Portugal: A Medalha do Ano e a Hipnose do Século

- Um bom desempenho num ano específico não equivale a mudança estrutural de estatuto económico.
- Economias pequenas podem destacar-se em percentagem sem ganhar escala, produtividade e poder tecnológico comparável às grandes potências.
- A euforia mediática tende a confundir performance momentânea com transformação histórica.
- O risco português crónico é celebrar títulos de ocasião enquanto adia o trabalho duro da produtividade, salários e inovação.
- O verdadeiro teste não é o ranking do ano; é a década que se segue.
A Medalha do Ano e a Hipnose do Século
Portugal viu uma capa, um ranking, uma frase que soava a música nacional: "crescimento acima das grandes potências". E a demagogia fez aquilo que sabe fazer melhor: transformou um sinal positivo numa epopeia instantânea.
Ora, convém ser adulto sem ser azedo. Um bom ano é sempre bom. É mérito onde houver mérito, e oxigénio numa economia que demasiadas vezes respira por aparelhos. O problema não está no reconhecimento externo. O problema está no modo como cá dentro se usa esse reconhecimento como licença para a auto-ilusão.
A matemática que os patriotas de ocasião ignoram
As economias pequenas têm uma vantagem estatística: podem surpreender em percentagem com mais facilidade. Mas percentagem não é império. Crescimento não é automaticamente produtividade. E uma medalha anual não muda, por si só, a anatomia profunda de um país.
Quando ouvimos "ultrapassámos as grandes potências", devíamos traduzir mentalmente: "tivemos um bom conjunto de indicadores num ciclo específico". É muito diferente. Como comparar uma vela bem acesa com um farol inteiro.
O velho vício nacional: confundir notícia com destino
Portugal tem um talento raro para a festa de um dia e a resignação do resto do ano. Uma manchete vira hino. Um trimestre vira profecia. E depois voltamos ao que não mudou: salários apertados, produtividade teimosa, investimento irregular, e uma economia demasiado dependente de sectores onde o valor acrescentado não cresce ao ritmo das necessidades colectivas.
A demagogia é isso: uma máquina de transformar pequenos sinais positivos em desculpas para não tocar no esqueleto da realidade.
O que seria maturidade estratégica
A resposta certa a um bom ranking não é o delírio patriótico. É a pergunta séria : como se transforma um bom ano numa década sólida?
Isso exige menos barulho e mais engenharia: indústria com valor acrescentado real, ciência e tecnologia integradas na economia, investimento consistente, reforma da justiça económica, e uma política de salários que não trate a dignidade como luxo.
Epílogo: a lucidez é a forma mais alta de patriotismo
Celebrar um bom resultado não é pecado. O pecado é usá-lo como narcótico nacional. O pecado é trocar estratégia por euforia e chamar "orgulho" ao que, no fundo, é medo de olhar para o que falta fazer.
Se queremos que Portugal cresça como país adulto e não como adolescente emocional, então a regra é simples: a medalha do ano só vale se servir a obra da década.
Crónica em co-autoria editorial com Augustus Veritas Lumen
NOTA IMPORTANTE : Há, de sempre, em Portugal uma elite que continua a confundir prudência com pequenez, e gerir com sonhar baixo.
E isso vê-se em sintomas recorrentes: fetiche pela imagem externa em vez de substância interna; administração do curto prazo como se fosse destino histórico; aversão ao risco criador, porque o risco incomoda os confortáveis; dependência crónica de centros de poder e de dinheiro, como se autonomia fosse arrogância.
O resultado é este país a andar com o travão moral puxado: fala de futuro, mas investe em paliativos; promove "modernidade", mas tolera mediocridade organizada; invoca "reformas", mas protege as rotinas que dão lugares e silêncio.
A verdade nua é que Portugal não precisa de mais gestores de sobrevivência. Precisa de gente com visão estratégica, coragem institucional e sentido de missão pública — capaz de pensar em décadas, não em ciclos de noticiário.
Porque uma nação não envelhece só nas infraestruturas. Envelhece quando os seus líderes perdem a ousadia de imaginar um país maior do que a sua própria carreira.