BOX DE FACTOS
  • Portugal (UE=100, PPC): 1995 ~80,9 → 2024 ~82,4 (três décadas sem convergência estrutural).
  • Excepção estrutural: Grande Lisboa volta a ser a única acima da média europeia (2024: 128,9).
  • Mapa do atraso (2024): Norte 70,8 | Centro 70,7 | Alentejo 77,1 | Açores 72,5 | Algarve 89,2 | Madeira 88,3.
  • Fundos do país (2024): Península de Setúbal 55,4; Oeste e Vale do Tejo 64,6; Tâmega e Sousa 53,1.
  • Bem-estar vs actividade: DCI per capita (UE=100) em 2024: 85,7 — mais próxima da UE do que o PIB per capita.

Portugal: o país estagnado — Mais de três décadas a girar no mesmo eixo

Há países que avançam como rios. Portugal, por vezes, parece uma roda dentada sem motor: faz barulho, mexe-se, mas não sai do sítio — e, quando sai, é quase sempre puxado pelo mesmo vagão: a Grande Lisboa.

Há uma palavra que dói mais do que "crise": estagnação. A crise é tempestade — passa, parte telhados, mas obriga a reconstruir. A estagnação é pior: é nevoeiro constante, é humidade nas paredes do futuro, é o país a habituar-se ao pouco e a chamar-lhe "normal".

O retrato é desconfortável porque é simples: em três décadas, Portugal não convergiu com a média europeia em riqueza por habitante ajustada ao poder de compra. Oscilou, caiu, recuperou… e voltou quase ao mesmo ponto onde já estava. A história não é de subida; é de marcha no mesmo lugar.

1) O país-carruagem e a locomotiva solitária

A Grande Lisboa é a locomotiva — e também o aviso. É a única região que, de forma sistemática, se coloca acima da média europeia. Tudo o resto vive abaixo desse tecto, como se o país tivesse sido desenhado com um único pulmão e vários membros em esforço permanente.

Não é que o resto do território não trabalhe. Trabalha — e muito. Mas trabalha num sistema que, demasiadas vezes, premia a proximidade ao centro e penaliza a distância, como se o mapa fosse uma hierarquia invisível: quanto mais longe do Tejo, mais caro é existir.

2) O escândalo silencioso: regiões a meio século da Europa

Há números que são uma acusação. Ter sub-regiões nos 50 e poucos por cento da média europeia não é "assimetria"; é um problema estrutural. É a prova de que a coesão foi muitas vezes uma palavra bonita em relatórios bem encadernados — mas fraca em resultados.

E o paradoxo mais cruel é este: o país aprende a conviver com a desigualdade interna como se fosse clima. "É assim." Não. O clima não se muda por decreto, mas as estruturas económicas mudam-se com escolhas: educação, produtividade, ciência, indústria, energia, mobilidade, habitação, administração pública — e, acima de tudo, coragem institucional.

3) O PIB não é salário — mas é bússola

Convém dizê-lo sem truques: o PIB per capita em PPC não mede salários nem o dinheiro que sobra ao fim do mês. Mede o valor económico produzido por pessoa, corrigido por preços. Não é o pão — mas é o forno. E quando o forno não aquece, o pão nunca chega a ser o que podia.

Até a Despesa de Consumo Individual, mais próxima do bem-estar, mostra melhoria, sim — mas insuficiente para quebrar o feitiço: vivemos ligeiramente melhor, sem nos tornarmos estruturalmente mais fortes. Um país pode ter mais consumo e continuar frágil: basta que a base produtiva não mude e que o futuro continue hipotecado a sectores de baixo valor.

4) O problema não é falta de talento — é falta de país para o talento

Portugal não é pobre de inteligência. É pobre de mecanismos que a fixem, a libertem e a multipliquem. Um país que exporta jovens e importa precariedade cria uma economia que "funciona" em estatística, mas falha em dignidade. E uma nação sem dignidade económica transforma-se num teatro: muita fala, pouca transformação.

O futuro — esse animal teimoso — não se constrói com slogans. Constrói-se com produtividade, ciência aplicada, indústria inteligente, tecnologia útil, energia barata e limpa, Estado competente, justiça célere, escolas que ensinem a pensar, e um mercado de trabalho que respeite a vida.

Epílogo: ou se muda a engrenagem, ou o país vira museu

Há duas formas de estagnar: por falta de meios, ou por excesso de resignação. A primeira é tragédia; a segunda é escolha. Portugal não precisa de uma "história bonita" — precisa de uma história eficaz. E a eficácia, aqui, tem uma moral simples: um país que não converge, em trinta anos, não está "a caminho" — está perdido na rotunda.

E uma rotunda, por muito bem ajardinada que esteja, continua a ser um lugar onde se gira — não um lugar onde se chega.

Artigo de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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