fracos" e a Europa como um bloco "em decadência", alimentando a ideia de que a União Europeia é um obstáculo à sua visão do mundo. 1
  • A UE multou recentemente a plataforma X, de Elon Musk, em 120 milhões de euros por violação do Digital Services Act, após uma investigação sobre desinformação, verificação paga e falta de transparência. 2
  • Em resposta, Musk declarou que a União Europeia deveria ser "abolida" e que a soberania devia regressar a cada país, atacando frontalmente a própria ideia de projecto comum europeu. 3
  • Analistas alertam que o trumpismo 2.0 e o activismo político de Musk funcionam como multiplicadores globais da extrema-direita, pressionando o espaço democrático europeu por fora e por dentro. 4

Trump, Musk e a Guerra Suja pela Alma da Europa

A Europa acordou e deu por si a viver num guião que não escreveu: um presidente norte-americano a incentivar partidos extremistas dentro das suas fronteiras e um bilionário tecnológico a exigir que a União Europeia seja abolida. Não é diplomacia, nem debate sobre modelos económicos. É uma guerra política aberta pela alma do velho continente.

Quando a Casa Branca decide brincar ao incendiário

Durante décadas, mesmo com divergências, havia uma espécie de pacto não escrito: os Estados Unidos não anunciavam, de forma explícita, que iam meter as mãos na massa da política interna europeia. Podiam influenciar discretamente, pressionar bastidores, escolher favoritos — mas não diziam, à frente do mundo, que queriam apoiar determinados partidos contra outros.

Esse pudor acabou. A nova Estratégia de Segurança Nacional, saída da Casa Branca de Trump, fala de uma Europa em "apagamento civilizacional" e defende o apoio a "partidos patrióticos" que defendam a "verdadeira identidade ocidental". É a linguagem codificada da extrema-direita global, agora impressa em papel timbrado de Washington. 5

Ao mesmo tempo, o próprio Trump faz aquilo que melhor sabe: insultar. Chama aos líderes europeus "fracos", acusa-os de estarem a destruir os seus países, ridiculariza a União Europeia como um bloco "em decadência". Não é apenas grosseria; é uma estratégia deliberada de deslegitimação. Quando o líder da maior potência militar do planeta repete que a Europa é fraca, oferece munições retóricas gratuitas a todos os partidos que sonham desmontar o projecto europeu por dentro. 6

MAGA 2.0: exportar o caos como modelo de negócio

O trumpismo nunca foi apenas política interna americana. É uma internacional reaccionária, um franchising ideológico que exporta medo, ressentimento e nacionalismo agressivo para qualquer lugar onde encontre terreno fértil. A nova doutrina de segurança funciona como manual: Europa vista como ameaça cultural, elogios a governos iliberais, silêncio cúmplice perante o autoritarismo russo quando este enfraquece o bloco europeu. 7

O objectivo é simples: transformar a União Europeia de parceiro relativamente previsível em mosaico de pequenos regimes nacionalistas, frágeis, divididos e dependentes. Uma Europa fragmentada é uma Europa mais barata para comprar, mais fácil de chantagear, mais simples de pôr a disputar migalhas em vez de afirmar uma voz própria no mundo.

Os partidos radicais do continente perceberam rapidamente a oportunidade. Muitos sentem-se legitimados, outros ensaiam um equilíbrio hipócrita: afastam-se das formulações mais cruas de Trump, com medo do eleitorado moderado, mas bebem da mesma fonte de slogans simplistas, ódio à diversidade e nostalgia de um passado que nunca existiu. 8

Enquanto isso, o bufão tecnológico grita "abolir a UE"

Do outro lado deste teatro, Elon Musk interpreta o papel do bufão perigoso — aquele que faz piadas para distrair, enquanto testa os limites do sistema. Ao ser confrontado com uma multa de 120 milhões de euros por violar regras europeias de transparência e combate à desinformação na plataforma X, não respondeu com argumentos jurídicos. Respondeu com um ataque político: a União Europeia, diz ele, devia ser "abolida". 9

Musk trata a UE como um obstáculo abusivo ao seu fetiche de "liberdade total", uma liberdade sempre selectiva: vale para contas anónimas que espalham ódio e mentira em escala industrial, mas não vale para jornalistas, reguladores ou investigadores que queiram saber como funcionam os algoritmos que amplificam esse caos. Quando Bruxelas aplica o Digital Services Act, ele não vê um esforço para proteger cidadãos europeus. Vê um ataque pessoal ao seu império digital, um atrevimento de burocratas que ousam dizer-lhe: "Aqui também há regras." 10

