Portugal: Pátria do ‘Não Me Lembro’- crónica de uma canalhocracia confortável

- Em Portugal, a suspeita pública sobre promiscuidade entre poder político, económico e institucional é recorrente.
- A "transparência" aparece muitas vezes sob a forma de declarações genéricas, listas e frases que não permitem verificação.
- A carga fiscal sobre quem vive do trabalho e do consumo é sentida como pesada, enquanto a elite beneficia de rotas legais e opacas.
- Quando a confiança morre, cresce o cinismo, a abstenção e a raiva — e a democracia emagrece até virar fachada.
A Pátria do "Não Me Lembro"
Portugal é um país com mar, luz e poesia — e com um talento especial para transformar o óbvio em nevoeiro. Aqui, quando a realidade incomoda, não se enfrenta: embacia-se. Diga-se "sigilo", murmure-se "não me lembro", pendure-se uma lista, e pronto: está inaugurada a exposição nacional de arte contemporânea chamada "Transparência".
O povo paga. Paga no recibo de vencimento, paga no talão do supermercado, paga no imposto que não sabe evitar. É a tributação do costume: automática, disciplinada, obediente. E, lá em cima, onde a gravidade é mais leve, há sempre uma escada de serviço para a fortuna: consultorias nebulosas, sociedades com nomes limpos e práticas sujas, corredores onde o Estado entra pela porta da frente e o interesse privado sai pela porta do lado — sorridente, perfumado, impecável.
A amnésia como política pública
A frase-símbolo do nosso tempo não é "vou resolver". É "não tenho presente". O "não me lembro" tornou-se uma vacina contra o escrutínio: impede a pergunta de entrar, e ainda faz de vítima quem devia responder. É um mecanismo perfeito: não acusa ninguém, não prova nada, e deixa a dúvida a apodrecer devagar, como lixo orgânico em sacos dourados.
Só que há um detalhe chato, irritante, anti-romântico: em dinheiro, a memória é irrelevante. A memória é para poemas. O dinheiro tem registos, tem datas, tem contas. E quando a vida pública se protege com esquecimento, o país percebe o recado: a verdade é opcional, desde que seja pronunciada com gravata e tom grave.
A justiça: balança, venda e… cronómetro
Diz-se que a justiça é cega. Por cá, às vezes, não é cega: é lenta. E a lentidão não é neutra. A lentidão escolhe vencedores. Um processo que dura anos transforma-se num anestésico: adormece a indignação, desgasta testemunhas, cansa jornalistas, empobrece quem não tem recursos para lutar. O tempo, em Portugal, é um advogado de luxo — e trabalha sempre para quem pode pagar.
E, no fim, quando chega a sentença do mundo real (a vida que passou, a oportunidade perdida, a vergonha arquivada), o cidadão comum sente aquilo que não se diz em conferências: o sistema não falha por acaso; falha com método.
A fiscalidade: o povo à taxa normal, a elite à taxa invisível
O retrato repete-se: quem tem salário é espremido com precisão cirúrgica; quem tem estrutura é untado com criatividade contabilística. Não se trata de "inveja social". Trata-se de matemática moral. Um país não aguenta indefinidamente que os mesmos paguem sempre, enquanto outros vivem num aquário de excepções, benefícios, opacidades e portas que só abrem para dentro.
Quando o trabalhador vê que a lei é uma rocha para uns e uma almofada para outros, ele não perde apenas dinheiro: perde pertença. E quando um povo perde pertença, perde também a vontade de construir futuro. Fica a sobreviver, como quem faz "refresh" a uma página que nunca carrega.
O país do folheto: transparência que não se confirma
Há uma nova moda: a transparência performativa. Parece transparência, mas não ilumina. Publica-se uma lista, anuncia-se um princípio, recita-se uma intenção — e o essencial fica por dizer: quanto, quando, em troca de quê, com que salvaguardas. Sem isto, não há escrutínio: há fé. E democracia não é missa.
A transparência verdadeira é aborrecida, técnica e verificável. É o oposto do marketing. É pôr números onde se põe retórica. É permitir que o cidadão confirme sem pedir licença. O resto é decoração institucional: bonita em fotografia, inútil em tribunal e perigosa na vida pública.
Epílogo: que futuro terá este país?
O futuro de Portugal não depende de milagres, nem de salvadores com frases bonitas. Depende de uma coisa simples e terrível: exigência. Exigência de registos, de regras, de incompatibilidades reais,nde fiscalização séria, de dados abertos, de justiça com meios e prazos, de um Estado que não seja caixa multibanco de influências.
Se continuarmos a aceitar a impunidade como clima — como se fosse "o nosso tempo", como se fosse inevitável — então sim: este país terá um futuro curto, estreito e ressentido. Mas se a cidadania voltar a exigir luz, a canalhocracia perde o seu habitat natural: a sombra.
