Portugal e a Catapulta da Inovação: do Doutoramento-Paper ao Doutoramento-Protótipo

- O paradoxo: muito conhecimento produzido; pouca transformação consistente em protótipos e produtos.
- A catapulta: ligar doutoramentos e investigação a provas físicas, validação industrial e mercado.
- Mentalidade "Cristiano Ronaldo": disciplina, repetição, métricas, treino duro e execução sem teatro.
- Três motores sincronizados: Governo (comprador e regulador), Ensino Superior (laboratórios e talento) e Empresários (escala e exportação).
- Meta clara: passar de "cidade" (projectos-piloto eternos) a "cruzeiro" (linhas de produto e receitas globais).
Portugal e a Catapulta da Inovação: do Doutoramento-Paper ao Doutoramento-Protótipo
1) A mentalidade "Cristiano Ronaldo": a disciplina como política pública
A metáfora é simples: não basta talento, nem basta "esperança", nem basta uma conferência com powerpoints brilhantes. A mentalidade "Cristiano Ronaldo" é o culto da repetição e do detalhe: treino, métricas, melhoria contínua, ambição sem desculpas. Já Aristóteles dizia "Somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência então não é um acto, mas um hábito. Aplicada a Portugal, significa trocar o orgulho de "publicar" pelo orgulho de entregar.
O país não precisa de um "milagre". Precisa de uma cultura em que a pergunta central deixa de ser "onde está o financiamento?" e passa a ser: qual é o protótipo, quem o vai testar, em que prazo, e que indicador prova que avançámos?
2) O papel do Governo: de comentador a motor (e comprador)
Se o Estado quiser ser uma catapulta de inovação, tem de fazer duas coisas que doem ao comodismo: comprar inovação e desatar nós regulatórios mas sem abrir ainda mais a porta ao compadrio e à corrupção.
2.1 — Compras públicas orientadas a protótipos
- Criar concursos de "Protótipo em 120 dias" para problemas reais (energia, água, incêndios, saúde, mobilidade, cibersegurança).
- Pagamentos por marcos: desenho → protótipo → piloto em terreno → pré-série.
- Contratos pequenos e muitos, para reduzir risco e aumentar aprendizagem nacional.
2.2 — Zonas de teste e "sandboxes"
- Definir concelhos/regiões como laboratórios vivos (smart grid, sensores, drones, telemedicina, dados urbanos).
- Licenciamento acelerado para testes com regras claras, auditoria e transparência.
2.3 — Métricas públicas, simples, implacáveis
- Número de protótipos funcionais entregues por trimestre.
- Número de pilotos em terreno (em entidades públicas e privadas).
- Receita de exportação de produtos tecnológicos (não "eventos", não "projectos").
- Tempo médio do "papel" ao "teste em campo".
3) O Ensino Superior: doutoramento com mãos sujas (de laboratório e oficina)
O ponto não é desvalorizar papers. É completar o ciclo. Um doutoramento pode continuar rigoroso e profundamente teórico — mas deve ter, sempre que aplicável, uma dimensão de prova física, protótipo, validação industrial e medição em contexto real.
3.1 — Novo contrato pedagógico: "tese + protótipo + validação"
- Para áreas aplicadas: requisito de protótipo demonstrável e relatório de testes (falhas incluídas).
- Co-orientação com indústria (não decorativa): objectivos e entregáveis assinados.
- Defesa pública com demonstração: a ciência não treme diante da realidade — mede-a.
3.2 — Laboratórios "fazedores" (maker labs) de escala nacional
- Redes de fablabs universitários com equipamentos partilhados e agenda comum.
- Equipas mistas: engenharia + design + software + negócio, desde o início.
- Formação de "engenharia do produto": industrialização, certificações, custo, manutenção.
3.3 — Carreiras académicas com um pé no mercado
Sem demonizar a academia, Portugal precisa de reconhecer, na progressão, quem criar tecnologia transferida, patentes úteis, produtos licenciados e startups que sobrevivem à infância. Caso contrário, o sistema continuará a premiar a elegância do texto e a ignorar a teimosia do mundo real.
4) Os empresários: da esperteza táctica à ambição estratégica
A catapulta não funciona se a empresa portuguesa só quiser "projectos" e "consultoria" eternos. O salto está em criar produtos replicáveis — e depois vender fora, com fome de mundo.
