BOX DE FACTOS
  • Portugal depende excessivamente de modelos de baixo valor acrescentado e de cadeias externas para tecnologia crítica.
  • Energia competitiva e estável é a base invisível de qualquer salto industrial sustentável.
  • Reindustrializar não é regressar ao passado: é escolher sectores de alto valor e controlar partes chave da cadeia.
  • Soberania tecnológica começa na criação de propriedade intelectual, não na subcontratação infinita.
  • Sem execução rápida e políticas estáveis, o talento emigra por gravidade e o país perde décadas em meses.

Portugal Precisa de Músculo

Um país não se salva com slogans nem com turismo a encher fotografias. Salva-se com energia que não estrangula, indústria que exporta valor e tecnologia que nasce cá, em vez de ser apenas alugada ao mês.

1. A energia como fundação de soberania

Portugal precisa de tratar a energia como aquilo que realmente é: uma infra-estrutura de civilização. Sem custo energético competitivo, tudo o resto é poesia sem chão.

Não basta produzir renováveis. É preciso dominar a engrenagem inteira: redes inteligentes, armazenamento, gestão activa da procura, integração industrial e resiliência estratégica. A energia barata e estável não é luxo; é a condição de existência de qualquer indústria moderna com ambição exportadora.

2. Indústria forte não é nostalgia

Reindustrializar não significa ressuscitar fábricas anacrónicas. Significa escolher nichos de alto valor, com capacidade real de escala, e puxar o país para o centro de cadeias globais que não perdoam amadorismos.

Portugal precisa de sectores onde o mundo precise de nós por competência técnica, não por mão-de-obra barata. Componentes para energia, electrónica selectiva, maquinaria especializada, biotecnologia aplicada, materiais avançados, manufacturing inteligente. Poucos alvos, bem escolhidos, integralmente defendidos.

3. Domínio tecnológico: a diferença entre usar e criar

A grande armadilha do país tem sido confundir modernidade com consumo de tecnologia externa. Uma nação não se torna tecnológica por instalar software. Torna-se tecnológica quando produz propriedade intelectual, quando cria plataformas, quando exporta soluções, quando a inovação deixa de ser uma excepção heroica e passa a ser um sistema.

Aqui entra a ferida antiga do body shopping: um modelo que ensina o país a vender horas em vez de vender produto. E um país que vende horas vive sempre à mercê do dono do relógio.

4. Educação técnica com destino, não com burocracia

A escola e a universidade têm de voltar a ser laboratórios de futuro útil. Menos retórica de inovação, mais treino real de competências: matemática aplicada, pensamento computacional, ciência de dados, engenharia de sistemas, cultura de qualidade e rigor industrial.

A ligação com empresas exportadoras não pode ser um evento anual com fotografias. Tem de ser um corredor permanente onde talento e produção se reconhecem mutuamente.

5. O Estado: ou acelera, ou afoga

Um dos maiores bloqueios históricos não foi a falta de talento; foi a falta de estabilidade e clareza. Investimento industrial e tecnológico exige previsibilidade, justica celere e pulsar de ambiencia científica. As regras devem ser simples, a contratação pública deve premiar inovação, os incentivos devem ser estáveis e os prazos devem respeitar o tempo real da economia, ou seja ambicionar o "time-to-market".

Quando o Estado é lento, o futuro não espera. Emigra.

Epílogo: um país que escolhe vencer

Portugal não precisa de ser grande em tudo. Precisa de ser imparável em duas ou três frentes estratégicas que se alimentem mutuamente: energia competitiva, indústria de alto valor, tecnologia própria.

Este é o triângulo de uma libertação moderna. Sem ele, o país será sempre um espaço de serviço para sonhos fabricados noutros lugares. Com ele, pode finalmente ser um produtor de futuro em vez de um importador de destinos.

Artigo de Francisco Gonçalves
Com co-autoria crítica de Augustus Veritas Lumen
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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