Os Ilícitos de Barro: quando a política vive de conflitos de interesses e chama-lhe normalidade

- O truque recorrente: trocar o juízo ético pelo veredicto jurídico e dizer "não há ilícito" como se fosse "não há problema".
- O padrão: empresas familiares, consultorias opacas, portas giratórias e "transferências" para familiares quando o escrutínio aperta.
- A pergunta que dói: que empresa privada séria aceitaria um trabalhador a servir dois senhores ao mesmo tempo?
- O efeito social: normaliza-se a esperteza; ridiculariza-se a honra; trata-se o cidadão como figurante.
- O resultado: erosão de confiança, cinismo colectivo e uma democracia a funcionar a óleo queimado.
Os Ilícitos do Barro: quando a política vive de conflitos de interesses e chama-lhe normalidade
Há um momento em que a política deixa de ser administração do bem comum e passa a ser um negócio de bastidores com iluminação de palco. Nesse momento, as palavras já não descrevem a realidade — fabricam-na. E a frase "nenhum ilícito" é a peça principal desse arsenal: não é uma defesa; é uma encenação.
A experiência mental que destrói o teatro em 30 segundos
Imaginemos um trabalhador qualificado — um consultor de TI, por exemplo — contratado por uma empresa tecnológica privada. De manhã, trabalha para a empresa: projectos, clientes, arquitectura, segurança, informação sensível, estratégia comercial. À tarde, sai e vai para a sua própria empresa individual fazer serviços a clientes da mesma empresa onde trabalha.
Pergunta simples: alguma empresa séria aceitaria isto? Não. Nem por um dia. Nem por uma hora. O desfecho seria imediato: despedimento, processo disciplinar e, em muitos casos, consequências legais. E nem é preciso haver "crime": basta haver o que sempre existiu no trabalho honesto — dever de lealdade e conflito de interesses.
No privado chama-se falta grave. No público chama-se "normalidade"
Aqui está o nó: quando este comportamento aparece no Estado — ou em torno do Estado — a linguagem muda. A moral é empurrada para um canto, e a conversa passa a ser apenas sobre tecnicalidades: "não há ilícito", "não há prova", "não há notícia de crime".
Repara no truque: ninguém afirma com coragem que é decente. Afirma-se apenas que é tolerado. E isto é a vitória do barro sobre a pedra: o barro molda-se, dobra-se, adapta-se, escorre — e depois endurece com verniz institucional.
O "nenhum ilícito" como arma política
O cidadão comum, que cumpre regras no trabalho e paga impostos, ouve "nenhum ilícito" e percebe outra coisa: "o sistema protege-se a si próprio". E quando a Justiça (ou as instituições) respondem com uma fórmula que soa a carimbo, instala-se uma suspeita pior do que a acusação: a suspeita de que o país é governado por um código invisível, escrito para os de cima e aplicado aos de baixo.
Nos últimos dias, voltou a circular informação pública sobre arquivamentos e averiguações ligadas ao caso Spinumviva e à esfera do primeiro-ministro, com reacções políticas e mediáticas previsivelmente inflamadas:
uns a celebrar, outros a denunciar que ficou por esclarecer o essencial.
(Para leitura directa: RTP e Lusa sobre arquivamentos e reacções públicas, e enquadramentos internacionais.)
Fontes:
RTP (Procuradoria Europeia / Spinumviva) ·
RTP (MP arquiva averiguação) ·
Reuters (enquadramento)
A pergunta certa: "isto seria aceitável numa empresa?"
Esta é a pergunta que põe os pontos nos i. Porque o Estado não é um recreio ético. O dinheiro público não é dinheiro sem dono. E a democracia não foi criada para ser um campo de caça reservado a quem sabe mexer nos atalhos.
Se o sector privado — com todas as suas imperfeições — exige lealdade, transparência e incompatibilidades, então o sector público deveria exigir ainda mais. O problema é que, em Portugal, há quem queira que o público funcione com a moral do mínimo e a protecção do máximo.
O que devia ser regra (e não é)
Não precisamos de slogans. Precisamos de regras simples, aplicáveis e auditáveis:
- Incompatibilidades claras para cargos políticos e altos cargos públicos com interesses privados relevantes.
- Transparência real sobre clientes, contratos, consultorias e beneficiários efectivos — com prazos curtos e sanções.
- Períodos de nojo (cooling-off) antes e depois do exercício de funções, para travar a porta giratória.
- Declarações patrimoniais compreensíveis, verificáveis e fiscalizadas a sério.
- Consequência política: mesmo quando "não há ilícito", pode haver inaptidão.
Epílogo: um país não se governa com barro
O que corrói uma democracia não é apenas o crime. É a normalização do indecente. É o hábito de olhar para um conflito de interesses e chamá-lo "coisa nenhuma". É o cidadão a sentir que trabalha sob regras, enquanto outros vivem numa zona franca moral.
Quando a política se torna matreira, o povo aprende a ser cínico. E quando o povo se torna cínico, a democracia começa a morrer — não com explosão, mas com bocejo.
Por isso, não: nenhuma empresa séria aceitaria a conduta do "meio-dia em dois mundos". E se a política quer ser respeitada, tem de fazer uma escolha simples: ou serve o país, ou serve-se do país.
Como dirá o povo : "ou há moralidade ou comem todos"
Fragmentos do Caos — crónica para quem não aceita ser tratado como figurante neste Teatro disfarçado de democracia.