Portugal: A Geração Educada para Não Defender o seu País

- O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), general Nunes da Fonseca, lamentou que os temas de segurança e defesa tenham sido retirados do currículo da disciplina de Cidadania no básico e secundário.
- O CEMGFA classificou essa retirada como "retrocesso ou distracção" e defendeu a necessidade de "realimentar nos jovens a obrigatoriedade de defender Portugal".
- Portugal apresenta um défice de cerca de 7 a 8 mil militares para atingir o efectivo legal de 32 mil, perspectivando-se 35 a 36 mil nas próximas duas décadas.
- O general reconhece vulnerabilidades sérias nas defesas antiaéreas e estima serem necessários dezenas de milhar de milhões de euros em equipamento nas próximas décadas.
- Enquanto a geopolítica mundial endurece, a escola portuguesa retira do currículo a reflexão sobre defesa nacional e segurança colectiva.
A geração educada para não defender o seu país
Há notícias que deviam fazer soar sirenes em vez de passarem como mais um título entre muitos. Quando o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas vem a público dizer que a retirada da temática da defesa nacional das aulas de Cidadania é um "retrocesso ou uma distracção", não se trata de um detalhe burocrático: é um diagnóstico frio sobre o estado mental de um país que se habituou a acreditar que a História acabou e que a sua segurança está garantida por decreto.
A escola portuguesa, que já vinha a falhar no pensamento crítico, faz agora algo ainda mais grave: desarma a ideia de defesa. Deixa de falar seriamente de Forças Armadas, de soberania, de ameaças, de alianças, de responsabilidades colectivas. Forma cidadãos que sabem decorar conceitos abstratos de cidadania, mas que não fazem a menor ideia do que é, concretamente, defender o território e a comunidade em que vivem.
"Retrocesso ou distracção": quando o erro já é sintoma
O general Nunes da Fonseca escolheu as palavras com diplomacia, como manda o cargo: "retrocesso ou distracção". Traduzido para linguagem de cidadão, significa isto: ou foi uma decisão ideológica sem noção da gravidade, ou foi desleixo de quem não percebe minimamente em que mundo vive. Em ambos os casos, é inaceitável que a defesa nacional tenha desaparecido do radar pedagógico de um país da NATO, com fronteira marítima imensa e posição geoestratégica sensível.
Quando o responsável máximo pelas Forças Armadas sente necessidade de pedir que se "realimente nos jovens a obrigatoriedade de defender Portugal", percebemos até que ponto a cultura dominante já interiorizou a ideia de que a segurança é um assunto de terceiros: da União Europeia, dos Estados Unidos, da NATO, de "alguém". Nunca nosso.
Uma escola que forma consumidores, não defensores
A disciplina de Cidadania, tal como tem sido aplicada, transformou-se num catálogo de temas "correctos", tratados muitas vezes de forma superficial e moralista. Fala-se de direitos humanos com pouco rigor histórico, de ambiente sem estratégia energética, de igualdade com mais slogans do que análise. Agora, retira-se a componente de segurança e defesa — talvez por desconforto ideológico, talvez por ignorância técnica, talvez por ambas.
Assim se forma uma juventude que sabe reciclar plástico, mas não sabe ler um mapa geopolítico; que repete palavras bonitas sobre paz, mas desconhece o preço da paz; que nunca aprendeu que o conforto em que vive depende, também, de pessoas que vigiam céus, mares e fronteiras. Em vez de cidadãos conscientes, produz-se consumidores distraídos, prontos a acreditar que a guerra é sempre coisa dos outros, sempre longe, sempre impossível aqui.
Défice de militares, défice de realidade
O mesmo general que denuncia a saída da defesa do currículo lembra que faltam milhares de militares para cumprir o efectivo legal. Faltam pessoas para operar sistemas, para cumprir missões, para manter compromissos internacionais. Faltam recursos humanos, faltam defesas antiaéreas modernas, falta investimento sustentado em capacidades críticas. E falta, sobretudo, consciência colectiva de que tudo isto não é opcional — é sobrevivência.
O contraste é quase cruel: de um lado, um mundo que se rearma, reconfigura alianças, investe em inteligência, ciberdefesa e espaço; do outro, um país que discute se a defesa nacional deve ou não ser tema de uma disciplina de Cidadania. Enquanto os outros preparam a casa para tempestades, nós discutimos se vale a pena falar de telhados à mesa de aula.
A ilusão da paz eterna e o conforto da irresponsabilidade
Depois de 1974, Portugal habituou-se à ideia de que a guerra é um capítulo fechado. A integração europeia, a pertença à NATO e a distância geográfica de alguns conflitos alimentaram uma perigosa fantasia de imunidade histórica. A geração que hoje desenha currículos parece convencida de que a defesa é um tema "bélico", antiquado, quase embaraçoso — incompatível com a narrativa de um país simpático, turístico, pacífico e eternamente protegido por tratados.
Só que o mundo não funciona assim. A paz não é um estado natural; é um equilíbrio frágil mantido por diplomacia, dissuasão, alianças e capacidade real de resposta. Um país que esquece isto está a pedir, de joelhos, para ser surpreendido. E a forma mais rápida de esquecer é deixar de ensinar. Retirar a defesa do currículo é mais do que um erro técnico: é um acto de amnésia programada.
Realimentar o dever: não com propaganda, mas com verdade
Falar de defesa nas escolas não significa militarizar a educação nem transformar aulas em paradas de aclamação. Significa explicar, com rigor e sem romantismo, que um país existe num mundo hostil, que tem responsabilidades internacionais, que precisa de Forças Armadas preparadas e de cidadãos conscientes do que está em jogo. Significa discutir orçamento, escolhas, prioridades, ética do uso da força, limites do poder militar e controlo democrático das armas.
"Realimentar nos jovens a obrigatoriedade de defender Portugal" não é gritar "Portugal acima de tudo"; é ensinar que liberdade, democracia e paz exigem, além de boas intenções, capacidade de se proteger. Um país que recusa ter esta conversa com os seus jovens está a condená-los a descobrir, tarde demais, que a História não acabou e que a fragilidade paga-se caro.
Epílogo: Cidadania sem defesa é cidadania de papel
A disciplina chama-se "Cidadania", mas, se ignora a defesa, ensina apenas meia cidadania: a confortável, a que fala de direitos, diversidade e boas causas abstractas, mas se cala diante das perguntas duras sobre poder, conflito e sobrevivência colectiva. Uma cidadania que não olha para a defesa nacional é uma cidadania de papel, pronta a arder na primeira faísca séria da História.
Se aceitarmos que uma geração inteira cresça sem sequer ouvir, na escola, a frase "Portugal tem de ser defendido", então já não será apenas um "retrocesso ou distracção". Será uma traição lenta, polida e pedagógica à própria ideia de país. E, nesse dia, não será preciso inimigo externo: teremos feito, sozinhos, o trabalho de desarmar o nosso futuro.
Esta crónica baseia-se nas declarações recentes do general Nunes da Fonseca sobre a saída da temática da defesa do currículo de Cidadania e sobre o défice de efectivos e capacidades das Forças Armadas.
Série: Contra o Teatro da Mediocridade
Publicado em Fragmentos do Caos – Para quem ainda sabe que a defesa começa na cabeça, não no quartel.