Porque a corrupção não é um dragão mitológico. É um hábito. E hábitos, quando deixam de ser tolerados, começam finalmente a morrer — não por moralismo, mas por falta de alimento.
Ligações úteis para sustentar os pontos da crónica (percepção de corrupção, escrutínio institucional, fiscalidade, transparência e contratação pública).
- Transparency International — Perfil de Portugal (CPI 2024: pontuação e posição) — consultado em 22/12/2025
- Transparency International — Corruption Perceptions Index 2024 (metodologia e resultados globais) — consultado em 22/12/2025
- Comissão Europeia — Relatório "Estado de Direito" 2025 (Capítulo Portugal) [PDF] — consultado em 22/12/2025
- Comissão Europeia — Relatório "Estado de Direito" 2024 (Capítulo Portugal) [PDF] — consultado em 22/12/2025
- Comissão Europeia — Relatório "Estado de Direito" 2023 (Capítulo Portugal) [PDF] (inclui referência ao Eurobarómetro: percepção de corrupção) — consultado em 22/12/2025
- Conselho da Europa (GRECO) — Nota de publicação do 3.º Relatório Intercalar (4.º Ciclo: deputados, juízes e procuradores) — consultado em 22/12/2025
- Conselho da Europa (GRECO) — 3.º Relatório Intercalar (texto integral) [PDF] — consultado em 22/12/2025
- OCDE — Revenue Statistics 2025 (nota de país: Portugal) [PDF] (receitas fiscais/PIB) — consultado em 22/12/2025
- gov.pt — IVA em Portugal (taxas em vigor, por território) — consultado em 22/12/2025
- Portal BASE — Contratação Pública (consulta de contratos e entidades adjudicantes) — consultado em 22/12/2025
- IMPIC — Dados abertos / Portal BASE (referência a disponibilização de dados em formato aberto) — consultado em 22/12/2025
- Assembleia da República — Resultados de votações (12/12/2025) [PDF] (regulamentação da representação de interesses / "lobby") — consultado em 22/12/2025
- Assembleia da República — Iniciativa legislativa (ex.: Projecto de Lei sobre lobbying e registo de transparência) — consultado em 22/12/2025
Nota: alguns destes casos estão em julgamento, outros em investigação e outros já tiveram decisões (com ou sem recursos). O objectivo aqui é dar pistas verificáveis para o leitor confirmar factos, datas e enquadramentos.
- Operação Marquês (José Sócrates e outros arguidos) — julgamento iniciado em Julho de 2025, com dezenas de crimes imputados no processo.
- Operação Influencer (lítio, hidrogénio verde e "data center") — investigação do Ministério Público com impacto político e forte escrutínio público.
- Processo EDP / Manuel Pinho / Ricardo Salgado — caso mediático com condenações em primeira instância e confirmação na Relação (noticiado em 2025).
- Universo BES/GES — processos envolvendo Ricardo Salgado — múltiplos processos e diligências judiciais associados ao colapso do GES/BES e casos conexos.
- Caso TAP / Alexandra Reis — polémica da indemnização e consequências políticas; mais tarde, diligências e buscas noticiadas.
- Operação Lex — alegada viciação/manobras processuais; julgamento arrancou (noticiado) em 2025.
- Face Oculta (inclui Armando Vara) — caso de grande impacto mediático; execução de pena e desenvolvimentos noticiados em 2025.
- Operação Teia (autarquias do Norte) — investigação sobre crimes económicos em contexto autárquico, com várias notícias e arguidos ao longo dos anos.
- Caso E-Toupeira (Justiça e futebol) — processos e decisões judiciais com grande mediatismo; confirmação de condenação noticiada.
- Vistos Gold / Operação Labirinto — um dos julgamentos mais mediáticos da década (absolvições e condenações em vários arguidos, consoante decisões e recursos).
- Operação Furacão (fraude fiscal) — macro-investigação de fraude fiscal com acusação do MP e julgamentos ao longo dos anos.
- Caso BPN — colapso bancário e julgamento com sentença amplamente noticiada (documentação em arquivo).
Co-autoria editorial, investigação e pesquisa de Fontes : Augustus Veritas
Nota Final:
Nós, em Fragmentos do Caos, lutamos pela verdade nua e crua — sem maquilhagem, sem véus, sem "não me lembro" a servir de detergente moral.
Lutamos pela verdade que tem números, datas e registos; que não se esconde atrás de sigilos convenientes nem de listas decorativas. Lutamos pela verdade que não pede licença ao poder económico para existir, nem baixa os olhos perante a toga.
Lutamos porque sabemos isto: quando a verdade é adiada, a injustiça instala-se; quando a verdade é negociada, o futuro é penhorado. E porque a democracia sem verdade não é democracia — é apenas um palco bem iluminado, com bastidores podres.
Nós lutamos pela verdade nua e crua… para que um dia, neste país, a lei deixe de ser elástica para os de cima e de ferro para os de baixo.