BOX DE FACTOS
  • Portugal desindustrializou-se em poucas décadas, perdendo capacidade produtiva que levou gerações a construir.
  • Os sucessivos governos transformaram fundos europeus em anestesia temporária, em vez de investimento estruturante.
  • A economia assenta hoje em turismo, serviços de baixo valor acrescentado e esquemas de sobrevivência.
  • O país melhorou face ao pré-25 de Abril, mas continua pobre, endividado e sem projecto de futuro próprio.
  • Vivemos numa mistura de tragédia económica e comédia política, onde quase ninguém parece perceber o sítio a que chegámos.

Portugal: Tragédia em Três Actos (e Uma Gargalhada Amarga)

Portugal está hoje irreconhecível face ao país cinzento e pobre de antes do 25 de Abril. Tem mais estradas, mais casas, mais carros, mais centros comerciais, mais aeroportos, mais tudo. Mas falta-lhe o essencial: um projecto próprio de futuro. Entre a desindustrialização feliz, a dependência de fundos europeus e o vício do turismo fácil, tornámo-nos uma pequena tragédia mediterrânica com vocação de comédia provinciana.

I. Do país de operários ao país de empregados de balcão

Houve um tempo em que Portugal produzia coisas. Máquinas, têxteis, calçado, mobiliário, componentes, barcos, material eléctrico, metalomecânica pesada. Não era um paraíso industrial, mas havia chão: fábricas, oficinas, serralharias, pequenas e médias empresas que formavam operários, técnicos, engenheiros. Havia ruído de máquinas, cheiro a óleo, serrim, ferro quente. Havia um país que, com todos os defeitos, sabia que a riqueza começava no acto de produzir.

Em poucas décadas, esse país foi sendo desmontado peça a peça. Fábricas encerradas, parques industriais abandonados, máquinas vendidas ao quilo, saber acumulado de gerações atirado para o contentor da sucata histórica. Em muitos casos, nem sequer por inevitabilidade económica, mas por decisões políticas e financeiras de curto prazo, por deslumbramento com a abertura dos mercados, por obediência cega a dogmas importados.

A narrativa oficial dizia: "é a modernização, é a terciarização inevitável, é a Europa". Na prática, caminhámos de um país que fabricava para um país que atende. Em vez de operários especializados, formámos exércitos de empregados de balcão, recepcionistas, animadores turísticos, estafetas, call centers, freelancers de sobrevivência. O trabalho deixou de construir coisas tangíveis e passou a flutuar em serviços frágeis, facilmente substituíveis e facilmente descartáveis.

Tornámo-nos aquilo que os países centrais adoram: um destino bonito, barato, disponível e prestável. Um país de sorriso pronto e salário baixo. Uma espécie de hotel grande com bandeira nacional à porta, onde os quartos são alugados ao mundo e os residentes permanentes vivem nos pisos inferiores, a servir quem passa.

II. Fundos europeus: a epopeia do dinheiro que veio para ficar… e evaporou

Durante anos, os fundos europeus foram apresentados como a tábua de salvação da nação: quadros comunitários, programas, planos de recuperação, milhões e milhões anunciados com pompa. Cada conferência de imprensa prometia "transformação estrutural", "reindustrialização", "transição digital", "resiliência". A palavra "estratégia" foi usada tantas vezes que perdeu significado.

Mas quando olhamos à volta, o que vemos? Zonas industriais fantasmas, projectos que morreram ao fim de três anos, parques tecnológicos que nunca passaram de catálogos de intenções, formações financiadas que só formaram estatísticas, consultadorias enriquecidas e relatórios cuidadosamente arrumados em gavetas ministeriais. A sensação é a de ter recebido um rio de dinheiro e o ter deixado escorrer por canais mal desenhados, regando mais a burocracia e os amigos do regime do que a economia real.

O país endividou-se, acomodou-se e habituou-se a viver com injecções periódicas de capital externo em vez de construir, com paciência, a sua própria musculatura produtiva. Fez-se obra, claro que sim; mas demasiadas vezes obra sem visão, sem continuidade, sem retorno. O milagre esperava-se; a derrapagem chegou. E hoje, terminados vários ciclos de financiamento, descobrimos que continuamos pobres, apenas com melhor iluminação pública e estradas mais lisas para fugir do país.

A tragédia não está em ter recebido fundos; está em tê-los usado como pensos rápidos numa ferida profunda. E, pior ainda, em ter criado uma cultura de dependência: governo após governo, a pergunta não é "o que vamos criar?", mas "quanto vem de Bruxelas?". Em vez de estratégia nacional, temos uma agenda de candidatura a programas. Em vez de visão, temos powerpoints.

III. Turismo, subsistência e o país que se alugou a si mesmo

No meio deste processo, o turismo emergiu como o grande herói das estatísticas. Chegadas de turistas, noites de hotel, voos, cruzeiros, alojamento local, "city breaks". A cada recorde de visitantes, o país rejubila: "somos destino de topo". Os centros históricos enchem-se de malas de rodinhas e tuk-tuks; as periferias enchem-se de quem foi empurrado para fora das zonas entretanto gentrificadas.

