BOX DE FACTOS
  • Data: 25 de Dezembro de 2025.
  • O que foi noticiado: voluntários relatam casais com filhos e pessoas com emprego a viver nas ruas de Lisboa.
  • O símbolo: pequenos-almoços distribuídos pela Legião da Boa Vontade — a sociedade civil a tapar buracos onde o Estado devia ter portas.
  • O paradoxo: um país que consegue produzir decretos, cargos e organigramas… mas não consegue garantir tecto a quem trabalha.

Lisboa, 25 de Dezembro de 2025: a rua como sala de estar — e o país a fingir que não vê

Há um Natal em que as famílias trocam presentes. E há outro, menos fotogénico, em que a família troca a porta de casa por uma esquina — e aprende a embrulhar a dignidade em cartão.

Hoje, 25 de Dezembro de 2025, a notícia veio com o peso de um silêncio que não cabe num rodapé: há casais com filhos e pessoas empregadas a viver nas ruas de Lisboa. Não é uma metáfora. Não é literatura. É um inventário humano feito à luz fria da manhã, enquanto uma mão voluntária estende um café e outra mão — invisível, burocrática, muito bem remunerada — assina mais um "plano", mais uma "estratégia", mais uma "comissão".

E é aqui que o país se revela: Portugal tem uma especialidade antiga — a de transformar tragédias em rotina, e rotina em "normalidade". A rua deixa de ser exceção. Passa a ser habitação provisória com prazo indeterminado. A criança aprende cedo a geografia do alcatrão: "Aqui dorme-se mais seguro, ali chove menos, acolá a polícia passa e finge que não vê."

O milagre português: trabalhar e mesmo assim não caber no orçamento

Há um paradoxo que devia envergonhar qualquer democracia que se leve a sério: ter emprego e não ter casa. É o novo certificado de modernidade: o cidadão contribui, cumpre horários, paga IVA até na água… e, no fim do dia, não tem porta para fechar. Tem uma esquina, um viaduto, um recanto entre contentores — o Airbnb da desesperança, sem check-in e sem check-out.

Noutro país, isto seria um escândalo nacional. Aqui, é apenas "uma peça" no telejornal — e amanhã haverá outra. O sofrimento em Portugal ganhou ritmo noticioso: entra, toca, sai. E nós seguimos, como se o drama fosse meteorologia: "Está frio? Sim. Está vento? Sim. Está gente na rua com filhos? Também."

A caridade como anestesia (e a política como maquilhagem)

A Legião da Boa Vontade distribuiu pequenos-almoços. Benditos sejam os que não desistiram do humano. Mas repare-se na perversidade do quadro: a sociedade civil, de colete reflectivo e alma inteira, a fazer o trabalho que devia ser estrutural — e o Estado a assistir, com aquela expressão oficial de quem diz: "Estamos atentos." Em Portugal, "estar atento" é uma profissão. E, pelos vistos, dá carreira.

A caridade, quando se torna sistema, é também um espelho cruel: revela que o país se habituou a remendar em vez de construir. Remenda-se a fome, remenda-se o frio, remenda-se a vergonha. E chama-se "resposta". A resposta real, porém, seria impedir que a pergunta exista.

Democracia de fachada: o palco iluminado, a plateia a escurecer

A notícia de hoje não é só sobre Lisboa. É sobre a natureza do regime quando se torna circuito fechado: os de dentro a escolherem os de dentro, os cargos a multiplicarem-se como coelhos em gabinete aquecido, e o país real a encolher como um cobertor molhado.

Quando a democracia vira fantochada, o resultado é simples e matemático: cresce a distância entre o discurso e o chão. E o chão — esse chão onde dormem famílias — não vota em discursos. O chão vota em sobrevivência.

E então, Portugal "sem palavras"?

Não. Portugal não pode ficar sem palavras. Porque quando nos faltam palavras, sobram desculpas. E quando sobram desculpas, sobram ruas.

O que falta não é emoção — isso há de sobra, em cada chá quente distribuído e em cada criança que tenta brincar com o nada. O que falta é uma decisão colectiva: habitação, saúde mental, apoio social eficaz, rendas e salários que não sejam uma guerra civil lenta, e um Estado que não confunda "governar" com "gerir lugares".

Hoje foi Natal. Amanhã, para muitos, continuará a ser rua. A questão é: para quantos mais, e durante quantos anos, vamos aceitar que isto seja apenas "uma notícia"?

Fontes e referências

  • RTP Notícias — "Casais com filhos e pessoas empregadas a viver nas ruas de Lisboa" (actualizado a 25 Dezembro 2025, 13:52).
  • CML / Lisboa – Cidadania — página sobre respostas e equipas técnicas de rua para pessoas em situação de sem-abrigo (consulta para enquadramento institucional).
  • Visão — artigo de enquadramento com referência a evolução recente de números oficiais de pessoas sem habitação (contextualização do problema).

Nota: as referências acima destinam-se a suportar o enquadramento factual e institucional. O texto é uma crónica/ensaio de opinião.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos News Team — co-autoria com Augustus Veritas
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