Portugal: a economia do branqueamento de dinheiro sujo

BOX DE FACTOS
- Rede de branqueamento sediada na Varziela, em Vila do Conde, a chamada «Chinatown do Norte», movimentou mais de 200 milhões de euros em dois anos.
- O esquema assentava em dezenas de empresas de fachada e mais de quatro centenas de contas bancárias tituladas por testas de ferro pagos ao recibo do silêncio.
- Em operações anteriores, a mesma constelação de serviços de branqueamento já tinha feito desaparecer dezenas de milhões para contas na China e noutros destinos opacos.
- A Polícia Judiciária apreendeu apenas uma fracção: algumas centenas de milhares de euros em numerário, carros de luxo, imóveis — a espuma à superfície de um oceano de dinheiro invisível.
- Enquanto o Fisco persegue tostões de recibos verdes, centenas de milhões escapam-se, discretamente, pelo ralo bem oleado da economia paralela.
Portugal: a economia do branqueamento de dinheiro sujo
A Chinatown do Norte como espelho do país
Há imagens que condensam um país inteiro numa única metáfora. A zona de armazéns da Varziela, em Vila do Conde, baptizada de «Chinatown do Norte», é uma delas. Ali, entre contentores, grossistas e armazéns de tudo e de nada, ergueu-se, ao longo dos anos, uma verdadeira máquina industrial de branqueamento: dinheiro vivo entra em sacos de plástico, atravessa a noite em carros discretos e reaparece, lavado e perfumado, em contas espalhadas pela Europa e pela Ásia.
Não estamos a falar de trocos: são mais de duzentos milhões de euros em apenas vinte e quatro meses, num único esquema desmantelado, construído em torno de meia centena de empresas-fantasma e mais de quatro centenas de contas bancárias abertas em nome de testas de ferro dispostos a alugar o seu nome pelo preço certo. É uma economia paralela que respira bem, que engorda, que expande tentáculos e que trata o sistema financeiro português como se fosse uma lavandaria aberta 24 horas.
Empresas descartáveis, contas descartáveis, pessoas descartáveis
O método já se tornou rotina: criar empresas em série, muitas vezes através de mecanismos pensados para agilizar a economia formal, como a famosa «empresa na hora». Esses instrumentos, desenhados para acelerar o empreendedorismo, tornam-se ferramentas perfeitas para a engenharia do crime económico. Em poucos dias, estão registadas dezenas de sociedades com moradas fictícias — um consultório de psicologia aqui, um escritório semi-abandonado ali — todas com o único propósito de abrir contas bancárias.
Nessas contas, entram todos os dias pequenos depósitos em numerário, em quantias cuidadosamente abaixo dos radares automáticos de compliance. O dinheiro não descansa: assim que é creditado, viaja para outra conta, depois para outra, até desaparecer em transferências internacionais com destinos opacos. Ao fim de alguns meses, a conta é abandonada, a empresa é deixada ao abandono, o testa de ferro é descartado. O único elemento que permanece, sempre robusto, é o fluxo: a corrente subterrânea de dinheiro sujo que atravessa fronteiras.
É uma economia de descartáveis: empresas descartáveis, contas descartáveis, pessoas descartáveis. O único elemento permanente é o cinismo estrutural do sistema, que aprende a conviver com o crime como se fosse mais uma rubrica neutra nas estatísticas da balança de pagamentos.
O país que exporta dinheiro em vez de ideias
Quando um país deixa sair, em poucos anos, centenas de milhões de euros de riqueza não declarada, não está apenas a perder impostos. Está a exportar, em bruto, aquilo que podia ser investimento em saúde, educação, investigação, salários mais dignos. Cada euro que foge em sacos de plástico é um lugar de hospital que não existe, um laboratório que não se constrói, uma bolsa de estudo que nunca chega aos miúdos talentosos das periferias.
Em vez de exportar conhecimento, tecnologia, cultura, Portugal exporta notas enroladas e lucros escondidos. A nossa grande «vantagem competitiva» está em ser discreto: um país simpático, com sol, peixe fresco e um sistema bancário suficientemente dócil para ser usado como corredor de passagem do dinheiro que não quer ser visto. Não é uma «start-up nation», é uma «laundry nation» disfarçada de postal turístico.
Bancos: vigilância de powerpoint, lucros de vida real
Em teoria, os bancos vivem obcecados com o combate ao branqueamento: formulários intermináveis, questionários invasivos, avisos em letras miudinhas sobre o perigo do financiamento ao terrorismo. O cidadão comum sabe isso bem: para abrir uma simples conta à ordem, tem de explicar tudo — onde trabalha, quanto ganha, porque motivo quer um cartão de débito, o que vai comer ao jantar.
Mas, misteriosamente, centenas de contas abertas em nome de pessoas sem património conhecido, associadas a empresas sem actividade visível, com movimentos diários de milhares e milhares de euros em numerário, conseguem sobreviver meses sem levantar suspeitas. É um milagre estatístico. Ou talvez não seja milagre: talvez seja apenas conveniência, inércia, lucro fácil e uma cultura de vigilância de powerpoint, feita para apresentações internas e relatórios, não para impedir realmente que as engrenagens girem.
