Sejam Ronaldos? Não. Sejam Governantes

- Mais de um ano de governação com serviços públicos em degradação visível.
- Saúde, justiça, educação e habitação em estado de falência funcional.
- Muitas Dezenas de Milhões de euros portugueses estacionados em paraísos fiscais.
- Discurso de Natal substitui reformas estruturais por metáforas futebolísticas.
Sejam Ronaldos? Não. Sejam Governantes.
No discurso de Natal, o primeiro-ministro decidiu falar ao país como quem fala a um balneário: pediu aos portugueses que se tornassem Ronaldos. Que treinassem mais, que se esforçassem mais, que alcançassem sucesso.
A metáfora é reveladora — e devastadora. Porque quando um governante troca políticas por moralismos patéticos, está a fazer uma confissão pública de impotência e incapacidade de governar. Confessa, "Não sei mais".
A culpa deslocada
A mensagem implícita é simples: se o país não funciona, é porque o povo não se esforça o suficiente. Não é o sistema. Não são as políticas. Não são as décadas de reformas adiadas por incapacidade e incompetência dos sucessivos governos do PS e PSD. São os cidadãos — preguiçosos, pouco ambiciosos, pouco resilientes.
É a velha técnica do poder fraco: culpar os governados pelo fracasso dos governantes.
Ronaldo não é política pública
Cristiano Ronaldo não é um modelo replicável. É uma excepção estatística. Um outlier biológico, psicológico e circunstancial. Governar um país como se todos pudessem ser Ronaldos é como desenhar um sistema de saúde baseado em milagres.
Um país sério não pede heróis. Constrói instituições que funcionam mesmo quando as pessoas estão cansadas, doentes ou desmotivadas.
O que um governante devia dizer — e não diz
Um governante responsável teria usado o Natal para dizer:
- vamos reformar o Estado, doa a quem doer, e custe o que custar;
- vamos acabar com os privilégios instalados;
- vamos trazer de volta o dinheiro que foge ao fisco;
- vamos investir na economia produtiva, não no verniz estatístico;
- vamos exigir mais a quem manda, pedir-lhes responsabilidades, não apenas a quem obedece.
Mas isso exigiria coragem política. E coragem não se improvisa num discurso. Ou se tem ou não!
Futebol como ópio cívico
Em Portugal, o futebol é frequentemente usado como anestesia social. Quando faltam ideias, puxa-se pelo orgulho desportivo. Quando faltam reformas e coragem para as empreender, pede-se garra. Quando o sistema falha, exige-se sacrifício.
É cómodo. É barato. E é profundamente irresponsável por quem diz governar um país.
Já que estamos em maré de metáforas "chamemos os bois pelos nomes"
Não, senhor primeiro-ministro. O problema de Portugal não é falta de esforço. É excesso de incompetência instalada no governo, no Estado e nas Elites corruptas.
Não faltam trabalhadores dedicados. Faltam políticas sérias. Não falta sacrifício ao povo. Falta responsabilidade e sentido de Estado a quem governa.
Pedir que o povo seja Ronaldo enquanto o Estado joga na distrital é insultuoso, Sr. Primeiro-Ministro.
Um governo que pede heróis ao povo é um governo que desistiu de governar, por total impreparação ou manifesta incompetência.
Fragmentos do Caos
Co-autoria crítica e investigação : Augustus Veritas