Portugal daqui a 20 anos: o futuro que nasce da indiferença

- O ponto de partida: 51 anos de promessas, "reformas", remendos e uma pobreza que volta em ondas.
- O risco real: normalizarmos a injustiça social como se fosse meteorologia: "é assim mesmo".
- O tema: o futuro a 20 anos não cai do céu — é fabricado pela indiferença ou pela cidadania.
- Para os mais novos: não é sobre "odiar a política"; é sobre não abdicar dela aos piores.
- Mensagem final: quando ninguém vigia, o sistema escolhe sempre os mesmos: os de cima.
Portugal a 20 anos: o futuro que nasce da indiferença
Há perguntas que doem porque não pedem opinião: pedem coragem. "Se Portugal continuar com os mesmos governantes, políticos e elites — os mesmos reflexos, os mesmos vícios, as mesmas desculpas — o que esperamos em 20 anos?"
A resposta honesta não é um número. É um cenário. E os cenários não são castigos divinos: são escolhas acumuladas. Escolhas pequenas. Repetidas. Rotineiras. Aquelas que ninguém acha "graves" — até que se tornam um país.
Cenário 1: o país que se habitua à pobreza
O primeiro futuro possível é o mais perigoso porque é silencioso: a normalização. Não há uma queda dramática. Há uma descida lenta, como água a infiltrar paredes. O país continua a existir, claro — mas começa a viver de joelhos, sem dar por isso.
O trabalho deixa de ser caminho e passa a ser castigo: muito esforço, pouca recompensa, vida sempre "apertada". A classe média torna-se uma memória contada aos netos como se fosse lenda: "Houve um tempo em que…". E a juventude aprende cedo uma lição amarga: estudar é importante — mas, sem justiça, não chega.
O Estado, por sua vez, vai ficando mais "magro" onde devia ser músculo (saúde, educação, justiça), e mais "gordo" onde devia ser transparência (burocracias, clientelas, favores). O país transforma-se num corredor estreito: muitos a passar, poucos a chegar.
Cenário 2: o país boutique — bonito por fora, oco por dentro
Há um segundo futuro: o país-vitrine. Bonito, arrumado, "instagramável". Com slogans moderníssimos: datacenters, inovação, hubs, startups. Tudo parece progresso — até olharmos para os salários, para a habitação, para a mobilidade social.
Neste cenário, Portugal torna-se um lugar óptimo para visitar, investir e "optimizar impostos". Mas não necessariamente um lugar justo para viver e envelhecer. A riqueza existe — só que passa por cá como um comboio expresso: deixa ruído, deixa pó, e leva o essencial na carruagem de primeira classe.
E o povo? Vai fazendo ginástica de sobrevivência: duas rendas, três biscates, quatro ansiedades. É o país "moderno" com gente exausta.
Cenário 3: a democracia cansada — quando o desânimo vira regime
Se nada mudar, há um risco ainda mais grave do que a pobreza material: a pobreza cívica. Quando as pessoas deixam de acreditar que a sua voz muda alguma coisa, a política passa a ser um jogo fechado — e quem entra no campo são sempre os mesmos.
A abstenção cresce. A indignação vira entretenimento. As redes sociais substituem a praça pública. E os oportunistas prosperam, porque num país cansado a mentira é mais rápida do que a verdade.
A democracia não morre com um golpe; morre com um bocejo.
Então… que futuro é inevitável?
Nenhum. E é aqui que entra a parte que os mais novos precisam de ler com atenção: o futuro não é inevitável — é negociável. Só que a negociação não se faz com frases no café. Faz-se com cidadania activa.
Cidadania activa não é "ser de um partido". É ser do país. É exigir contas. É pedir transparência. É denunciar abusos. É participar. É votar, sim — mas também é acompanhar, questionar, fiscalizar, não desistir.
Um sistema sem vigilância é uma casa sem portas: quem tem coragem entra, e quem tem poder instala-se. Depois chama-lhe "normalidade".
O recado para quem tem hoje 15, 20, 25 anos
Não aceites que te vendam miséria com laço. Não aceites que te chamem "radical" por pedires o óbvio: justiça, trabalho digno, futuro possível. Não aceites que te digam "não dá" quando o que falta não é dinheiro — é vergonha.
Se a tua geração abdicar da política, a política não abdica de ti. Ela entrará pela tua vida dentro — na renda, no salário, no hospital, na escola, no tribunal. E depois não há "neutralidade": há apenas consequências.
Epílogo: duas estradas, um país
Daqui a 20 anos, Portugal pode ser um país mais pobre e mais injusto — se continuar a premiar a mediocridade e a proteger o costume. Mas também pode ser um país mais forte e mais decente — se a cidadania voltar a ser músculo e não só palavra.
O mais assustador não é errarmos. O mais assustador é habituarmo-nos.