BOX DE FACTOS
  • O que é: "castração química" = medicação (anti-androgénios/SSRIs [ simples medicamento para a depressão ], conforme o caso) para reduzir impulsos e excitação problemática, idealmente com terapêutica e vigilância.
  • Europa (exemplos citados no debate público): há modelos de tratamento voluntário (p.ex., programas/pilotos no Reino Unido; enquadramentos terapêuticos noutros países) e um caso clássico de imposição pós-pena em Polónia (lei de 2009/2010).
  • Conselho da Europa (linha ética recorrente): medidas anti-libidinais devem ser, por regra, voluntárias, com avaliação médica e psiquiátrica rigorosa.
  • O perigo real: transformar um tema clínico e criminal num "slogan" punitivo — e depois descobrir tarde demais que o monstro não era só testosterona: era poder, controlo, sadismo e oportunidade.
  • O essencial: proteger a criança: prevenção, detecção precoce, investigação competente, condenação firme, e supervisão séria após a pena.

Predadores sexuais: a sociedade quer castigo — mas precisa de precisão

A raiva é compreensível. O instinto de protecção também. Mas a justiça não pode ser uma fogueira: tem de ser um farol — frio, exacto, implacável.

Há crimes que fazem a linguagem tropeçar. O abuso sexual de crianças é um deles. E quando falamos de reincidência, o coração pede atalhos: "acabem com isto de vez". É aqui que entra a ideia de castração química — esse termo que, por si só, já parece uma sentença, mas por pura ignorância ou desinformação.

O que a castração química é (e o que não é)

Em termos práticos, falamos de medicação que pode reduzir libido e certos impulsos, sobretudo em perfis específicos. Não é magia. Não é uma "cura" para a maldade. E, sobretudo, não é um substituto de: terapêutica estruturada, avaliação de risco, e vigilância séria.

Há ainda um ponto que raramente cabe nos discursos inflamados: nem todos os agressores actuam por "fome sexual". Muitos actuam por poder, por controlo, por violência — e aí a medicação pode ter efeito limitado. A sociedade gosta de soluções simples; os predadores, esses, adoram que o debate fique simples.

"Já existe na Europa?" Sim — mas a palavra-chave é como

O panorama europeu não é uma fotografia única. Há abordagens onde a medicação surge como intervenção terapêutica (em regra, voluntária), e há casos históricos em que se legislou em moldes mais coercivos. Mesmo quando aparece como "opção", convém perguntar: opção com liberdade real, ou "opção" com a pistola simbólica da pena a apontar?

E aqui entra a nota irónica, quase cruel: quando o Estado precisa de parecer forte, descobre sempre uma palavra cirúrgica. Quando precisa de ser competente, aí já dá mais trabalho: equipas forenses, psicologia criminal, investigação, tribunais a funcionar, reinserção com dentes.

A minha posição: punir com firmeza, tratar com ciência, vigiar sem ingenuidade

A minha opinião é simples, mas não é simplista:

  • Condenações firmes e proporcionais, sem relativismos morais nem romantismos sociológicos.
  • Protecção das vítimas como prioridade absoluta: apoio psicológico, protecção, reparação, e processos que não as revitimizem.
  • Tratamento especializado quando clinicamente indicado — preferencialmente voluntário, com critérios claros, auditoria clínica, e acompanhamento.
  • Supervisão pós-pena robusta: avaliação de risco contínua, proibições de contacto, vigilância adequada, e resposta rápida a sinais de recaída.
  • Sem "teatro de medidas": se a política quer proteger crianças, tem de financiar investigação criminal, perícias, e equipas de saúde mental forense.

A justiça não é vingança — mas também não é uma manta de lã

Há em Portugal, e principalmente entre os políticos, quem confunda humanidade com permissividade. Não são a mesma coisa. A sociedade deve ser intransigente na protecção de crianças — e, ao mesmo tempo, inteligente na forma de reduzir risco real.

Se a medicação, aplicada com rigor clínico, reduzir perigo em certos perfis, então é uma ferramenta — não um fetiche. Mas se for vendida como "botão OFF" da monstruosidade, vira propaganda: faz barulho, dá votos, e pode falhar onde não pode falhar.

Epílogo: o dever de não falhar

Uma criança não tem "segunda oportunidade" para recuperar uma infância intacta. O Estado, a Justiça, a comunidade — todos nós — temos. E a nossa obrigação é uma só: tirar a oportunidade ao predador, não com slogans, mas com rigor.

REFERÊNCIAS (para leitura)
  • Conselho da Europa / CPT (relatórios e posição crítica sobre castração cirúrgica e enquadramentos éticos): https://www.coe.int/en/web/cpt/
  • Relatório CPT sobre visita à Chéquia (2024; publicado 2025) – secções sobre castração: https://rm.coe.int/1680b4e6af
  • Polónia – debate e aprovação de lei (2009/2010) amplamente noticiada: https://www.economist.com/eastern-approaches/2010/06/10/no-sympathy
  • Reino Unido – expansão/pilotos de medicação para reduzir excitação problemática (2025): https://apnews.com/article/f881e71a7ce72a9b306578e0038ff99c
  • Recomendação/nota do Conselho da Europa sobre ofensores sexuais e voluntariedade em intervenções anti-libidinais: https://rm.coe.int/pc-cp-2019-3-e-rev-10-recommendation-on-sexual-offenders/16809f6682
Artigo de opinião de : Aletheia Veritas  —  com Augustus Veritas
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