Não há nada de errado em receber bem quem nos visita. O problema é quando um país se transforma, lenta e alegremente, num parque temático para estrangeiros. Quando a sua economia depende excessivamente de sazonalidade, de plataformas multinacionais de alojamento, de salários baixos escondidos atrás de sorrisos obrigatórios. Quando as pequenas economias locais deixam de produzir bens e passam a produzir experiências vendáveis em brochuras.

Junto com o turismo florescem os negócios de sobrevivência: restaurantes a competir pelo preço mais baixo, pequenas empresas de serviços a viver de margens minúsculas, esquemas de intermediação, subcontratações em cascata, recibos verdes eternos, plataformas digitais que extraem percentagens generosas sobre o trabalho dos outros. Tudo muito moderno, tudo muito flexível, tudo muito "dinâmico" – e quase tudo assente em valor acrescentado miserável.

A economia portuguesa tornou-se um equilibrista sem rede: uma crise no turismo, uma guerra, uma pandemia, uma mudança na procura internacional, e o castelo de cartas começa a tremer. Não há base industrial forte, não há diversificação suficiente, não há reserva de soberania produtiva. Há apenas boa vontade, mau planeamento e um optimismo ingénuo que confunde movimento com progresso.

IV. Melhor do que antes? Sim. Mas à custa de quê?

Seria desonesto dizer que o país não melhorou desde o tempo da ditadura. Seria, aliás, uma ofensa à memória de quem lutou para derrubar o regime. Hoje há liberdade de expressão, eleições livres, acesso muito mais alargado à educação, sistema nacional de saúde, redes de transporte, ligações ao mundo. O Portugal de hoje é, materialmente, incomparavelmente melhor que o Portugal de antes do 25 de Abril.

Mas é precisamente por isso que o diagnóstico é tão incómodo: chegámos aqui sem nunca ter discutido seriamente o modelo de desenvolvimento. Corremos atrás da modernização sem perguntar em que direcção; aplaudimos o crescimento do consumo sem discutir quem o paga; celebrámos a inclusão europeia sem negociar uma estratégia nacional robusta; endividámo-nos de forma crónica sem questionar o tipo de economia que o crédito estava a alimentar.

O resultado é paradoxal: somos um país mais confortável, mas não mais soberano; mais integrado, mas não mais autónomo; mais desenvolvido em infra-estruturas, mas não em estrutura. Temos mais coisas, mas menos margem de manobra. Temos mais acesso, mas menos poder real. Melhorámos muito, sim; mas não sabemos bem para quê, nem ao serviço de quem.

V. Tragédia, comédia ou apenas sonambulismo colectivo?

Portugal oscila hoje entre a tragédia e a comédia. Tragédia, porque a perda de capacidade produtiva, a pobreza estrutural, a fuga de cérebros e a dependência externa são reais, medíveis, dolorosas. Comédia, porque o debate público continua a portar-se como se tudo isto fosse um detalhe – desde que haja mais festivais, mais "websummits", mais anúncios de investimentos que nunca se concretizam e mais fotografias de governantes a cortar fitas.

No meio, vive um povo que, em grande parte, não faz ideia do sítio a que chegou. Sabe que a vida está cara, que os salários não chegam, que os filhos pensam em emigrar, que os serviços públicos se degradam; mas não liga estes pontos a um modelo económico e político que se tornou estruturalmente frágil. A insatisfação transforma-se em resignação, a resignação em cinismo, o cinismo em voto de protesto ou em abstenção. E a roda continua a girar.

Talvez seja essa a verdadeira tragédia: não vivermos num país condenado por destino, mas num país que escolhe, dia após dia, não acordar. Um país que tem gente brilhante, competente, criativa, mas que a dispersa em batalhas individuais de sobrevivência, enquanto o sistema se organiza apenas para se manter igual a si mesmo.

VI. Epílogo: pobres, sim. Sem futuro, ainda não.

Dizer que somos "pobres sem futuro" é compreender a dimensão do abismo, mas também é, sem querer, entregar a chave de casa aos mesmos de sempre. Eles agradecem: quanto mais o povo acreditar que nada pode mudar, mais fácil é continuar tudo igual. É preciso olhar a tragédia de frente, sem maquilhagem, e ainda assim recusar a sentença definitiva.

O futuro não nasce de decretos europeus nem de inaugurações ministeriais; nasce de uma minoria inconformada que se recusa a aceitar o país como fatalidade. Gente que pensa, escreve, denuncia, constrói alternativas, cria empresas com dignidade, faz ciência, faz cultura, faz comunidade. Gente que compreende que o problema não é a liberdade conquistada em Abril, mas a mediocridade com que a temos administrado.

Portugal é hoje uma tragédia com espasmos de comédia. Mas, enquanto houver quem se recuse a rir por hábito e quem se atreva a escrever, em voz alta, que o rei vai nu, ainda não está tudo perdido. A decadência só é definitiva quando o país inteiro se habituar a ela. Até lá, cada texto, cada projecto, cada acto de lucidez é uma pequena insurreição contra o destino que nos reservaram.

Escrito em co-autoria por Francisco Gonçalves e Augustus Veritas Lumen, em memória de um país que poderia ser muito mais do que um postal turístico bonitinho na periferia da Europa.
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