4.1 — Do "bom desenrascanço" ao "produto"
- Investir em engenharia de produto, QA, documentação, suporte e actualizações.
- Adoptar ciclos curtos: protótipo em semanas, validação em meses, evolução contínua.
- Recrutar talento técnico e dar-lhe autonomia real (sem hierarquias sufocantes).
4.2 — Consórcios pragmáticos
Em vez de "parcerias de fotografia", consórcios com objectivo : únicobentregar uma solução certificada (hardware/software) e colocá-la em exportação. Quem entra, entra com entregáveis e prazos. Quem não entrega, sai.
5) A ponte que falta: um "pipeline" nacional da ideia ao mercado
Portugal pode desenhar um pipeline simples, repetível, quase militar na clareza — e poético no impacto: Ideia → Protótipo → Piloto → Pré-série → Produto → Exportação. O segredo está em institucionalizar cada etapa, com instrumentos próprios.
Instrumentos práticos (sem lirismos inúteis):
- Vouchers de prototipagem para universidades e PME (rápidos, burocracia mínima).
- Testes em entidades públicas com datas e resultados publicados (transparência).
- Fundos de "pré-série": a fase mais dolorosa entre o protótipo e a produção.
- Programas de exportação orientados a produto (certificações, feiras, canais, parceiros).
6) Três sectores onde Portugal pode ganhar depressa (se executar)
Não faltam sectores. Falta foco. Eis três onde Portugal tem condições para acelerar, por mistura de necessidade interna e mercado externo:
- Energia e eficiência: monitorização, baterias, redes inteligentes, gestão de consumos, microgeração.
- Cibersegurança e infraestruturas: serviços e produtos para PME, indústria, administração local.
- Fogos, água e território: sensores, previsão, resposta rápida, gestão de recursos e protecção civil.
A regra de ouro: cada projecto deve terminar com algo que se possa ligar, medir e demonstrar. Se não dá para demonstrar, é apenas literatura — e Portugal e o mundo globalizado têm literatura a mais na "gaveta".
7) Um guião de 24 meses para "passar a cruzeiro"
Primeiros 6 meses
- Mapa de 20 problemas nacionais com concursos "Protótipo em 120 dias".
- Criação de 5 zonas-piloto (laboratórios vivos) com regras e datas.
- Regras universitárias para teses aplicadas com protótipo e testes.
6 a 12 meses
- Primeiros protótipos entregues e avaliados publicamente (falhas incluídas).
- Programas de pré-série para os 10 melhores protótipos (industrialização).
- Consórcios empresariais com metas de certificação e entrada em mercado.
12 a 24 meses
- Produtos lançados com clientes-referência em Portugal.
- Exportação inicial para 3 a 5 mercados-alvo.
- Relatório anual: protótipos, produtos, exportações, tempos, custo/benefício.
Epílogo: o país que treina
A China não "reinventa" doutoramentos por magia cultural. Reinventa-os porque desenhou um sistema onde o conhecimento tem de provar que vive fora do papel. Portugal pode fazer o mesmo — sem perder liberdade académica, sem amputar o rigor, sem cair na idolatria do mercado.
O truque está em algo quase poético: fazer do protótipo uma forma de verdade. E fazer da execução um hábito nacional, como quem treina todos os dias, chova ou faça sol. Porque, no fim, um país não é o que promete — é o que entrega.
Fontes e referências (para estudo)
- Discussões internacionais sobre "research-to-market", transferência de tecnologia e políticas de inovação (literatura de economia da inovação e gestão tecnológica).
- Modelos de "sandbox" regulatória e "living labs" aplicados a energia, mobilidade e saúde (práticas comuns em programas europeus).
- Debate académico sobre avaliação científica, incentivos a publicações e valorização de impacto tecnológico (métricas vs impacto real).
- Boas práticas de engenharia de produto: prototipagem rápida, testes em campo, industrialização e certificação.
Nota: esta peça é um estudo editorial e um guião prático; as referências acima apontam linhas de investigação e práticas amplamente discutidas (sem depender de um único artigo específico).
Nota Importante : Para tudo isto se materializar o sistema de Justiça e as leis são fundamentais para este equilíbrio. Estas não podem estar a mudar a cada mandato e têm de dar um sinal forte de justiça social e económica equlibrada e rápida, que mostre na prática, Portugal como uma sociedade de alicerces robustos, estáveis e saudáveis.