Quando finalmente a Polícia Judiciária desmantela o esquema, os comunicados celebram-se com números redondos: contas apreendidas, imóveis arrestados, carros de luxo penhorados. Mas, se retirarmos a espuma, sobra um país que deixou fugir para fora fronteiras a parte mais densa da massa: o grosso do dinheiro já está longe, resguardado em jurisdições onde o Estado português entra apenas como nota de rodapé diplomática.
O teatro da firmeza e a realidade da rendição
Sempre que uma rede destas é apanhada, repete-se o ritual: conferência de imprensa, fotografias de notas alinhadas em cima da mesa, armas apreendidas, carros cintilantes debaixo de holofotes. O país respira de alívio por alguns minutos: afinal, o sistema funciona, a justiça mexe, a polícia actua.
Mas, olhando para trás, vemos uma sequência de operações quase idênticas: anos de movimentações, dezenas de empresas de fachada, milhões e milhões a voarem para a China, para outros países europeus, para redes de burlas transnacionais. E a pergunta que fica, obstinada, é sempre a mesma: onde estava o Estado enquanto isto crescia? Onde estavam os relatórios de risco, as auditorias sérias, as sanções exemplares aos bancos que fecharam os olhos?
A resposta é desconfortável: o Estado aparece tarde e mal. Não porque não tenha técnicos competentes, mas porque a cultura política dominante é a do faz-de-conta. Faz-de-conta que se regula, faz-de-conta que se controla, faz-de-conta que se leva a sério o crime económico. E no entretanto, a realidade é uma rendição calma e silenciosa a uma economia subterrânea que aprende, adapta-se e volta a surgir noutro lado, com outros nomes, outras contas, os mesmos padrões.
Evasão fiscal como modelo de negócio nacional
O mais trágico é isto: o branqueamento de capitais não é um acidente isolado; é o "serviço de valor acrescentado" de uma cultura de evasão fiscal que se banalizou. Grossistas que não declaram parte dos lucros, comerciantes que aprendem cedo que «quem passa recibos é parvo», profissionais liberais educados na arte de fugir legalmente. Em cima disso, organizações especializadas oferecem o pacote completo: recolha diária, dispersão por contas, transferência internacional, factura falsa se for preciso, tudo embrulhado no celofane de uma pseudo-normalidade.
Portugal construiu, sem nunca o admitir, uma economia do cinzento: nem totalmente negra, nem verdadeiramente transparente. Uma economia que vive do expediente, do arranjo, do esquema engenhoso; onde o pequeno truque e o grande crime partilham o mesmo ADN cultural, apenas separados pela escala e pela geografia.
Um país cansado que ainda não se zangou o suficiente
Talvez o mais devastador seja a reacção social: um misto de indignação breve e resignação profunda. Indignamo-nos um dia, comentamos nas redes, enviamos um link pelo WhatsApp, e no dia seguinte seguimos em frente. O escândalo seguinte ocupa o lugar do anterior, como uma linha de montagem moral em que a nossa capacidade de espanto se vai desgastando.
Um país que perde centenas de milhões para a economia paralela, ano após ano, sem uma reforma séria da sua máquina fiscal, do seu sistema bancário, da sua justiça económica, é um país que ainda não se zangou o suficiente. Continua cansado, desiludido, irónico — mas não verdadeiramente decidido a romper com a normalidade viciada que o afunda.
Enquanto isso, a Varziela continua ali, como um símbolo incômodo: um pedaço de mundo onde se cruzam caixas de mercadoria, sacos de notas e silêncios cúmplices. Não é apenas «Chinatown do Norte». É, cada vez mais, um espelho daquilo em que deixámos o país tornar-se.
Portugal, futuro: do ciclo da lavagem ao ciclo da lucidez
Um dia, talvez, este país decida inverter o fluxo: em vez de deixar sair o dinheiro que nasce torto, escolhe endireitar a economia que o produz. Em vez de viver permanentemente em modo remendo, escolhe reorganizar a máquina fiscal para ser simples, justa e inescapável. Em vez de se resignar ao papel de corredor discreto do crime económico global, escolhe afirmar-se como laboratório de transparência, com bancos que não têm medo de fechar contas suspeitas e políticos que não se escondem atrás de chavões vazios.
Até lá, estas redes continuarão a brotar, como ervas daninhas no cimento. Serão desmanteladas de tempos a tempos, com grande pompa mediática. E continuarão a crescer por baixo, discretas e eficazes, alimentadas pela mesma combinação letal: um Estado cansado, uma banca complacente e uma sociedade que aprendeu demasiado bem a arte de virar o rosto para o lado.
Portugal merece mais do que ser uma lavandaria elegante da economia suja do mundo. Merece ser uma oficina de ideias limpas, de tecnologia, de ciência, de cultura, de trabalho honesto. Mas nada disso cairá do céu: será preciso, um dia, que a lucidez colectiva valha mais do que o conforto da hipocrisia.