Por isso, o discurso sobe de tom: a UE é "monstro burocrático", a soberania deve regressar a cada país isolado, como se a única forma de liberdade fosse regressar ao século XIX, com pequenos Estados atomizados, frágeis perante as grandes plataformas privadas e as potências militares de sempre. Curiosamente, esta visão casa na perfeição com o sonho de Trump: uma Europa partida em pedaços, a disputar favores de bilionários e presidentes caprichosos.

Guerra híbrida: quando os algoritmos fazem de exército

A ofensiva contra a coesão europeia não se faz com tanques nas fronteiras, mas com mensagens virais, campanhas de desinformação, bots disciplinados e amplificadores humanos prontos a repetir as linhas mestras: "Bruxelas oprime", "a UE mata a soberania", "o globalismo rouba a identidade". As fronteiras não são geográficas, são cognitivas.

Plataformas como o X tornaram-se campos de batalha invisíveis, onde actores estatais e não-estatais experimentam armas de propaganda em tempo real. A Rússia sabe-o, a extrema-direita europeia sabe-o, Trump e Musk sabem-no. A diferença é que, agora, parte desse ataque é promovido às claras, com comunicados oficiais de Washington e publicações públicas do próprio dono da plataforma, que já compara abertamente a UE a regimes totalitários para alimentar o ressentimento. 11

No meio disto, os europeus comuns — aqueles que ainda tentam viver, pagar contas e votar com alguma lucidez — são bombardeados com narrativas contraditórias: ou aceitam a total impunidade das plataformas e dos bilionários, ou são chamados de "censores", "inimigos da liberdade", "lacaios do globalismo". A discussão séria sobre regulação democrática do espaço digital é substituída por um conflito religioso entre "livre expressão absolutista" e "ditadura woke".

Uma Europa distraída entre o medo e a rotina

A União Europeia, como sempre, reage em câmara lenta. Há comissários corajosos, académicos vigilantes, alguns ministros lúcidos, mas falta o gesto político firme que diga, de forma simples: "Não aceitamos que a nossa ordem democrática seja reescrita por um presidente estrangeiro e por um magnata das plataformas." A resposta resume-se, demasiadas vezes, a tecnicismos regulatórios e conferências discretas.

Entretanto, os cidadãos olham para este xadrez com uma mistura de cansaço e descrença. Muitos não se revêem nem no trumpismo agressivo, nem na burocracia tímida de Bruxelas. Entre a demagogia e o cinzento, cresce a tentação de desistir, de se afastar da política, de achar que é tudo o mesmo teatro. É precisamente nesse deserto de esperança que as forças autoritárias prosperam.

Europa, acordar ou tornar-se cenário

A questão, no fundo, é brutal na sua simplicidade: a Europa quer ser sujeito histórico ou apenas cenário de uma guerra travada entre impérios e bilionários? Um continente que aceita que a sua opinião pública seja moldada por estratégias de outros — Washington, Moscovo, Pequim, Silicon Valley — está a renunciar ao direito de desenhar o seu próprio futuro.

A resposta não virá de mais comunicados mornos, mas de escolhas difíceis: fortalecer a integração política e militar, proteger com seriedade o espaço digital comum, blindar o financiamento dos partidos contra dinheiro obscuro, enfrentar a extrema-direita não com imitação tímida, mas com alternativas claras de justiça social, liberdade e dignidade humana.

Trump e Musk são sintomas exacerbados de uma doença mais antiga: a facilidade com que vendemos a nossa autonomia por um punhado de promessas falsas e entretenimento tóxico. Eles passam; a questão é saber se, quando a poeira assentar, ainda existirá uma Europa capaz de olhar ao espelho e reconhecer-se como comunidade de cidadãos livres — ou apenas uma colecção de países exaustos, a servir de palco à próxima temporada do circo geopolítico.

A alma da Europa não está em Bruxelas nem em Washington, está nas escolhas quotidianas dos seus povos. Ou se escolhe a lucidez, ou se aceita o destino de figurante útil no reality-show dos canalhas.

Escrito em co-autoria por Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen, na resistência lírica contra o teatro global onde a democracia é tratada como adereço descartável.
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