Portugal, País de Governantes com Avenças: A Desmontagem do Sistema

- Avença: o salário sem relógio de ponto — e, por vezes, sem obra visível.
- Captura do Estado: quando os partidos tratam o país como extensão do seu organigrama.
- Corrupção sistémica: raramente é um "monstro" isolado; quase sempre é um ecossistema.
- Impunidade prática: não precisa de ser legal; basta ser frequente e pouco punida.
- Cidadania anestesiada: o medo de falar torna-se um imposto invisível.
Portugal: País de Governantes com Avenças
1. Avença: a moeda discreta do regime
A avença em Portugal é uma espécie de sacramento laico: dá-se em segredo, recebe-se com fé, e raramente se exige prova de milagre. É a remuneração do "parecer", esse verbo nacional que, bem pronunciado, substitui o "fazer". O país não faliu por falta de talento; foi ficando rouco de tanto aplaudir currículos, cargos, "consultorias", "assessorias" e "coordenações estratégicas" que coordenam sobretudo a permanência.
2. O Estado como prémio de militância
A lógica é simples e por isso perigosa: quem ganha eleições não governa apenas — reparte. Reparte direcções, institutos, empresas públicas, fundações, observatórios, grupos de trabalho, comissões de acompanhamento e outras criaturas administrativas cujo habitat natural é a penumbra orçamental.
E assim, lentamente, o Estado deixa de ser uma casa comum e passa a ser um condomínio fechado. O problema não é existirem cargos: é existirem cargos sem consequência, lugares sem responsabilidade, decisões sem rosto e erros sem factura pessoal.
3. O triângulo perfeito: medo, dependência, silêncio
Um sistema corrupto não se mantém só com envelopes. Mantém-se com hábitos: o hábito de não denunciar, o hábito de "não me meter em problemas", o hábito de aceitar que "é assim". O medo é o cimento. A dependência é a viga. O silêncio é o telhado.
Quem vive de salário curto não tem tempo para guerras longas. E quem vive com o coração apertado aprende a escolher batalhas como quem escolhe pão: o essencial primeiro, a dignidade depois — quando houver.
4. A justiça como cenário — e não como espada
A corrupção política prospera onde a justiça é lenta, desigual, selectiva ou previsível. Não é preciso abolir tribunais; basta transformá-los numa maratona onde o comum cidadão corre descalço e o poderoso corre de carro, com advogado e mapa.
A impunidade raramente se anuncia. Ela instala-se — como humidade nas paredes — até toda a casa cheirar a inevitável.
5. A corrupção moderna não grita: factura
A corrupção do século XXI veste fatos e fala inglês em reuniões com PowerPoints. Já não é só o "dinheiro por baixo da mesa"; é a engenharia do contrato, a acrobacia do ajuste directo, a ginástica do conflito de interesses que não "é conflito" porque alguém escreveu "parecer favorável" numa folha.
Quando a política se torna um mercado e o Estado um cliente cativo, a democracia vira um balcão: uns passam com senha VIP; outros ficam na fila a ouvir a cassete do "aguarde".
6. A desmontagem: por onde começa um país a salvar-se?
Um sistema destes não cai com moralismos. Cai com mecanismos. E com luz. Luz administrativa, luz judicial, luz cívica.
- Transparência radical: contratos, avenças, adjudicações e currículos publicados de forma pesquisável e auditável.
- Regra do "rasto": cada decisão relevante deve ter nome, fundamentação e responsabilidade registada.
- Incompatibilidades reais: portas giratórias fechadas por tempo suficiente para deixar de ser "negócio".
- Sanções que doem: perda de mandato, perda de funções, restituição, e consequências rápidas.
- Protecção a denunciantes: quem diz a verdade não pode ser condenado à miséria.
E, sobretudo: cidadania activa. Porque a democracia não é um sofá onde se reclama; é uma oficina onde se insiste. Um país muda quando o medo deixa de mandar.
Epílogo: a avença mais cara é a resignação
Portugal não é pobre por falta de sol — tem-no em excesso. É pobre por falta de clareza: clareza nos actos, clareza nas contas, clareza na exigência. E quando a clareza chega, os pequenos impérios tremem, porque a sombra sempre foi o seu ministério preferido.
Se a política é um palco, que seja, então, com bilhete para todos e luzes acesas. Porque governantes com avenças gostam de penumbra — e o povo, quando acorda, vê finalmente quem estava a jantar na cozinha enquanto lhe pediam paciência na sala.