PS e PSD: 51 anos para aprender nada

- 51 anos de "democracia" marcada pela alternância PS/PSD.
- Desconfiança estrutural dos cidadãos em relação aos partidos do regime.
- Percepção generalizada de corrupção endémica e impunidade política.
- Demagogia como linguagem oficial: prometer muito, mudar pouco.
- Um país cansado de ser tratado como plateia e não como soberano.
PS e PSD: 51 anos para aprender nada
Um condomínio privado chamado "sistema"
Há muito que PS e PSD vivem num condomínio fechado de realidade paralela. Lá dentro trocam lugares, distribuem cargos, protegem uns aos outros, e chamam a isso estabilidade democrática. Cá fora, a vida real dos portugueses vai-se desfazendo em salários baixos, serviços públicos degradados e uma justiça que parece feita à medida de quem manda e nunca de quem é mandado.
Desde 1974 passaram 51 anos. O tempo suficiente para transformar um país. O tempo suficiente para perceber que uma democracia não é um palco para carreiras pessoais, mas um compromisso permanente com quem acorda cedo, apanha transportes cheios, paga impostos absurdos e ainda leva lições de moral de quem vive instalado nos gabinetes almofadados do regime.
O que eles ainda não perceberam
O PS e o PSD ainda não perceberam que a paciência colectiva se esgotou. Que os cidadãos já não comem a narrativa da inevitabilidade: "ou nós, ou o caos", "ou nós, ou os radicais". Como se eles não fossem, há cinco décadas, o caos suave e bem falante que foi corroendo a confiança nas instituições.
Não perceberam que a corrupção deixou de ser uma suspeita episódica para se tornar sensação permanente: negócios opacos, portas giratórias entre ministérios e conselhos de administração, concursos públicos com nome e apelido. Tudo legalmente ambíguo, moralmente obsceno.
Não perceberam que a demagogia perdeu prazo de validade. As frases feitas, os slogans luminosos, as promessas recicladas já não enganam quase ninguém. O povo reconhece o truque: primeiro promete-se o céu, depois oferece-se um vale-desconto para o inferno do costume.
Alternância não é alternativa
Durante décadas, venderam a ideia de que alternância é sinónimo de saúde democrática. Na prática, o que tivemos foi uma alternância de frustrações: ora PS para tapar os buracos do PSD, ora PSD para "corrigir os excessos" do PS, num vaivém que nunca questiona o essencial : quem manda realmente na economia, como se distribui a riqueza, que justiça queremos, que futuro estamos a construir.
Portugal tornou-se uma espécie de série de televisão barata: mudam os protagonistas, mas o argumento é sempre o mesmo. A cada temporada eleitoral, o país é convidado a escolher o próximo actor principal, mas nunca o realizador, nunca o argumento, nunca o dono do estúdio.
O povo já saiu da sala (mas eles não deram por isso)
O mais trágico é isto: os portugueses começaram, silenciosamente, a abandonar a sala. Não com revoluções, mas com abstenções; não com barricadas, mas com desistência; não com gritos, mas com um cansaço pesado que corrói qualquer sentido de pertença.
PS e PSD continuam a falar como se estivessem perante um país atento e confiante. Mas grande parte do país já não acredita, já não espera, já não confia. Sobrevive, adapta-se, emigra, resigna-se — e, quando vota, muitas vezes fá-lo mais por medo do pior do que por convicção no melhor.
O país possível e o país sequestrado
O que PS e PSD ainda não perceberam é que Portugal poderia ser um país extraordinário: com inteligência, talento, criatividade e recursos humanos capazes de o colocar na linha da frente da ciência,nda tecnologia, da cultura e da inovação social.
Mas em vez disso, mantêm o país sequestrado por um sistema de lealdades partidárias, carreirismos profissionais, fidelidades ao chefe, ao grupo económico, à tribo ideológica. Não governam para libertar as pessoas; governam para manter o mecanismo. A máquina é o verdadeiro partido. O resto são siglas.
Quando a História apresentar a factura
A História não é simpática com quem desperdiça oportunidades. Um dia, quando alguém olhar para estes 51 anos com a frieza que só a distância permite, talvez escreva algo simples e brutal: Portugal tinha tudo para ser mais — mas foi travado pela mediocridade organizada dos seus partidos dominantes.
Nessa altura, quando já não houver palco, talvez PS e PSD percebam finalmente o que hoje fingem não ouvir: que os portugueses estão fartos. Não apenas cansados deles,nmas cansados da ideia de que não há alternativa a eles.
E quando esse dia chegar, não será um gesto de ingratidão do povo. Será apenas a vida democrática a reclamar aquilo que sempre foi seu: o direito de mudar de actores, de guião e de teatro — para que o país deixe, finalmente, de ser plateia e passe a ser protagonista.
A verdadeira lição que PS e PSD ainda não aprenderam é esta: ninguém tem direito vitalício a governar um povo. Nem em nome da História, nem em nome da estabilidade, nem em nome do medo. Quando a dignidade acordar em voz colectiva, não haverá demagogia suficiente para calar o simples veredicto de quem já pagou todos os bilhetes basta.
Crónica editorial publicada em Fragmentos do Caos — Contra o Teatro da Mediocridade.