BOX DE FACTOS
  • Em 2025, Portugal surge em destaque mediático pelo seu desempenho económico relativo e pela força do turismo.
  • O turismo continua a funcionar como motor de curto prazo, com reflexos visíveis em receitas, emprego e consumo.
  • O risco estrutural mantém-se: uma economia que cresce demasiado pelo fluxo de visitantes cresce menos pelo valor criado.
  • O debate real não é se o turismo é bom: é se ele está a substituir o futuro em vez de o financiar.

Portugal 2025: o brilho do turismo e a sombra da dependência

Há vitórias que são um aplauso e um aviso ao mesmo tempo. Em 2025, Portugal parece ter crescido com a elegância de uma maré certa. Mas convém perguntar: que maré é esta, e que costa estamos a gastar?

A notícia corre como um brinde: Portugal mencionado em análises internacionais, visto como um caso de bom desempenho em 2025, com o turismo a subir e a imagem do país a brilhar. E é verdade que esse brilho existe. Há ruas cheias, hotéis completos, restaurantes a girar, aeroportos em cadência alta. O dinheiro entra, o humor colectivo melhora, e por momentos dá a sensação de que a engrenagem nacional voltou a encontrar óleo.

Mas o que o entusiasmo nem sempre diz é simples: o turismo é uma força magnífica, sim — mas é também uma dependência quando ocupa o lugar que devia pertencer à indústria avançada, à engenharia, à investigação aplicada, ao software exportável, à biotecnologia, aos materiais, à energia inteligente. O turismo pode ser a festa; não deve ser a fundação da casa.

O equívoco do aplauso fácil

Há um erro recorrente na nossa leitura de sucesso: confundimos um bom ano com um bom modelo. Um país pode ter um excelente desempenho por razões conjunturais — clima global de procura, rotas deslocadas por instabilidade noutras regiões, moda internacional, investimento estrangeiro em busca de segurança. Nada disto é desprezível. Mas nada disto é garantido.

A economia sólida é aquela que, mesmo quando a moda passa, continua a exportar inteligência, técnica, produtos e serviços de alto valor. E aí Portugal ainda luta contra a velha parede: produtividade baixa, investimento em inovação insuficiente, e uma cultura política que se apaixona por números de curto prazo como quem se apaixona por fogos de artifício.

Turismo: motor, não destino

O turismo deve ser visto como alavanca. Um motor que ajuda a financiar o salto para sectores mais robustos. Se o turismo cresce e o país usa esse excedente para criar ecossistemas de tecnologia, reindustrialização limpa, educação técnica avançada e ciência aplicada, então ele é virtude estratégica.

O problema começa quando o turismo deixa de ser um meio e se torna o fim. Quando o país organiza o seu calendário económico como um hotel organiza as reservas: com ansiedade pelo próximo pico, em vez de serenidade sobre a próxima década.

A factura invisível

Há custos que não entram nas manchetes: pressão imobiliária, expulsão silenciosa de residentes, economia local reconfigurada para consumo rápido, salários que não acompanham o custo de vida, e uma paisagem urbana que arrisca tornar-se cenário. Não é fatalidade: é escolha de política pública e de modelo de desenvolvimento.

Quando uma economia depende demasiado de um sector sensível à geopolítica, à aviação, ao poder de compra internacional e até ao clima cultural de cada época, ela vive bem… mas vive vulnerável.

O que fazer com a boa notícia

A notícia de 2025, se for bem lida, não é motivo para cinismo nem para euforia cega. É um convite pragmático: aproveitar o ciclo favorável para reforçar pilares que não dependam de bilhetes de avião. Mais laboratórios com ligação à indústria. Mais incentivos para exportação tecnológica. Menos burocracia sufocante para quem cria. Mais ambição estrutural e menos culto do imediato.

Epílogo: a maré e o navio

Se Portugal cresceu em 2025 sob os holofotes do turismo, tanto melhor. Mas uma maré alta não substitui um navio bem construído. A questão decisiva não é esta: "crescemos?". A questão que separa o futuro do adorno é outra: "com que motor queremos crescer quando a maré baixar?"

Francisco Gonçalves
Crónica para o projecto Fragmentos do Caos
Com co-autoria editorial de Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.